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I vitelloni No grupo de amigos de aldeia, ociosos, que vivem sem trabalhar às custas da família, destaca-se Fausto (Franco Fabrizi), um conquistador, que não sabe ainda ter engravidado Sandra (Leonora Ruffo), irmã do seu amigo Moraldo (Franco Interlenghi). O grupo integra ainda o exuberante Alberto (Alberto Sordi), o cantor Riccardo (Riccardo Fellini), e o pretendente de dramaturgo, Leopoldo (Leopoldo Trieste). Juntos vão marcando o Verão da aldeia, enquanto Fausto vai ter de casar para assumir a paternidade do filho de Sandra, sem que isso lhe traga exactamente maior responsabilidade, num estilo de vida que teima em não deixar que os jovens cresçam.

Análise:

Depois do menos bom resultado do seu filme de estreia a solo, “O Sheik Branco” (Lo sceicco bianco, 1952), Federico Fellini estreava o seu filme seguinte no Festival de Veneza onde seria agraciado com o Leão de Prata. Era mais um passo do realizador naquilo que seria a sua temática nos anos 50, uma sátira mordaz à sociedade feita de aparências, vista a partir daqueles que se mostravam como vencidos da vida, pessoas sem valor, que sobreviviam com cinismo, usando-se uns aos outros, sem nada construir de útil.

“Os Inúteis”, como o título português define, são de facto os preguiçosos e desocupados, jovens adultos de classe média que não seguem um trabalho ou carreira, procurando saídas fáceis, vivendo à custa das famílias, na ilusão de que algo venha mudar as suas vidas. Mesmo sem convicção, acreditam que . a mudança virá um dia, simplesmente porque acham que a merecem. Por isso, eles são cínicos, egoístas, vivendo como playboys, numa arrogância que os faz sentir superiores aos que trabalham e seguem uma vida de sofrimento e compromisso.

Apresentados em off (o filme tem narração off, como se assistíssemos a um documentário sobre uma espécie rara), vemo-los numa festa de aldeia, onde nos são apresentados um por um. Destaca-se desde logo Fausto (Franco Fabrizi), um conquistador, que não sabe ainda ter engravidado Sandra (Leonora Ruffo), irmã do seu amigo Moraldo (Franco Interlenghi). Com eles está ainda o histriónico Alberto (Alberto Sordi), dado à bebida pelas desilusões caseiras, que levam a irmã Olga (Claude Farell) a fugir de casa, o cantor lírico Riccardo (Riccardo Fellini), e o pretendente de dramaturgo, Leopoldo (Leopoldo Trieste), o mais introvertido do grupo.

Finda a noite, que é como quem diz, findo o Verão, época alta de festividades e devaneios, e a gravidez de Sandra é descoberta, levando Fausto a um casamento que ele não quer, e que quase evita tentando fugir de casa. O casamento não impede Fausto de continuar a vida desregrada, conseguindo ser despedido por tentar seduzir a patroa, ser apanhado a roubar uma estátua religiosa para vender, e ser encontrado com outras mulheres, actividades para as quais geralmente arrasta o cunhado Moraldo, o mais jovem e influenciável do grupo.

Com um carácter episódico, cenas soltas, e por vezes bem dispostas, Fellini vai-nos mostrando o mundo oco dos seus «inúteis», os cinco rapazes que sonham com grandeza, não dando um passo para a tentar alcançar. Vemo-los a beber, a jogar ociosamente, a passar o tempo nas tabernas, a ir a festas, a perseguir mulheres, ou a gozar infantilmente com as outras pessoas. Principalmente Fausto, o casado, e mais incorrigível do grupo. Acompanhamos a depressão de Alberto, e a tentativa frustrada de Leopoldo em convencer um actor em ser seu patrono, quando este afinal apenas quer os favores sexuais de Leopoldo. Por fim vemos o desaparecimento de Sandra, que todos procuram desesperadamente, para a encontrarem em casa do sogro (Jean Brochard), o qual dá uma tareia no filho Fausto, que o faz (pelo menos por momentos), descer à terra e tentar agradar à esposa.

Esta desolação moral e de objectivos é filmada por Fellini em deambulações errantes pela aldeia, principalmente à noite, em ruas ventosas, dando sempre uma sensação de lugar incómodo e desconfortável, sem nada para oferecer. O ciclo rompe-se com a saída de Moraldo, que é o primeiro do grupo com coragem para deixar a aldeia, metendo-se no comboio para procurar construir uma vida sua (supostamente evocando a própria história de Fellini).

Apostando em actores que a crítica então maldizia, como Sordi e Trieste, que vinham de “O Sheik Branco”, o seu irmão Riccardo, ou os pouco conhecidos Franco Interlenghi e Franco Fabrizi, Federico Fellini construía uma história ainda com um olhar para o Neo-realismo, mas já imbuída da sua atmosfera fantasiosa, no modo circense como encadeava cenas e dispunha personagens. O tema dos festejos populares, seja com circo ou saltimbancos ou animação de feira, voltava a estar presente, agora com festas animadas e cortejos, onde a música de Nino Rota era já bombástica e inesquecível.

Produção:

Título original: I Vitelloni; Produção: Peg-Films / Cité Films; País: Itália / França; Ano: 19; Duração: 103 minutos; Distribuição: Ente Nazionale Industrie Cinematografiche (ENIC) (Itália), Corinth Films (EUA); Estreia: 26 de Agosto de 1953 (Festival de Veneza, Itália), 3 de Junho de 1960 (Cinema Éden, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Jacques Bar [não creditado], Mario De Vecchi [não creditado], Lorenzo Pegoraro [não creditado]; Argumento: Federico Fellini, Ennio Flaiano; História: Federico Fellini, Ennio Flaiano, Tullio Pinelli; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Carlo Carlini, Otello Martelli, Luciano Trasatti [preto e branco]; Montagem: Rolando Benedetti; Design de Produção: Mario Chiari; Cenários: Luigi Giacosi; Figurinos: Margherita Marinari; Caracterização: Michele Bomarzi; Direcção de Produção: Luigi Giacosi.

Elenco:

Franco Interlenghi (Moraldo Rubini), Alberto Sordi (Alberto), Franco Fabrizi (Fausto Moretti), Leopoldo Trieste (Leopoldo Vannucci), Riccardo Fellini (Riccardo), Leonora Ruffo (Sandra Rubini, Irmã de Moraldo), Jean Brochard (Francesco Moretti, Pai de Fausto), Claude Farell (Olga, Irmã de Alberto), Carlo Romano (Senhor Michele Curti), Enrico Viarisio (Senhor Rubini, Pai de Moraldo), Paola Borboni (Senhora Rubini, Mãe de Moraldo), Lída Baarová (Giulia Curti, Esposa de Michele), Arlette Sauvage (A Desconhecida do Cinema), Vira Silenti (Gisella), Maja Niles [como Maja Nipora] (Caterina, a Cantora), Achille Majeroni (Sergio Natali), Guido Martufi (Guido), Silvio Bagolini (Giudizio), Milvia Chianelli (Amiga de Riccardo).

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