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Greed John McTeague (Gibson Gowland) é um homem simples, que trabalha numa mina na Califórnia, e cuja mãe (Tempe Pigott) um dia convence a seguir a carreira de dentista. É no exercício da nova profissão, já em São Francisco, que McTeague conhece Trina (Zasu Pitts), a namorada do seu amigo Marcus (Jean Hersholt). McTeague e Trina iniciam o namoro, e em breve casam. Mas quando Trina ganha 5 000 dólares na lotaria, o prémio vai torná-la desconfiada e obcecada com a avareza, mesmo quando o marido passa por dificuldades, depois de o ciumento Marcus o denunciar às autoridades por não ter licença para a prática de dentista. Procurando apoio na esposa, McTeague vai vê-la cada vez mais sovina, na preocupação única de acumular cada vez mais dinheiro em segredo.

Análise:

Chamado o Santo Graal dos arquivistas de cinema, “Ave de Rapina” é um dos mais anedóticos casos de conflito entre um realizador e os seus produtores, com rocambolescos episódios de braços de ferro e montagens do material existente, levando a versões cada vez mais reduzidas e mais distantes da visão original do realizador.

Tudo isto aconteceu com o mais polémico realizador do seu tempo, Erich von Stroheim, o excêntrico imigrante austríaco que se dizia de sangue nobre, e que, embora revolucionando o cinema do seu tempo, criara já tantos conflitos com os seus produtores, que se tornava aos poucos persona non grata em Hollywood. Foi o que se passou na produção do seu novo filme, que aos poucos começou a ultrapassar todos os orçamentos e prazos, levando, segundo se diz a que, obcecado com a perfeição, e exigindo filmagens em cenários naturais (mesmo que estes fossem o Death Valley, na Califórnia, onde Stroheim filmou durante dois meses), e atingindo um total de mais de 85 horas de fita.

A aventura começou em 1923, quando Stroheim, então contratado pela Goldywn Pictures, convenceu o então director Abe Lehr a apoiá-lo num projecto de grande orçamento, com um guião de 300 páginas, onde incluía descrições de movimentos de câmara e planos, e cujas filmagens durariam 198 dias. Seguiu-se o longo processo de montagem, que Stroheim geriu pessoalmente com o seu colaborador Frank Hull, chegando-se a uma versão de 42 bobinas e cerca de 8 horas de duração. Segundo consta esta era apenas uma versão provisória para mostrar a doze pessoas (onde se incluía o realizador Rex Ingram), e Stroheim poderá até ter concluído cópias diferentes. Apesar dos comentários positivos da maioria dessas pessoas, decidiu-se diminuir o filme, e Stroheim pediu ajuda a Ingram, que por sua vez levou o seu montador Grant Whytlock a chegar a uma versão de 24 bobinas. Isto enquanto a poderosa June Mathis montava, à revelia do autor, uma versão de apenas 13 bobinas. Essas indecisões e proliferações de versões diferentes, entre discussões sobre o que cortar, apanhou a produção na fase da compra da Goldwyn Pictures por parte da Loew’s Incorporated, no que se tornaria a conhecida Metro-Goldwyn-Mayer. Isto significava que como director geral estava agora Louis B. Mayer, um homem prático e assertivo na imagem que queria para a companhia, e como chefe de produção estava Irving Thalberg, senhor absoluto no departamento criativo, e anterior némesis de Stroheim, depois dos confrontos entre ambos na produção de “Mulheres Levianas” (Foolish Wives, 1923), quando ambos trabalhavam para a Universal.

Sob direcção de Mayer e Thalberg, e completamente à revelia de Stroheim, a MGM preparou nova cópia, com montagem de Joseph Farnham. Foram retirados o longo prólogo (não constante no livro), e dois enredos paralelos de personagens menores, juntamente com muitos outros detalhes. O resultado foi um filme com 130 minutos, que Stroheim desprezou e o levou a perder definitivamente qualquer fé na sua capacidade de artista dentro do studio system de Hollywood

