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The Merry Widow Quando a companhia de Sally O’Hara (Mae Murray) vai dançar ao reino de Monteblanco, os príncipes Danilo (John Gilbert) e Mirko (Roy D’Arcy) enamoram-se da bailarina. Após uma sucessiva tentativa de conquistas, Sally acede a cear com Danilo, que no decorrer da noite lhe declara a sua paixão e a pede em casamento. Só que os reis não concordam, e Danilo é obrigado a deixar a noiva à espera no altar. Aproveitando-se, o rico barão Sadoja (Tully Marshall) casa com ela, mas morre logo de seguida, deixando-lhe a fortuna. Um ano depois, no reino chegam notícias da chamada «viúva alegre», nem mais que Sally, agora vivendo uma vida boémia de luxo, e Mirko e Danilo viajam para Paris de novo para a tentar conquistar.

Análise:

Mesmo que psicologicamente Erich von Stroheim ainda não estivesse refeito do que considerou a mutilação que a MGM fez do seu filme “Ave de Rapina” (Greed, 1924), as suas obrigações contratuais levavam-no a continuar a trabalhar para Louis B. Mayer e Irving Thalberg, agora num filme bem mais ao jeito daquilo que a jovem produtora queria para si, um drama romântico, veículo para os seus ícones em ascensão, nomeadamente o novo galã John Gilbert.

A inspiração vinha da opereta austríaca “A Viúva Alegre”, musicada por Franz Lehár e com libreto de Viktor Léon e Leo Stein, que resultou numa das mais conhecidas valsas do reportório romântico. Nela conta-se as aventuras dos príncipes do fictício reino de Monteblanco, que conhecem e se enamoram imediatamente da bailarina estrangeira Sally O’Hara (Mae Murray). Eles são o charmoso Príncipe Danilo Petrovich (John Gilbert) e o seu primo, o ameaçador Príncipe-Herdeiro Mirko (Roy D’Arcy).

Primeiro ao conhecê-la, e depois, após uma actuação da companhia de bailado, ambos os príncipes, e também o Barão Sadoja (Tully Marshall), o homem mais rico do reino, tentam conquistar a atenção de Sally, a qual, defendendo a sua honra os vai rejeitando bravamente. Por fim, Sally, perante a maior agressividade de Mirko, aceita, quase como salvação, o convite de Danilo, e os dois passam uma noite juntos, durante a qual o príncipe se apaixona e pede a mão de Sally em casamento. Só que, sendo ela plebeia, os monarcas (George Fawcett e Josephine Crowell) não consentem. Aproveitando o facto, o invejoso Mirko dá-lhe a notícia à sua maneira, fazendo crer que Danilo abandonou a noiva premeditadamente. Perante o desgosto, Sally casa com o Barão Sadoja, mas este morre na noite de núpcias, e ela viaja para longe com a fortuna.

Anos depois, Mirko ouve falar das festas parisienses da famosa «Viúva Alegre» (nome pelo qual Sally se torna conhecida), e decide visitá-la para lhe pedir a mão. Desgostoso, Danilo segue também, e o par reencontra-se no baile de gala. Continuando a crer-se abandonada, por despeito para com Danilo, Sally acede casar com Mirko. Danilo insulta o primo, e este desafia-o para um duelo. Temendo por Danilo, Sally visita-o chorosa pedindo que este não vá ao duelo, mas ele pensa que ela o faz por amor de Mirko. No duelo, Danilo não dispara, para salvar o noivo da mulher que ele ama, enquanto Mirko o atinge, mas sem o matar. Entretanto o rei morre, e Mirko herda o trono, mas é logo assassinado, pelo que Danilo, já recomposto, e com Sally ao seu lado é o novo rei.

Segunda adaptação ao cinema da opereta de Léhar (a primeira aconteceu na Hungria), “A Viúva Alegre” de Stroheim adapta a opereta muito livremente, no sentido de explorar a impetuosidade da relação entre os personagens de John Gilbert e Mae Murray. A intransigência de Stroheim era tal que Murray não o suportava, mesmo que, depois, todos tivessem elogiado a sua interpretação, como a melhor da sua carreira até então, algo que ela pode agradecer ao realizador. Este teve, pela primeira vez na MGM, alguma liberdade (se descontarmos o final alegre, que ele não tinha escolhido), e viria a produzir uma obra de grande apelo popular, que seria um enorme sucesso de bilheteira, e por uma rara vez, o deixaria bem visto perante o seu estúdio. A MGM não medira meios, e dera a Stroheim dezanove semanas de filmagens, nas quais ele filmou em cenários riquíssimos, com um enorme número de figurantes.

