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The Scarlet Letter Numa comunidade puritana da Nova Inglaterra em fase de colonização americana, Hester Prynne (Lilian Gish), é uma rapariga de comportamentos espontâneos, constantemente criticados pela vizinhança, mas que acaba por atrair a tenção do reverendo Arthur Dimmesdale (Lars Hanson), que se apaixona por ela. O namoro é interrompido quando Dimsdale tem de viajar até Inglaterra, sabendo que Hester foi casada antes, sem ter, há anos, notícias do marido. No seu regresso, o reverendo descobre que Hester deu à luz uma filha sua, mas prefere enfrentar a humilhação sozinha, tendo de carregar ao peito a letra «A» de adultério. Os anos passam, mas a chegada inesperada do marido de Hester (Henry B. Walthall), volta a pôr o casal em cheque, e a relembrar ao reverendo a culpa que ele nunca expiou.

Análise:

A partir do livro “The Scarlet Letter: A Romance”, publicado pelo autor norte-americano Nataniel Hawthorne, em 1850, e que já tinha sido adaptado pelo menos seis vezes ao cinema, a Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) encomendou ao sueco Victor Sjöström o seu quinto filme desde que chegara aos Estados Unidos. Era ainda a fase da dependência da grande literatura, como base para construção de histórias para o cinema, desta vez pelas mãos de uma das mais importantes argumentistas deste período: Frances Marion. Contando com o também sueco Lars Hanson num dos principais papéis, ele que trabalhara com Sjöström no filme que o projectou internacionalmente, “A Saga de Gösta Berling” (Gösta Berlings Saga, 1924), “A Mulher Marcada” era, antes de mais, mais um veículo para aquela que era a mais importante actriz trágica das primeiras décadas de Hollywood, Lilian Gish, no seu segundo filme para a MGM.

O filme transporta-nos para a colonização dos Estados Unidos, com a criação das primeiras comunidades de europeus, muitas vezes imbuídos de um feroz espírito puritano, como é o caso da comunidade que acompanhamos, na região de Boston. Aí, o reverendo é o jovem e muito apreciado Arthur Dimmesdale (Lars Hanson), que lidera uma cidade muito austera, a qual vemos, por exemplo, criticar os modos espontâneos de Hester Prynne (Lilian Gish), uma rapariga capaz de sair de casa a correr atrás de um pássaro, assobiando, expondo o cabelo solto, e tudo no Sabbath.

Por entre reprimendas e castigos físicos, o reverendo apaixona-se por Hester, e estes começam um namoro não vigiado. Mas quando Arthur pede Hester em casamento esta revela que não pode, pois é já casada, com um homem que mal viu e se perdeu no mar. Arthur tem que ir a Inglaterra, e quando volta, meses depois, descobre que Hester deu à luz uma filha sua, pelo que será castigada pela cidade. Embora Arthur queira partilhar do castigo, Hester nega-lhe isso, já que prefere que, dos dois, um passe incólume pela vergonha e recriminação. Hester tem que carregar para sempre um «A» de «Adultério» ao peito, e anos mais tarde, vemo-la com a sua filha pequena, quando um homem de nome Roger (Henry B. Walthall) chega à cidade, e a reconhece como a sua antiga esposa. Roger procura Hester e fica horrorizado por ela ter uma filha. Quando Arthur chega para defender Hester, Roger percebe que é ele o pai da menina, e chantageia-os. Arthur e Hester vêem apenas uma solução, fugirem no primeiro navio e irem começar uma vida juntos noutro lugar. Mas no dia da partida, Roger confronta Arthur mostrando que sabe do plano e os seguirá, pelo que, depois de discursar em público, Arthur conta a todos ter sido ele o pai da filha de Hester, e se ela foi forçada a carregar a sua vergonha, ele marcou-a na carne. Em comoção Arthur morre, e o povo todo se apieda de Hester, ao finalmente aceitar aquele amor.

Existem diferenças nítidas entre o filme e a obra de Hawthorne, a começar pelo final, com Roger a morrer também no livro, deixando a sua herança a Hester, e a marca de Arthur Dimsdale no livro a ser considerada uma visão de alguns. É visivelmente importante a presença de Sjöström, representante de uma cultura (a escandinava) bastante mais liberal, e de um cinema que já tinha dado provas de lidar com tabus de forma progressista. Não espanta, desse ponto de vista, a abordagem que é de crítica feroz a uma sociedade fechada e puritana em excesso. O facto de o romance ter sido escolhido por Frances Marion reforça essa abordagem feminista, em que, desde o início, simpatizamos com a personalidade e as penas da personagem de Lilian Gish, a qual, foi uma imposição dos autores, contra a vontade de Louis B. Mayer que temia que a personalidade forte da actriz ofendesse os sectores mais conservadores do público. Afinal a MGM revelar-se-ia como a casa do conservadorismo nas décadas seguintes.

