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The Big Parade James ‘Jim’ Apperson (John Gilbert) é um ocioso dandy, filho de uma família milionária, a qual vê na guerra uma boa oportunidade de negócio. Por desafio da sua noiva Justyn Reed (Claire Adams), Jim alista-se no exército, quase sem saber porquê. A recruta leva-o a França, onde na companhia dos novos amigos Bull (Tom O’Brien) e Slim (Karl Dane) se vai divertindo nos simples prazeres campestres, e tentando conquistar a bela francesa Melisandre (Renée Adorée). Mas quando Jim e Melisandre começam a namorar, a companhia é chamada para a frente de batalha, onde a espera o horror da morte e destruição.

Análise:

Depois de iniciar a carreira com um enorme número de curtas-metragens cómicas, King Vidor, na década de 1920 deu o salto para produções de maior fôlego, em função do seu contrato a então jovem e promissora MGM, para a qual entrou pela porta da Goldwyn Pictures em 1923. Os filmes sucediam-se a ritmo vertiginoso, e ao oitavo, Vidor conseguiu o inesperado, aquele que se tornaria o mais bem-sucedido filme de toda a era muda: “A Grande Parada”.

A partir da peça homónima de Joseph W. Farnham, e do livro “Plumes” de Laurence Stallings, King Vidor contou com a colaboração de ambos os escritores para construir uma história que tinha um certo toque de Griffith. Ou seja, um grande evento histórico (neste caso a Primeira Guerra Mundial) era usado, para definir uma história passional, contada do ponto de vista de personagens simples, apanhados no meio de grandes eventos. Mas ao contrário de Griffith, Vidor não estava interessado em definir gerações de famílias como espelho de uma nação ou modo de vida, centrando-se simplesmente num personagem.

Este é o ocioso dandy James ‘Jim’ Apperson (a estrela em ascensão John Gilbert), filho de uma família milionária, que via na guerra uma excelente oportunidade de negócio para as suas minas. Só que, para surpresa de todos, incluindo do próprio, Jim cede a um capricho da sua noiva, Justyn Reed (Claire Adams), e alista-se no exército, só porque as fardas são bonitas e o entusiasmo geral é contagiante. Passada a recruta, e a camaradagem encontrada com Bull (Tom O’Brien) e Slim (Karl Dane), a companhia de Jim instala-se em França, onde tudo é novidade, incluindo o descobrir dos prazeres campestres, como conquistar a beldade local Melisandre (Renée Adorée). Depois das peripécias da conquista, em rivalidade com os dois amigos, a companhia é enviada para a frente de batalha. Ali, Jim assiste às atrocidades da guerra, e acaba por perder os dois amigos, Bull e Slim, ele próprio saindo com uma perna ferida. Preocupando-se com Melisandre, Jim deixa o hospital e procura-a para ver a velha quinta abandonada. No regresso a casa, Jim chega já com uma perna amputada, amargo, sem paciência para as ociosidades da sua família privilegiada, onde a noiva, entretanto, já está enamorada do seu irmão Harry (Robert Ober). Finda a guerra, Jim decide voltar a França para procurar Melisandre, que ainda o espera.

Com um título algo irónico, que contrasta o entusiasmo romântico da guerra com os horrores que a constituem, “A Grande Parada” é, sobretudo, a história do seu protagonista, o milionário de vida protegida Jim Apperson, que no início nos é apresentado como um fútil e ocioso jovem. Indo para a guerra quase por engano, Jim vai descobrir o valor da camaradagem entre gente de extractos sociais diferentes (Slim é um trolha e Bull empregado de bar), e a admiração pelas gentes simples que trabalham o campo, e vivem de prazeres honestos, como acontece na quinta onde conhece Melisandre. Vidor deixa o filme decorrer com tempo, entre episódios da recruta, anedóticas tentativas de conquista, e a sempre bem-aventurada camaradagem entre Jim, Slim e Bull.

E quando tudo parece estar bem, somos recordados de que esses momentos idílicos mais não são que um contraponto para tudo o que se pode perder na guerra. E esta rebenta violentamente nos assaltos de trincheiras e missões quase suicidas, para onde os homens são enviados sem apelo. É curioso o contraste entre a rifa dos amigos que leva Slim a sacrificar-se numa missão arriscada, o mesmo tipo de rifa viciada que antes levara Jim a conhecer Melisandre. E é de camaradagem que o filme continua a falar, com Bull e Jim a sacrificarem-se para tentar salvar o amigo, o primeiro perdendo a vida e o segundo uma perna. Pelo meio fica ainda o episódio do soldado alemão, com quem Jim consegue, ainda assim, um ponto de contacto, não o matando. É mais uma forma de Vidor dizer que por mais desumanas que sejam as verdades impostas para nos desunir, é mais aquilo que nos une como indivíduos.

