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Aquilo Monty (William Austin), sócio de Cyrus T. Waltham (Antonio Moreno), o dono de uma grande cadeia lojas, lê na Cosmopolitan sobre «aquilo», um poder de atracção que algumas pessoas têm, e vai procurá-lo nas empregadas do sócio. Entre elas descobre a balconista Betty (Clara Bow), que vê nos avanços de Monty uma oportunidade de se aproximar de Waltham, por quem nutre uma paixão platónica. Sem saber quem é a misteriosa rapariga que Monty leva consigo para um jantar, Waltham começa a interessar-se por Betty. Só que um mal entendido faz com que Betty finja ser mãe solteira de um bebé, o que desagrada Waltham que assim já não se vê a casar com ela.

Análise:

Em 1927, pelas mãos de Jesse L. Lasky, Adolph Zukor, os homens fortes da Famous Players-Lasky Corporation (futura Paramount Pictures, que então era apenas a empresa de distribuição), surgia um dos maiores fenómenos de popularidade dos anos 20, um filme que se tornava um fenómeno pop no sentido moderno do termo, e dos primeiros a ser fruto de uma estratégia comercial planeada, com recurso àquilo que se hoje se chama product placement. “Aquilo”, realizado por Clarence G. Badger, um homem da primeira geração de Hollywood, antigo discípulo de Mack Sennett, mas com propensões para uma comédia mais subtil, partia da ideia da escritora Elinor Glyn e da sua história “It”, publicada em duas partes na revista Cosmopolitan. Nessa história, a autora define «it» (aquilo), como o que hoje chamaríamos sensualidade, ou sex appeal, segundo as suas palavras (que constituem o quadro inicial do filme) «uma qualidade que algumas pessoas têm que atrai todos os outros como uma força magnética. Com “aquilo” uma mulher conquista todos os homens e um homem conquista todas as mulheres. “Aquilo” pode ser uma qualidade mental ou uma atracção física».

Elinor Glyn vendeu a ideia a Lasky e Zukor por 50 mil dólares, teve crédito de produtora, bem como de inspiradora do argumento, e ainda um pequeno cameo interpretando-se a si mesma, como autora do artigo da Cosmopolitan, revista que, assim, é referida no filme várias vezes. No final, o filme (escrito por Hope Loring e Louis D. Lighton) acaba por não usar a história de Glyn para além desse conceito, uma vez que no conto original o protagonista era um homem da alta sociedade, e no filme seria uma rapariga pobre.

Mas nada dito teria sentido se os conceitos provocantes e chamativos da ideia base não encontrassem uma actriz que os personificasse, e o grande triunfo de “Aquilo” é a explosão de Clara Bow, até então uma actriz já popular na Famous Players-Lasky, mas que aqui consegue um papel que lhe define a carreira, e que de um dia para o outro a tornou maior estrela do cinema norte-americano da época.

Passando à história, esta leva-nos a um centro comercial, onde trabalha a balconista Betty (Clara Bow), a qual, um dia cai sob o olhar de Monty (William Austin), sócio de Cyrus T. Waltham (Antonio Moreno), o dono da cadeia lojas, e paixão platónica de Betty. É ao ler a Cosmopolitan que Monty procura «aquilo», a tal atracção que o faça cair aos pés de alguma mulher, e encontra-a em Betty, que convida de imediato para sair com ele. Esta, não perdendo a oportunidade de se aproximar de Waltham, aceita, e o par encontra-se com Waltham e a sua noiva (Jacqueline Gadsdon), no Ritz. Percebendo que Waltham se começa a interessar por ela, Betty inicia a sedução, e quando este a reencontra no centro comercial, não resiste a declarar as suas intenções. Só que, quando tudo parecia correr bem, em casa de Betty, esta para salvar a sua colega de quarto, a pobre desempregada Molly (Priscilla Bonner), de perder o seu bebé para os serviços sociais, diz que o bebé é seu. Quando Monty ouve, conta tudo a Waltham, que não pode aceitar que a mulher que ele ama tenha um filho de outro. A ruptura é iminente, até Betty descobrir a razão, e preparar uma pequena vingança, surgindo como acompanhante de Monty num iate onde Waltham, noiva e amigos passam uns dias. Tudo termina com a revelação da verdade, num infortunado naufrágio que leva Betty e Waltham aos braços um do outro.