Mas sob as rédeas de Marion e Sjöström, “A Mulher Marcada” tornou-se decididamente um manifesto contra o puritanismo. Nele acompanhamos uma personagem alegre e descomprometida, e vemos como a sociedade a condena injustamente. O filme dá-nos a ler supostas passagens de códigos de conduta puritanos, que nos alertam sobre coisas como a lavagem da roupa interior (que deve ser feita em segredo) ou o processo de namoro (com o casal a falar mediante o uso de tubos que os obrigam a estar as dois braços de distância. São muitas as situações de ridicularização de costumes, exemplificadas pelos personagens de Giles (Karl Dane) e da Senhora Hibbins (Marcelle Corday), com o culminar no episódio em que aquele, se faz passar por ela, para a comprometer, acabando a puritana senhora a ser mergulhada em água como castigo pelas calúnias que nunca proferiu. O tom jocoso serve assim para apontar os excessos e ridicularizar os costumes de uma sociedade austera, pronta a julgar e a castigar.

Os pontos mais altos destas injustiças recaem sobre Hester. Começamos com um castigo por um desrespeito da solenidade do Sabbath, passamos ao ordálio da gravidez ilícita, com a humilhação pública e o carregar do infame «A» (a «scarlet letter» do título), passando pela tentativa de lhe tirar a bebé, e terminando na morte do reverendo, depois de engolir anos de culpa. É essa culpa, associada ao julgamento dos seus pares, que domina a história, onde cada personagem não é mais que aquilo que os outros pensam de si.

Muito em “A Mulher Marcada” pode ser visto como alegórico, Arthur e Hester como uma espécie de Adão e Eva num paraíso renovado (o idílio dos peregrinos nas novas colónias), expulsos por um pecado original. Ao mesmo tempo, é a queda do reverendo que o coloca ao nível do seu povo, tornando-o um orador inspirado da paz e do amor. A não desprezar são os planos do cadafalso, cujo enquadramento com a cidade lembra, sem dúvida propositadamente, o nosso imaginário do monte do calvário de Cristo. Tudo isto é, obviamente, reforçado pela presença de Lilian Gish, perfeita no peso trágico da sua sina, como o é pela sua jovialidade e ternura. Ao seu lado Hanson é seguro, e numa austeridade de coração humano, típica do actor sueco.

Das idílicas paisagens campestres (a corte de Arthur a Hester é de uma beleza memorável) aos interiores de reminiscências expressionistas (veja-se o uso da sombra, por exemplo com o reverendo de cabeça entre as mãos), passando pela força dos planos de conjunto na praça, com uma tensa decoupage nas montagens da praça, com todos os seus personagens e acontecimentos, Sjöström mostra a sua mestria, filmando com classe, e mantendo sempre o ritmo e tensão num nível elevado, com um olho subtil quer para a comédia, quer para o drama.

Apesar de tudo isso, e talvez pelo seu lado provocador, de denúncia de preconceitos e fundamentalismos inerentes à sociedade norte-americana, “A Mulher Marcada” foi um fracasso de bilheteira. Tal não impediu que, tal como acontecera antes de 1926, também depois o romance de Hawthorne fosse alvo de outras adaptações ao cinema, a mais mediática sendo, talvez, aquela filmada por Roland Joffé, intitulada ” Adultério” (The Scarlet Letter, 1995), com Demi Moore, Gary Oldman e Robert Duvall nos principais papéis.

Como curiosidades acrescente-se dois apontamentos. O filme foi irreverentemente anunciado com «It’s a real ‘A’ picture», fazendo o trocadilho com a letra A de «adultério» ostentada pela personagem de Lilian Gish. Greta Garbo, ela própria recém-chegada a Hollywood foi presença constante no set, para poder conviver com Sjöström e Hanson, dois amigos com quem podia matar saudades de falar sueco.

Lars Hanson e Lillian Gish em "A Mulher Marcada" (The Scarlet Letter, 1926) de Victor Sjöström

Produção:

Título original: The Scarlet Letter; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1926; Duração: 97 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 9 de Agosto de 1926 (EUA), 24 de Abril de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Victor Sjöström [como Victor Seastrom]; Produção: Victor Sjöström [não creditado]; Argumento: Frances Marion [a partir do livro homónimo de Nathaniel Hawthorne]; Música: William Axt [não creditado], David Mendoza [não creditado]; Fotografia: Hendrik Sartov [preto e branco]; Montagem: Hugh Wynn; Cenários: Cedric Gibbons, Sidney Ullman; Figurinos: Max Rée.

Elenco:

Lillian Gish (Hester Prynne), Lars Hanson (Reverendo Arthur Dimmesdale), Henry B. Walthall (Roger Prynne), Karl Dane (Giles), William H. Tooker (O Governor), Marcelle Corday (Senhora Hibbins), Fred Herzog (O Carcereiro), Jules Cowles (O Sacristão), Mary Hawes (Patience), Joyce Coad (Pearl), James A. Marcus (O Capitão do Navio).

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