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He Who Gets SlappedPaul Beaumont (Lon Chaney) é um cientista que trabalha em grandes descobertas sobre a evolução humana, sob o mecenato do rico Barão Regnard (Marc McDermott). Quando Paul decide ser tempo para anunciar as suas descobertas, o Barão convoca a Academia de Ciências, para colher os créditos das descobertas como suas, humilhando Paul e esbofeteando-o em público, acabando por lhe roubar a esposa (Ruth King). Paul Beaumont muda de vida, indo trabalhar, incógnito, como palhaço num circo, onde é conhecido como HE (de «He who gets slapped»), num número que consiste em deixar-se esbofetear. Só que um dia, atraído pela beldade Consuelo (Norma Shearer), o Barão começa a frequentar o circo, provocando o desejo de vingança de HE.

Análise:

Um dos pais fundadores do grande cinema escandinavo do início do século XX, Victor Sjöström, em 1923 rumava aos Estados Unidos, a exemplo do que fariam muitos nomes do cinema europeu seu contemporâneo. Era a forma de a indústria nascente de Hollywood tentar aproveitar os melhores recursos humanos e insuflar o seu cinema de ideias inovadoras, e artisticamente mais arrojadas. Foi logo no seu primeiro ano de trabalho que Victor Sjöström, cujo nome então se anglicizava como Victor Seastrom, realizaria os seus primeiros dois filmes para a MGM de Louis B. Mayer, o segundo dos quais foi este “O Palhaço”, desde então muito elogiado pela sua irreverência e jeito provocante.

“O Palhaço” conta-nos a história de Paul Beaumont (Lon Chaney, o mesmo que ficaria conhecido como «o homem dos mil rostos»), um cientista que, quando decide anunciar ao mundo descobertas incríveis, vê o seu papel ser ofuscado pelo seu patrono, o Barão Regnard (Marc McDermott), que para além de colher os créditos das descobertas, lhe rouba a esposa (Ruth King), e ainda o esbofeteia perante a audiência de cientistas, humilhando-o perante a chacota geral. Paul Beaumont abandona a sua vida, e vai trabalhar, incógnito, como palhaço num circo, onde simplesmente fica conhecido como HE (de «He who gets slapped», título original no filme, que literalmente significa «aquele que é esbofeteado»). Como suprema ironia, o número de HE consiste em ser esbofeteado sempre que fala, para a enorme gargalhada do público.

No mesmo circo acaba por ir trabalhar a malabarista Consuelo (Norma Shearer), filha do Conde Mancini (Tully Marshall), que se apaixona pelo colega Bezano (John Gilbert). Mas alheia à vontade do par, é negociado pelo Conde o casamento da filha com, nem mais que o Barão Regnard. Ao aperceber-se disso, e também ele apaixonado por Consuelo, HE perde a cabeça e resolve vingar-se, assassinando o Barão e do Conde, soltando-lhes um leão em cima. No processo, também HE acaba ferido, morrendo em palco, quando o seu anúncio é confundido com o seu número, e volta a ser recebido com bofetadas.

A partir de uma peça russa de 1914, de Leonid Andreyev, a qual já fora adaptada ao cinema, no seu país natal, em 1916, como “Tot, kto poluchaet poshchechiny”, realizado por Aleksandr Ivanov-Gai e I. Schmidt, Victor Sjöström compôs o estranho “O Palhaço”, uma história de humilhação e vingança em tom e final amargo. Foi a primeira produção da recentemente formada Metro-Goldwyn-Mayer (mas não a primeira estreia, já que o filme foi guardado para estrear na época alta), e o primeiro filme a ostentar Leo, o Leão, a mascote da MGM daí em diante.

Com a escolha de um circo como palco principal, Sjöström apresenta-nos a gargalhada como o pico da humilhação, com frequentes comparações entre as risadas do público de HE e as dos colegas cientistas de Paul Beaumont. Sjöström usa frequentes sobreposições de imagens como comparação, e uma montagem que leva a constantes comentários, com os vários episódios separados por uma imagem de um palhaço que faz girar o globo terrestre, e de palhaços que aterram magicamente nesse mesmo globo, tornado o palco do circo, e assim fazendo do circo, palco da vida, numa fotografia, propositadamente pouco exposta, para deixar sempre o negrume como motivo visual.

Através desses inúmeros paralelismos, Sjöström apresenta-nos o circo como espelho da vida, palco de alegrias e tragédias, onde o seu supremo bem – a gargalhada – é a mais cruel arma, símbolo de humilhação e da completa queda de um homem. «Aquele que é esbofeteado» poderia também chamar-se «Aqueles que riem», já que são eles que são afinal criticados, por risos tolos, inconscientes, arrogantes e ignorantes. Ou seja, de certo modo, o que Sjöström nos diz é que são os cientistas que riem de Beaumont e os espectadores que riem de HE os verdadeiros palhaços.

Perante esta imagem, bastante sólida nas mãos de Sjöström, graças a um Lon Chaney, no topo da sua carreira, e com uma interpretação contundente, não resta a Sjöström que terminar o filme em tom de tragédia, isto após a apresentação de uma história de amor entre os personagens de Norma Shearer e John Gilbert (ambos a passar ao estrelato graças a este filme) que, embora menos interessante, tem o objectivo de fazer-nos detestar ainda mais os objectivos do Barão. Tal leva-nos à tragédia, na forma de uma vingança executada com o uso de um leão (nem a propósito, o nascente símbolo da MGM tornava-se actor no primeiro filme). Esta surge cruelmente, numa sequência repleta de tensão, e de um suspense que mais tarde seria chamado hitchcockiano (note-se como a abertura da porta é várias vezes adiada, para que as nossas expectativas sejam usadas contra nós.

O filme difere da peça no final. Nesta Consuelo envenena-se e morre, tal como HE. No filme o veneno não existe, e Consuelo fica com Bezano, o seu amante, enquanto HE morre de ferimentos da sua luta com o Conde, pai de Consuelo.

“O Palhaço”, um enorme sucesso no seu tempo, foi posteriormente encenado como ópera, com música de Robert Ward e libreto de Bernard Stambler, tendo estreado em 1959 na New York City Opera.

Lon Chaney em "O Palhaço" (He Who Gets Slapped, 1924) de Victor Sjöström

Produção:

Título original: He Who Gets Slapped; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Produtor Executivo: Louis B. Mayer; País: EUA; Ano: 1924; Duração: 72 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn Pictures Corporation; Estreia: 9 de Novembro de 1924 (EUA), 2 de Março de 1927 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Victor Sjöström [como Victor Seastrom]; Produção: Victor Sjöström, Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Carey Wilson, Victor Sjöström [a partir da peça de Leonid Andreyev]; Intertítulos: Marian Ainslee; Música: William Axt [não creditado]; Orquestração: ; Fotografia: Milton Moore [preto e branco]; Montagem: Hugh Wynn; Design de Produção: ; Cenários: Cedric Gibbons; Figurinos: Sophie Wachner.

Elenco:

Lon Chaney (Paul Beaumont / HE), Norma Shearer (Consuelo), John Gilbert (Bezano), Ruth King (Marie Beaumont), Marc McDermott (Baron Regnard), Ford Sterling (Tricaud), Tully Marshall (Count Mancini).

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