Segue-se um final algo previsível, mas nem por isso menos eficaz. Jim regressa a casa para perceber que tudo mudou, começando por ele próprio. Nada daquilo que lhe interessava antes tem agora valor, nem a noiva, nem o luxo da sua casa, nem sequer a protecção dos pais. Resta-lhe voltar ao lugar onde aprendeu o que era crescer, e lutar pela felicidade, e esse lugar é a quinta onde conheceu Melisandre.

Deste modo, tão duro quanto comovente, Vidor presta a sua homenagem à então ainda recente Grande Guerra. Há nele um nítido desejo de confrontar vida e morte, alegria e tragédia, esperança e desespero. Mesmo trágica, a guerra é um despertar para Jim, num reavaliar de prioridades e sentidos para a sua vida. No final Jim perde uma perna, mas ganha um propósito e um rumo. Estes contrastes são filmados com intenção, quer na beleza idílica das paisagens campestres, e dos bonitos planos da aldeia, quer depois na frieza das trincheiras, e na destruição dos mesmos cenários que antes víramos como pacíficos.

Pelo entrelaçar de uma história humana, de componente sinceramente emocional, com um lado trágico, onde as explosões e as mortes são sentidas quase como se acontecessem para cá da tela, Vidor conseguiu uma obra retumbante, que marcou aqueles que a foram ver. Não espanta que o filme tivesse tido um sucesso inesperado, que levou a própria MGM a renegociar o contrato de Vidor, que até aí era pago com uma percentagem dos lucros, mas neste caso isso faria dele um multimilionário delapidando em parte o quinhão da produtora.

Pelo ritmo lento e seguro, pelos cenários lindíssimos, pelas sequências de conjunto (como as marchas dos soldados), pelo realismo das cenas de guerra (com participação das próprias forças armadas dos EUA, incluindo milhares de figurantes, camiões e aviões militares), e pela força da interpretação de Gilbert, “A Grande Parada” tornou-se um marco do cinema, e inspiração para muitos filmes de guerra de então em diante. A não menosprezar fica ainda a história de amor, com algumas sequências emblemáticas onde o par Jim e Melisandre (que não falam a mesma língua e por isso têm de se entender por gestos, o que é perfeito num filme mudo) se vão conhecendo através de episódios simples e bem-dispostos, como a célebre sequência da pastilha elástica.

Como acontece com muitos destes filmes antigos, “A Grande Parada” sofreu diferentes montagens, existindo hoje em diferentes tamanhos. A mais habitual é agora a restauração que a Turner Classical Movies (TCM) fez em 1988, resultando num filme com pouco mais de duas horas, por contraste com a versão original de 140 minutos.

Karl Dane, John Gilbert e Tom O'Brien em "A Grande Parada" (The Big Parade, 1925) de King Vidor

Produção:

Título original: The Big Parade; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: ; Ano: 1925; Duração: 120 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 5 de Novembro de 1925 (EUA), 31 de Janeiro de 1928 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: King Vidor; Produção: Irving Thalberg [não creditado], King Vidor [não creditado]; Argumento: Harry Behn, King Vidor [não creditado], Laurence Stallings [não creditado] [a partir da peça homónima de Joseph W. Farnham, e do livro “Plumes” de Laurence Stallings]; Intertítulos: Joseph W. Farnham; Música: William Axt; strong>Direcção Musical: Oscar Radin; Fotografia: John Arnold, Charles Van Enger [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Hugh Wynn; Direcção Artística: ; Cenários: James Basevi, Cedric Gibbons, Robert Florey [não creditado]; Figurinos: Ethel P. Chaffin, Robert Florey [não creditado]; Efeitos Especiais: Max Fabian [não creditado].

Elenco:

John Gilbert (James Apperson), Renée Adorée (Melisande), Hobart Bosworth (Mr. Apperson), Claire McDowell (Mrs. Apperson), Claire Adams (Justyn Reed), Robert Ober (Harry), Tom O’Brien (Bull), Karl Dane (Slim), Rosita Marstini (Mãe Francesa).

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