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7th Heaven Na França da década de 1910, Diane (Janet Gaynor) é uma órfã, que vive sob os maus tratos da irmã Nana (Gladys Brockwell), até ao regresso dos tios ricos, que ao repudiarem as duas sobrinhas pela vida dissoluta de Nana, causam a fúria desta que quase mata Diane. A rapariga é salva por Chico (Charles Farrell), um trabalhador dos esgotos que sonha com a promoção que o leve à limpeza de ruas. Este leva Diane para sua casa, e os dois acabam por se apaixonar, devolvendo a fé perdida de Chico, e trazendo razão de viver para Diane. Mas a chegada da Primeira Guerra Mundial vai separá-los, quem sabe para sempre.

Análise:

O ano de 1927 foi, sem dúvida, um ano essencial na história do cinema de Hollywood. Dele saíram inúmeros clássicos, numa fase em que o cinema mudo norte-americano mostrava estar no seu auge. Foi o caso deste “A Hora Suprema”, obra da Fox Film Corporation, realizado pelo norte-americano, discípulo de Murnau, Frank Borzage, a partir da peça de teatro de Austin Strong, estreada em 1922, e que unia pela primeira vez a dupla Janet Gaynor e Charles Farrell, cuja popularidade seria tal, que protagonizariam mais onze filmes juntos.

Passado em França, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, “A Hora Suprema” conta-nos a história de Diane (Janet Gaynor), uma pobre órfã, que vive com a sua tirânica irmã Nana (Gladys Brockwell), e de Chico (Charles Farrell), um trabalhador dos esgotos que sonha com a promoção que o leve à limpeza de ruas. Um dia, os tios ricos de Diane e Nana regressam, prontos a adoptar as raparigas. Mas acabam porrepudiá-las, devido à vida dissoluta de Nana, que eles supõem ser também a de Diane. Na fúria que sente, a primeira maltrata a segunda a ponto de a tentar matar. A salvá-la surge Chico, um homem que já não acredita em Deus, pois nunca conseguiu nenhum dos seus sonhos, casar e passar à limpeza de ruas. Ouvindo-o, o padre Chevillon (Emile Chautard) concede-lhe o segundo desejo, enquanto Chico alberga Diane, que não tem onde morar. Uma coisa leva a outra, e Chico e Diane apaixonam-se, mas quando o assumem, Chico é chamado para a guerra. Diane espera fielmente, trabalhando numa fábrica de munições e resistindo aos avanços do coronel Brissac (Ben Bard). Quando é anunciado o armistício chega também a informação de que Chico morreu a lutar, o que se vem a provar falso, com Chico a chegar, cego, mas feliz por se reunir com a sua amada.

No jeito dos grandes romances realistas do final do século XIX, “A Hora Suprema”, não só se passa na Europa, como lida com as condições sociais das classes mais desfavorecidas, onde pontifica o desejo quase irónico de Chico, que gostaria de subir na vida, deixando os esgotos e passando a trabalhar nas ruas (isto é, literalmente mais acima). A piada continua com a forma como a sua relação com o vizinho Gobin (David Butler) evolui. Primeiro Gobin trata Chico e o colega Rato (George E. Stone) com desprezo, depois trata-o como um igual, colega da mais digna profissão dos que limpam as ruas. Por outro lado temos Diane, moça de coração puro, que vive torturada pela irmã, e que pela vida dissoluta desta acaba por pagar o preço do abandono dos tios.

Nesse contexto de vidas pobres, pessoas honradas mas infelizes, temos depois o tema seguinte, o da fé religiosa, na pessoa do padre Chevillon, que promete a Chico que as suas preces serão ouvidas mesmo quando este já não acredita (e muito comicamente conta como já deu 10 francos a Deus, em duas oferendas, para nada). A primeira das preces de Chico é satisfeita pelo próprio padre, que a troco de estimular a fé no seu interlocutor, lhe consegue o emprego desejado. Já a segunda irá acontecendo mais tarde, quando a boa acção de Chico (salvar Diane da irmã dela), lhe vale o crescendo afecto entre os dois, que se tornará amor. Esta ligação entre a constatação de amor e a fé é explicitada quando, para simbolizar o casamento, Chico escolhe os dois colares religiosos que o padre lhe havia oferecido.

