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Sunrise: A Song of Two Humans Um Marido (George O’Brien) e uma Esposa (Janet Gaynor) vivem uma vida triste no campo, com o amor e a alegria do passado já esquecidos. Ele tem uma amante, uma mulher da cidade (Margaret Livingston) que o tenta convencer a deixar tudo, vender a quinta e matar a Esposa. Para tal convence-o a simular um naufrágio num bote. O Marido leva o plano adiante, mas no último momento arrepende-se, e conduz a Esposa a terra. Esta foge e ele segue-a para a cidade, pedindo-lhe perdão. Juntos os dois passeiam, vêem um casamento, relembrando o seu, tiram fotos, e vão ter a uma festa, onde recuperam a felicidade. Mas no caminho de casa a uma tempestade faz virar o barco.

Análise:

No final de 1926, o realizador alemão F. W. Murnau deixava a sua Alemanha natal, para tentar uma carreira em Hollywood. O convite viera de William Fox e da sua Fox Film Corporation (uma das empresas da qual nasceria a famosa Twentieth-Century Fox). Na altura reputado como um cineasta de vanguarda, responsável por algumas obras maiores do cinema expressionista dos anos 20, Murnau iria agora para uma nova realidade e país, e principalmente com um público muito mais numeroso. Consigo levaria Carl Mayer, o argumentista que já o acompanhara em, por exemplo “O Castelo Maldito” (Schloß Vogelöd, 1921), “O Último dos Homens” (Der letzte Mann 1924) e “Tartufo” (Herr Tartüff, 1925), e com o qual desenvolveria este “Aurora”, um melodrama americano.

Parte das novas possibilidades técnicas que Murnau veio a encontrar, foi o uso do sistema de som Fox Movietone, que permitia a gravação de uma banda sonora, com música, ruídos e efeitos sonoros (inclusivamente sons de pessoas em imagens de multidões) que acompanharia o filme, fazendo de “Aurora” a primeira longa-metragem acompanhada de tal tipo de som síncrono. O filme estreou mesmo antes de “O Cantor de Jazz” (The Jazz Singer, 1927) de Alan Crosland, mas não teve o impacto deste, pois o som não estava associado às palavras dos protagonistas.

A história fala-nos de um casal em separação, pois o Marido (George O’Brien) apaixonou-se por uma mulher da cidade (Margaret Livingston) que faz dele o que quer, levando-o a desprezar a Esposa (Janet Gaynor) que ele tanto amara. Quando a amante o convence a matar a Esposa, fingindo um acidente de barco, o Marido no último momento arrepende-se. A Esposa foge, e ele segue-a, acabando os dois na cidade, onde o Marido vai pedindo perdão. Aos poucos, o casal vai vivendo vários momentos românticos, assistindo a um casamento, tendo a fotografia tirada, participando numa festa, vendo assim o seu laço amoroso fortificado. Ao cair a noite regressam, mas uma tempestade apanha-os no barco, e este vira-se. Quando o Marido recupera os sentidos, na margem, perdeu-se da Esposa, que crê ter morrido. Ao ser aguardado pela amante que o vem congratular pelo plano, ele quase a mata, até que os amigos chegam dizendo que encontraram a Esposa, que também sobreviveu

Com uma estrutura que divide a história em três andamentos (trágico-alegre-trágico), “Aurora” é um melodrama de amor de um casal que se perdeu um do outro, e onde a alegria da paixão é agora uma memória distante. Como causa parece estar o fascínio da cidade, materializada na mulher que vem para o campo para tentar o Marido. Será o confronto com os gestos criminosos do Marido que servirão para o acordar, e uma passagem pela cidade, com a Esposa ao seu lado, que trarão de volta os sentimentos iniciais de alegria e amor. Por ironia, no tal terceiro acto, o do regresso a casa, o naufrágio planeado no início acontece mesmo, mas agora por causas naturais, e contra a vontade do Marido, que verá no salvamento da Esposa a maior das suas alegrias.

Pelo meio vemos o casal na cidade, numa viagem que começa e termina em eléctricos, e onde se deliciam vendo o amor do outros, como um acordar daquilo que eles próprios viveram em tempos (não descurando o significado religioso desse ressuscitar perante imagens de valor simbólico e religioso). O casamento, as fotos, a festa, são episódios que marcam essa alegria e redescobrir de que, afinal, tudo aquilo com que ambos sonham existe ainda, um no outro, a precisar apenas de ser desperto de novo. É essa a tal história universal que Murnau e Mayer quiseram dar ao mundo, e pela qual decidiram que os personagens não teriam nomes, para mais fácil poderem ser cada um de nós.

Filmando os interiores em estúdio, Murnau consegue trazer para Hollywood muito do seu cinema de sombras, logo desde os ameaçadores céus escuros do início do filme, até à tempestade final, passando por toda a profundidade e textura das sequências nocturnas. Com uma menor estilização que a do cinema alemão, há, ainda assim, uma continuidade estética com a sua obra anterior. A isto Murnau junta uma fotografia brilhante, com planos de enorme riqueza cénica, e um inovador conjunto de soluções cinemáticas, que vão dos planos divididos, com sobreposições, flashbacks, ao modo como os intertítulos (esparsos, já que Murnau os detestava), parecem ter vida e ter comportamento próprio, passando pelos incríveis travellings e planos de grande fôlego.

“Aurora” passou despercebido junto do grande público, tendo no entanto sido agraciado na primeira cerimónia dos Oscars, onde venceu o prémio de “Unique and Artistic Picture”, a única vez que tal troféu foi atribuído. O filme ajudaria Janet Gaynor (a qual foi uma segunda escolha, já que Murnau preferira a alemã Camilla Horn, e pelo qual a fez usar uma peruca loura) a receber o prémio de Melhor actriz, que nesse ano lhe foi atribuído pelos papéis em “Aurora”, mas também em “A Hora Suprema” (7th Heaven, 1927) e “O Anjo da Rua” Street Angel, 1928), ambos de Frank Borzage.

O filme tem, desde então, sido considerado um dos maiores marcos do cinema, surgindo muitas vezes entre os primeiros, nas listas dos melhores filmes de sempre. Foi mesmo o primeiro filme mudo a ser editado em Blu-ray, o que aconteceu em 2009 (pela Eureka Entertainment).

George O'Brien e Margaret Livingston em "Aurora" (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927) de F. W. Murnau

Produção:

Título original: Sunrise: A Song of Two Humans; Produção: Fox Film Corporation; Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1927; Duração: 91 minutos; Distribuição: Fox Film Corporation; Estreia: 23 de Setembro de 1927 (EUA), 4 de Março de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: F. W. Murnau; Produção: ; Produtor Associado: ; Argumento: Carl Mayer [a partir de uma história de Hermann Sudermann]; Intertítulos: Katherine Hilliker, H. H. Caldwell; Música: ; Orquestração: ; Fotografia: Charles Rosher, Karl Struss [preto e branco]; Montagem: Harold D. Schuster [não creditado]; Design de Produção: ; Direcção Artística: Rochus Gliese [não creditado]; Cenários: ; Figurinos: ; Caracterização: Charles Dudley [não creditado]; Efeitos Especiais: Frank D. Williams [não creditado]; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: .

Elenco:

George O’Brien (O Marido), Janet Gaynor (A Mulher), Margaret Livingston (A Mulher da Cidade), Bodil Rosing (A Criada), J. Farrell MacDonald (O Fotógrafo), Ralph Sipperly (O Barbeiro), Jane Winton (A Manicure), Arthur Housman (O Cavalheiro Inconveniente), Eddie Boland (O Cavalheiro Delicado).

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