Passando à história, esta é uma adaptação do romance “McTeague: A Story of San Francisco”, da autoria de Frank Norris, e publicado pela primeira vez em 1899. Falando-nos da transição entre dois séculos, e omitindo propositadamente o conteúdo anti-semita presente no livro, Erich von Stroheim escreveu um épico (creditado também a June Mathis, mas pelo que consta, apenas por razões contratuais), que é um conto bastante negro e de extremo realismo, sobre os efeitos da ganância e avareza em pessoas de classe média. Tudo começa com o nominal McTeague (Gibson Gowland), um homem que – quase profeticamente – trabalha numa mina de ouro, até a mãe (Tempe Pigott) o convencer a abandonar as condições miseráveis em que vive, e aprender o ofício de dentista, quando um profissional visita a aldeia. McTeague aprende com facilidade, e em breve já tem consultório em São Francisco. Um dia, o amigo Marcus (Jean Hersholt) traz-lhe como paciente a namorada Trina (Zasu Pitts), por quem McTeague se apaixona. Marcus é compreensivo perante a paixão do amigo, e decide dar a sua permissão, afastando-se. McTeague e Trina enamoram-se e vêm a casar, em grande alegria.

Só que, entretanto, Trina vence um prémio de 5 000 dólares na lotaria e a sua personalidade muda. Inicialmente com medo que o dinheiro os torne desregrados, Trina vai ficando cada vez mais obcecada com a poupança, a ponto de inventar despesas para sacar dinheiro a McTeague, e nunca mexer no seu dinheiro. Ao mesmo tempo Marcus vai ficando mais azedo pela felicidade de McTeague e Trina, e pelo dinheiro que estes ganharam. Em vingança, e depois de decidir ir fazer fortuna como rancheiro, Marcus denuncia McTeague às autoridades, por este não ter licença de dentista. O consultório fecha, e McTeague não consegue empregos estáveis, dependendo dos poucos tostões que ganha e Trina consegue com trabalhos manuais, mas cada vez mais parcos, pois a obsessão avarenta dela vai sempre aumentando.

Depois de uma violenta discussão, em que McTeague morde os dedos de Trina por algum dinheiro, este abandona a casa, e ela vai viver para um hospital, como mulher de limpeza. Cedo McTeague acaba sem dinheiro, ao relento, e Trina nega-lhe qualquer ajuda, mesmo que durma rodeada do seu ouro. Sabendo isto, McTeague mata-a, e foge com o dinheiro, acabando no Death Valley, onde é perseguido pelas forças da lei. Estas recusam-se a continuar a perseguição em território tão fatal, mas entre eles segue Marcus, que continua, encontrando McTeague, já sem água, nem esperança. Sob a visão do ouro roubado, os dois homens lutam, com McTeague a matar Marcus, mas sabendo que, também ele morrerá de seguida.

Mesmo que muito de se fale dos épicos problemas entre Stroheim e os seus produtores, da épica produção de meses e longa saga de montagens até chegar à versão comercial de 130 minutos, nunca se deve esquecer que mais importante que isso tudo é o próprio filme, uma obra notável, fruto de uma visão muito à frente do seu tempo. Senão vejamos, abandonando a lógica do teatro, que o próprio Griffith ainda seguia, com planos filmados da imaginada plateia. Stroheim diversificava ângulos e planos. Teve a coragem de filmar todo o filme em cenários naturais. Introduziu, como nunca antes, a profundidade de foco, a mesma que tornaria Orson Welles famoso em “O Mundo a Seus Pés” (Citizen Kane, 1941). Fez uso do chiaroscuro, que se usava no expressionismo alemão. Foi sensível às técnicas de montagem soviéticas, incluindo sucessivos comentários através de paralelismos de montagem (por exemplo com a gaiola de pássaros a simbolizar os altos e baixos da relação entre McTeague e Trina), tendo chegado a usar a técnica da câmara escondida, herdada de Dziga Vertov.