Mas, e embora “A Viúva Alegre” seja um filme para apelar ao grande público, não deixa de se notar alguma da irreverência de Stroheim. Esta pode ser vista na citada impetuosidade da paixão, que durante quase todo o filme se confunde com luxúria, pois é nos olhares de desejo dos homens que assenta a mola da história. Alguns detalhes são mesmo reveladores, com os homens a não ficarem bem vistos, como acontece na sequência do bailado inicial, com Danilo a procurar os olhos de Sally, Mirko a admirar-lhe o corpo, e o barão a fixar-lhe os pés. É evidente o fetichismo no personagem do barão, o qual morre em êxtase a ver os sapatos de Sally. O destacar do detalhe surge mais tarde, quando Mirko reencontra Sally, e ao beijar-lhe a mão, vemos, por artifício de iluminação, tudo a escurecer, quer no braço quer no pescoço de Sally, para apenas se verem as jóias. Por estes e outros detalhes, como é o caso da proibição do casamento pelos monarcas, se vê que há essencialmente uma crítica à decadência das monarquias antigas, e da nobreza europeia, à qual, durante alguns anos, Stroheim afirmara pertencer. De notar são também as alusões a orgias e casas de prostituição, a semi-nudez das bailarinas, e todo o ambiente de álcool e promiscuidade entre os soldados e as bailarinas. O próprio modo como Danilo tenta conquistar Sally, com músicos nus e vendados sobre a sua cama mostra bem o que é a decadência, sobranceria masculina e facilidade em lidar com o lascivo, que Stroheim mostra.

Outro ponto forte do filme são os diálogos, quer na jovialidade inicial, em tom de conquista despretensiosa, quer nos confrontos finais entre Danilo e Sally, com uma amargura de dor poucas vezes vista nos intertítulos até então. Isso, claro, e o uso da música (a valsa que dá nome à obra), em cenas de bailado, como aquela que une o par desavindo na parte final, e que ficou como uma sequência de dança inesquecível, pelo modo como foi filmada, e pela tensão dramática do momento. Note-se a presença dos então desconhecidos Joan Crawford e Clark Gable entre os convidados.

“A Viúva Alegre” teve as suas sequências finais filmadas a cores, num processo de duas cores da Technicolor. Infelizmente essa película perdeu-se, existindo hoje apenas a preto e branco. A história voltou a ser filmada diversas outras vezes, destacando-se a versão de Ernst Lubitsch, que une Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald, em 1934, e a de Curtis Bernhardt, estreada em 1952, com Lana Turner e Fernando Lamas nos principais papéis.

John Gilbert e Mae Murray em "A Viúva Alegre" (The Merry Widow, 1925) de Erich von Stroheim

Produção:

Título original: The Merry Widow; Produção: Erich von Stroheim Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1925; Duração: 117 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 26 de Agosto de 1925 (EUA), 21 de Abril de 1927 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Erich von Stroheim; Produção: Erich von Stroheim [não creditado], Irving Thalberg [não creditado]; Produtor Associado: ; Argumento: Erich von Stroheim, Benjamin Glazer [a partir da opereta homónima de Viktor Léon e Leo Stein]; Intertítulos: Marian Ainslee; Música: Franz Lehár; Orquestração: Maurice Baron [não creditado]; Fotografia: Oliver T. Marsh, William H. Daniels [não creditado], Ray Rennahan [não creditado], Ben F. Reynolds [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Frank E. Hull, Margaret Booth [não creditada]; Cenários: Richard Day, Cedric Gibbons; Figurinos: Richard Day [não creditado], Erich von Stroheim [não creditado]; Coreografia: Ernest Belcher.

Elenco:

Mae Murray (Sally O’Hara, A Viúva Alegre), John Gilbert (Príncipe Danilo Petrovich), Roy D’Arcy (Príncipe-Herdeiro Mirko), Josephine Crowell (Rainha Milena), George Fawcett (Rei Nikita I), Tully Marshall (Barão Sadoja), Edward Connelly (Embaixador).

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