Com uma história que segue os padrões da normal comédia romântica, “Aquilo” vale sobretudo pela prestação de Clara Bow, que depois da definição inicial se torna o centro das nossas atenções, pois, tal como Monty, também queremos saber o que é esse tal «aquilo» e como pode ser personificado. Bow fá-lo emprestando ao seu personagem graça e jovialidade, numa auto-confiança acerca da sua condição feminina, que era deveras inspiradora. Note-se, por exemplo a forma como Betty provoca Waltham em cima da secretária deste, num exemplo de confiança e força insuperável mesmo nos dias de hoje. Apercebendo-se disso, Badger coloca-a sempre como figura central, sabendo filmar a sua actriz, deixando-a solta para se expressar, e estando sempre atento aos seus gestos e rosto.

Filmado de modo simples e rápido (afinal era a escola Sennett que Badger ainda carregava), “Aquilo” está longe do convencional burlesco, procurando humor no modo como desenvolve os personagens, e em situações de equívoco que provêm mais do argumento, que das interpretações. Sem nada mais que o destaque a nível cinematográfico, o filme é quase que um passeio por cenários da alta sociedade, onde o pequeno episódio protagonizado pela colega de apartamento de Betty, empresta um ar social, que nos traz levemente à memória “O Garoto de Charlot” (The Kid, 1921) de Charles Chaplin.

O final é porventura o momento mais burlesco de todos, com um inusitado e aparatoso naufrágio, a provocar a reunião dos amantes. Note-se ainda como no plano final, quando o casal de protagonistas se reconcilia na âncora do iate, entre os dois, as letras visíveis do nome do iate por detrás deles formam «IT».

Com a campanha associada, e a ideia de trazer algo de ensinamento de uma sensualidade moderna que fascinava homens e mulheres, “Aquilo” foi um estrondoso sucesso de bilheteira, tornando-se ao seu tempo o maior sucesso de sempre de Hollywood até então. Como corolário, Clara Bow encetou uma carreira de grande sucesso, sendo desde sempre conhecida como «The It girl».

Considerado perdido durante algumas décadas, “Aquilo” foi encontrado em Praga em 1960, tendo depois disso sido alvo de restauros, e novas bandas sonoras em 1978 e 1992. Para a sua mitologia ficam ainda os seguintes factos. Um muito jovem Gary Cooper é mencionado como surgindo brevemente como um repórter, e Josef von Sternberg terá filmado algumas cenas substituindo Clarence G. Badger, temporariamente doente.

Clara Bow e Antonio Moreno em "Aquilo" (It, 1927) de Clarence G. Badger

Produção:

Título original: It; Produção: Famous Players-Lasky Corporation, Paramount Pictures; Produtores Executivos: Adolph Zukor, Jesse L. Lasky; País: EUA; Ano: 1927; Duração: 72 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 15 de Fevereiro de 1927 (EUA), 16 de Abril de 1928 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Clarence G. Badger, Josef von Sternberg [não creditado]; Produção: Elinor Glyn, Clarence G. Badger; Argumento: Hope Loring, Louis D. Lighton [a partir de uma história de Elinor Glyn]; Diálogos: George Marion Jr.; Fotografia: H. Kinley Martin [preto e branco]; Montagem: E. Lloyd Sheldon; Figurinos: Travis Banton [não creditado].

Elenco:

Clara Bow (Betty Lou), Antonio Moreno (Cyrus T. Waltham), William Austin (‘Monty’ Montgomery), Priscilla Bonner (Molly), Jacqueline Gadsdon (Adela Van Norman), Julia Swayne Gordon (Mrs. Van Norman), Elinor Glyn (Madame Elinor Glyn).

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