Segue-se uma história de abnegação, devoção (a esse mesmo amor) e fé (aquela que agora se refere ao final feliz que ambos esperam, pese a guerra que os separa). São esses sentimentos nobres que levam a que o casal, na boa tradição romanesca, sobreviva a tudo, mesmo à notícia de que um deles terá morrido. Tal acontece sempre com uma dose de boa disposição, principalmente provinda da personagem jocosa de Chico, um homem simples, mas decidido, o tal «homem notável» que ele passa o tempo a dizer que é, e cuja atitude contagia a antes tristonha Diane.

Mas se a história não surpreende, o que marca ainda mais “A Hora Suprema”, para além da mensagem bem veiculada, e sentimentos simples, mas eficazes, é a estética usada por Borzage. Filmando com arrojo, note-se as sequências da defesa de Paris, com a multitude de figurantes, e cenas de acção que resultam em movimentos complexos de personagens e veículos (com o uso inteligente de maquetes para simular enormes movimentos em massa), Borzage mostra-se um pupilo do Expressionismo, a que não era alheio o facto de privar com Murnau na Fox. Da construção do prédio onde viviam Chico e Diane (três andares, cujas subidas e descidas acompanhamos em movimentos contínuos da câmara, pelo lado de fora), às sombras, ângulos oblíquos e linhas raramente horizontais ou verticais. Muitos são ainda os travellings , quer em ruas sinuosas, acompanhando os movimentos dos personagens de um modo quase hipnótico, quer em subidas por espirais dentro do citado prédio. Toda a mise-en-scène é rebuscada, pensada para nos desafiar o olhar, nessa provocação que é o Expressionismo de imagens distorcidas e perspectivas insólitas, poucas vezes filmado com tanto brilho no cinema de Hollywood.

Destaque ainda para toda a dinâmica dos personagens de Janet Gaynor e Charles Farrell, sobretudo na fase em que começam a morar juntos, não admitindo que possam ter alguma ligação romântica, e cujos movimentos e olhares os vão traindo, num desafio constante e que, anos depois, sob o vigor do Código de Hays, não seria possível mostrar.

Inicialmente exibido como filme mudo, “A Hora Suprema” teve um relançamento em Setembro, fazendo uso do sistema de sincronização de som Movietone, que permitia que o filme fosse acompanhado de uma banda sonora com música e efeitos sonoros que acompanhavam o filme.

O filme foi um estrondoso sucesso, tanto comercial como em termos de crítica, tendo sido agraciado na primeira entrega de Oscars (em 1929), como um dos três nomeados na categoria de “Outstanding Picture” (categoria que antecedeu a de “Best Picture/Melhor Filme”), vencendo os prémios de Melhor Realizador, Melhor Argumento e Melhor Actriz, sendo que Janet Gaynor venceu pelas participações em três filmes, este, bem como “Aurora” (Sunrise: A Song of Two Humans, 1927) de F. W. Murnau e “O Anjo da Rua” (Street Angel, 1928), também de Borzage.

Janet Gaynor e Charles Farrell em "A Hora Suprema" (7th Heaven, 1927) de Frank Borzage

Produção:

Título original: 7th Heaven; Produção: Frank Borzage Production,
Fox Film Corporation; Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1927; Duração: 118 minutos; Distribuição: Fox Film Corporation; Estreia: 6 de Maio de 1927 (EUA), 27 de Abril de 1928 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Frank Borzage; Produção: William Fox; Argumento: Benjamin Glazer, Bernard Vorhaus [não creditado] [a partir da peça homónima de Austin Strong]; Diálogos: Katherine Hilliker, H.H. Caldwell; Música: Erno Rapee [não creditado], William P. Perry [não creditado]; Orquestração: Maurice Baron [não creditado]; Fotografia: Ernest Palmer, Joseph A. Valentine [preto e branco]; Montagem: Barney Wolf; Direcção Artística: Freddie Stoos [não creditado]; Cenários: Harry Oliver; Figurinos: Kathleen Kay, Bert Offord [não creditado]; Direcção de Produção: Sol M. Wurtzel.

Elenco:

Janet Gaynor (Diane), Charles Farrell (Chico), Albert Gran (Papa Boul, O Taxista), David Butler (Gobin, O Lavador de Ruas), Marie Mosquini (Madame Gobin), Gladys Brockwell (Nana), Emile Chautard (Padre Chevillon), Ben Bard (Coronel Brissac), George E. Stone (Rato, Trabalhador do Esgoto).

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