Proezas técnicas à parte, “Ave de Rapina” é, sobretudo uma história de grande fôlego, por vezes comparada a “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, que traduz o espírito do seu tempo, que é também de problemas sociais, desemprego, corrida ao ouro, sonhos e ilusões, num realismo desconcertante, e que se coadunava muito pouco com a ideia da fábrica de ilusões em que Hollywood se vinha transformando. No filme, Stroheim opta sempre por uma visão pessimista, de grande frieza, onde não se coíbe de mostrar a sujidade (quer a das ruas imundas e pejadas de bêbedos, quer a da alma humana). Veja-se por exemplo o grotesco que é a festa do casamento, onde todos comem como animais, para além do final, que é triste e negro. Com o tema da ganância, todo o filme tem um tom de tragédia, com McTeague a começar numa mina de ouro, a conhecer a sua futura esposa quando lhe trata os dentes com um implante de dentes de ouro, e por fim a matar e a morrer por ouro. O mesmo ouro (várias vezes mostrado em imagens colorizadas para destacar a sua importância) que leva Trina a negligenciar o casamento, e que leva ao ciúme de Marcus, que denuncia McTeague duas vezes, primeiro para lhe retirar a prática de dentista, e no final, para o perseguir, e por esse mesmo ouro morrer ao seu lado.

A não menosprezar são as interpretações intensas de Gibson Gowland e Zasu Pitts, bem secundados pelo alegre, mas pérfido, personagem de Jean Hersholt. Estes são filmados com destaque por Erich von Stroheim, que nunca se cansa de nos dar close-ups, pontuando momentos dramáticos, como comentário às sequências mais tensas. Destaque ainda para o personagem de Chester Conklin, como pai de Trina, ele que era um dos grandes nomes da comédia burlesca de então, aqui a trazer alguma ligeireza humorística a um filme demasiado pesado. De fora ficaram dois enredos paralelos, mostrando a história de dois casais distintos, um dos quais, um casal de vizinhos feliz e sem preocupações com o dinheiro, e o outro o da cigana que vendeu a lotaria a Trina, ainda mais gananciosa, e por isso a ter um mau fim.

Por todas as razões, quer técnicas, quer artísticas (narrativas ou estéticas), quer ainda por todo o anedotário ligado ao filme, “Ave de Rapina” continua hoje a ser um trabalho admirável, mesmo que não nos seja possível conhecer qual a visão mais fiel do seu autor. Uma das tentativas feitas nesse sentido partiu da TCM (Turner Classic Movies), que em 1999 apresentou uma versão de 4 horas, onde a película existente era interpolada de fotogramas soltos, os quais surgem durante largo tempo, com intertítulos que tentam completar a história. Também várias publicações têm surgido com as versões mais alargadas possíveis do guião original, não sendo isso garantia de ser essa a versão final de Stroheim, o qual frequentemente improvisava novas cenas durante a própria filmagem, ignorando outras que estavam escritas, como explicado no largo trabalho sobre o assunto, que tem vindo a ser desenvolvido pelo crítico e investigador Jonathan Rosenbaum.

Seja como for, e apesar de ter sido um fracasso na altura, “Ave de Rapina” foi desde logo elogiado por muitos nomes influentes do cinema, de Eisenstein a Sternberg, Renoir e Lubitsch. É ainda hoje um objecto de estudo e paixão e, para muitos, um dos melhores filmes jamais produzidos.

Zasu Pitts, Gibson Gowland e Hughie Mack em "Ave de Rapina" (Greed, 1924) de Erich von Stroheim

Produção:

Título original: Greed; Produção: Metro-Goldwyn Pictures Corporation; Produtores Executivos: ; País: EUA; Ano: 1924; Duração: 130 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn Pictures Corporation; Estreia: 4 de Dezembro de 1924 (EUA), 1965 (Cinemateca Nacional – Palácio Foz, Lisboa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Erich von Stroheim; Produção: ; Produtor Associado: ; Argumento: June Mathis, Erich von Stroheim [a partir do livro “McTeague” de Frank Norris]; Música: ; Orquestração: ; Fotografia: Bem Reynolds, William Daniels [preto e branco]; Montagem: Frank Hull, Grant Whytlock, June Mathis, Joseph Farnham; Design de Produção: ; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Cenários: ; Figurinos: ; Caracterização: ; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: .

Elenco:

Zasu Pitts (Trina), Gibson Gowland (John McTeague), Jean Hersholt (Marcus), Dale Fuller (Maria), Tempe Pigott (Mother McTeague), Sylvia Ashton (‘Mommer’ Sieppe), Chester Conklin (‘Popper’ Sieppe), Joan Standing (Selina).

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