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Underworld ‘Bull’ Weed (George Bancroft) é um famoso assaltante, rei no submundo do crime, mas nem por isso deixando de ter coração, o que o leva a apiedar-se de ‘Rolls Royce’ Wensel (Clive Brook), um antigo advogado caído no alcoolismo, principalmente depois deste ser maltratado pelo sádico ‘Buck’ Mulligan (Fred Kohler), rival de Weed. Weed faz de ‘Rolls Royce’ o seu braço direito, e por isso vem a sentir-se traído quando percebe que o seu protegido se apaixonou por ‘Feathers’ McCoy (Evelyn Brent), a sua namorada. Num acesso de fúria, Weed perde as estribeiras e mata o rival ‘Buck’ Mulligan, sendo por isso aprisionado. Resta a ‘Rolls Royce’ e ‘Feathers’ tentarem salvá-lo, mas Weed suspeita das motivações do par.

Análise:

Na longa lista de emigrados europeus para o cinema de Hollywood, que o começaram a enriquecer a meio da década de 1920, conta-se o alemão, Josef von Sternberg, o qual, ao contrário de casos de autores já consagrados (como Murnau ou Lang), iniciaria a sua carreira de realizador nos Estados Unidos. Segundo consta, foi o próprio Charles Chaplin que lhe reconheceu qualidades logo no filme de estreia, sugerindo que a United Artists o patrocinasse. Seria em 1927, depois de alguns trabalhos não creditados e de uma aposta falhada em “A Woman of the Sea” (1926), feito para a Charles Chaplin Productions como veículo para a protegida deste, Edna Purviance, que finalmente, e já na Famous Players-Lasky (futura Paramount) de Adolph Zukor e Jesse L. Lasky, Sternberg conseguiria a notoriedade.

Tal deveu-se a uma aposta, no mínimo, arriscada. Um filme onde os protagonistas eram todos criminosos, e que se tornaria um dos protótipos do que se veio a chamar o filme de gangsters: “Vidas Tenebrosas”.

Tudo começou na história de Ben Hecht, que originalmente deveria ser realizada por Arthur Rosson (que ainda dirigiu os primeiros dias de produção), o qual foi despedido, abrindo lugar para Sternberg, que trabalhou sobre um argumento desenvolvido por Charles Furthman e Robert N. Lee. Nele acompanhamos ‘Bull’ Weed (George Bancroft), um bonacheirão e extrovertido assaltante, com reputação em alta no submundo do crime. Mas há um lado dócil em ‘Bull’ Weed, que vemos surgir num momento em que o seu rival ‘Buck’ Mulligan (Fred Kohler) maltrata um bêbedo, em defesa do qual o gangster se insurge. O bêbedo é ‘Rolls Royce’ Wensel (Clive Brook), um antigo advogado, agora caído no alcoolismo, que ‘Bull’ Weed decide reabilitar, ao ponto de se vir a tornar o seu braço direito. Tudo parece ir bem, com ‘Rolls Royce’ a ser o cérebro das operações nas quais ‘Bull’ Weed é o músculo, até que, durante uma festa, ‘Bull’ Weed percebe que a sua namorada ‘Feathers’ McCoy (Evelyn Brent) e ‘Rolls Royce’ começam a apaixonar-se um pelo outro. Com a raiva, e o excesso de álcool, ‘Bull’ Weed excede-se num confronto e acaba por matar ‘Buck’ Mulligan, indo por isso preso. ‘Rolls Royce’ e ‘Feathers’ vêem nisso uma oportunidade de fugir juntos, mas a obrigação para com o amigo fala mais alto, e decidem ficar para o ajudar a escapar da prisão. Só que, ciente do plano, Weed suspeita que seja apenas um truque para o casal se livrar dele, acabando por tentar fugir por conta própria. Ao ser perseguido, Weed é cercado no seu antigo esconderijo, cuja chave da porta secreta está com ‘Rolls Royce’. Mas este, ao saber do sucedido, procura Weed, com ‘Feathers’, com risco das suas vidas. Ao perceber que os amigos nunca o traíram, Weed sacrifica-se por eles, protegendo-lhes a fuga, e entregando-se para para que eles escapem.

Vendo “Vidas Tenebrosas” à distância de quase cem anos, não deixa de ser notável o realismo com que as cenas de violência são tratadas, no que constituiu uma inovação na época. Muito no filme foi, aliás, notado pela inovação trazida: o foco nos criminosos como heróis dramáticos, a atmosfera negra, a tragédia associada ao protagonista, a velocidade de algumas sequências, a cidade de ruas sujas e becos sinistros, o cerco e tiroteio final, foram apenas algumas das características que se tornariam lugares-comuns nos filmes sobre o mundo do crime, que têm neste “Vidas Tenebrosas” uma espécie de matriz.

Com algo das sombras do cinema alemão na base da fotografia de Sternberg (o que não pode ser visto como surpresa), o filme é ainda mais notável pelo seu contexto, no qual os criminosos são convertidos em heróis, e o final nos traz uma redenção do protagonista, num sentido sacrifício para salvar aquilo que ele reconhece como um verdadeiro amor, e uma lealdade a toda a prova. São, na lógica do filme, estes os valores fundamentais. Mais que pensarmos em leis e na forma como são quebradas, aquilo que domina o enredo de “Vidas Tenebrosas” são as lealdades e comportamentos. Nessa lógica, ‘Buck’ Mulligan é um vilão, não por ser um conhecido fora-da-lei, mas pela sua atitude desprezível para com ‘Rolls Royce’, no momento em que este está em baixo, e pelo modo como tenta aproveitar-se da debilidade de ‘Bull’ Weed. Nesse mesmo sentido, ‘Bull’ Weed redime-se em herói, primeiro por ter salvo ‘Rolls Royce’ da sua queda no alcoolismo, e depois pela magnanimidade de reconhecer a lealdade do seu amigo, e abdicar do seu ciúme e raiva, para se sacrificar pelo casal no qual reconhece um verdadeiro amor. Nada resume melhor tudo isto que a frase final de Weed, que quando a polícia lhe diz que a única coisa que ganhou foi mais uma hora de vida, lhes responde «mas foi uma hora em que aprendi algo que valeu mais que toda a minha vida». É um confirmar do valor da lealdade e do altruísmo de gestos entre pares, que está acima de qualquer código legal.

Claro que o filme não deixa de ter um lado perfeitamente romântico, como, mais uma vez, se denota na redenção do protagonista, e na rivalidade entre protegido e protector, que vem talvez, dos dias de Tristão e Isolda. Mas, para o bem ou para o mal, “Vidas Tenebrosas” tornou.se um modelo a seguir, que lhe valeu, inclusivamente o Oscar de Melhor Argumento.

“Vidas Tenebrosas” foi alvo de um restauro em 2010, com banda sonora de Robert Israel. Note-se ainda a curiosidade de o futuro realizador Henry Hathaway ter trabalhado como assistente neste filme, que também teve na equipa, embora não creditada, Edith Head, a mais importante das figurinistas da Paramount em toda a sua era dourada, e Larry Semon, um dos grandes nomes da comédia burlesca, então já em desaparecimento. Note-se finalmente como a cena da humilhação de ‘Rolls Royce’ por ‘Buck’ Mulligan é igual à do personagem de Dean Martin, décadas depois, em “Rio Bravo” (1959), de Howard Hawks, o qual trabalhou no guião de “Vidas Tenebrosas”.

George Bancroft, Clive Brooke Evelyn Brent em "Vidas Tenebrosas" (Underworld, 1927) de Josef von Sternberg

Produção:

Título original: Underworld; Produção: Famous Players-Lasky Corporation; Produtores Executivos: Adolph Zukor, Jesse L. Lasky; País: EUA; Ano: 1927; Duração: 81 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 20 Agosto de 1927 (EUA), 7 de Novembro de 1928 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Josef von Sternberg, Arthur Rosson [não creditado]; Produção: Hector Turnbull; Produtor Associado: B.P. Schulberg; Argumento: Charles Furthman, Robert N. Lee, Howard Hawks [não creditado], Josef von Sternberg [não creditado] [a partir de uma história de Bem Hetch]; Intertítulos: George Marion Jr.; Fotografia: Bert Glennon [preto e branco]; Montagem: E. Lloyd Sheldon; Design de Produção: ; Direcção Artística: ; Cenários: Hans Dreier [não creditado]; Figurinos: Travis Banton; Caracterização: ; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: .

Elenco:

George Bancroft (‘Bull’ Weed), Evelyn Brent (‘Feathers’ McCoy), Clive Brook (‘Rolls Royce’ Wensel), Fred Kohler (‘Buck’ Mulligan), Helen Lynch (Meg, Namorada de Mulligan), Larry Semon (‘Slippy’ Lewis), Jerry Mandy (Paloma).

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