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Lo sceicco bianco Ivan Cavalli (Leopoldo Trieste) e Wanda Giardino Cavalli (Brunella Bovo) acabaram de se casar, e chegam a Roma onde passarão a sua lua-de-mel. Ivan, um escriturário cinzento da província, espera aproveitar a viagem para conseguir emprego junto de um tio bem colocado no Vaticano, e que lhe prometeu mesmo uma audiência com o Papa. Já a jovem esposa é uma romântica ainda ingénua, e vê na estadia para concretizar um sonho, conhecer Fernando Rivoli (Alberto Sordi) o herói da fotonovela “O Sheik Branco” que ela segue, e sabe estar hospedado perto de si.

Análise:

Pela primeira vez realizando um filme no singular, Federico Fellini estreou em 1952 a obra “O Sheik Branco”, comissionada pelo produtor Carlo Ponti, que Fellini desenvolveu com a ajuda de colaboradores com quem já antes trabalhara, o futuro realizador Michelangelo Antonioni e o argumentista Tullio Pinelli. O filme é quase uma comédia de costumes, olhando de modo satírico para a Itália de natureza conservadora e religiosa, presa a tradições tão fúteis como as fotonovelas.

O enredo traz-nos o casal em lua-de-mel, Ivan Cavalli (Leopoldo Trieste) e Wanda Giardino Cavalli (Brunella Bovo), que nas primeiras imagens vemos chegarem a Roma de comboio, onde Ivan espera conseguir emprego junto de um tio bem colocado no Vaticano, envolvendo mesmo uma promissora audiência com o Papa. Só que a jovem e romântica Wanda tem outro sonho, conhecer o herói de uma fotonovela que ela segue, e sabe estar hospedado perto de si.

Escapando-se ao marido, quando este dorme uma sesta, Wanda vai encontrar a equipa da fotonovela, e, sem querer, vê-se transportada por eles para o lugar da sessão fotográfica, fora de Roma. Aí, sabendo da ingenuidade da jovem noiva, o protagonista, o titular Sheik Branco (Alberto Sordi), um duvidoso actor de terceira categoria, tenta seduzi-la. Com todas as distrações, cai a noite e Wanda tem vergonha de voltar, enquanto o marido Ivan já desespera de tentar esconder a ausência da esposa (numa interpretação por vezes exagerada), perante uma família que a espera para um jantar e uma ida ao teatro, e começa a desconfiar de que algo se passa. Por entre o total desespero, Ivan passa a noite ao relento, até ser chamado ao hospital, onde descobre que a esposa se encontra, depois de ter, em vão tentado o suicídio, pela vergonha de o tornar a encarar.

Apesar de o tema apontar para uma história dramática, “O Sheik Branco” é na verdade uma comédia, cujo tom se delineia logo desde a primeira entrada de Leopoldo Trieste, no papel do nervoso e desadequado marido recém-casado, personagem burlesco de direito próprio, fadado a infortúnios, e sem nunca saber como os encarar. Este seria, aliás o papel de lançamento de Leopoldo Trieste, que se via como dramaturgo, e que depois do sucesso deste filme iniciaria uma longuíssima carreira como actor, geralmente de propensões cómicas.

À sua volta, e principalmente por culpa das atitudes da sua ingénua esposa, constrói-se uma teia de desencontros, que têm como lugar-comum o papel das aparências na sociedade italiana da classe média dos anos 50. Ivan acabou de casar, vem para Roma para subir na vida, quer impressionar os tios, e ser recebido no Vaticano. Mas tudo lhe sai pela culatra, já que a esposa desaparece do hotel, e assumi-lo seria uma desonra para o nome da família. Já esta, numa prova de inocência, quer apenas conhecer o ídolo de juventude que é um protagonista de banais fotonovelas de aventuras românticas, o Sheik Branco interpretado pelo conquistador de segunda, Fernando Rivoli (o impagável Alberto Sordi, figura maior do cinema clássico italiano). Numa prova da futilidade, quer do meio em si, quer da mentalidade da jovem recém-casada, assistimos à tentativa desajeitada de sedução, ao ralhete da esposa de Fernando, à desconjuntada sessão fotográfica, e aos passos em falso da jovem deslumbrada por um mundo romântico que não compreende, nem existe.

O resultado é a óbvia desilusão de Wanda, que chega a considerar o suicídio por ter assim desonrado o marido, o qual continua, no seu jeito burlesco, a tentar que os tios não percebam que a esposa está em parte incerta. Mais que uma vez se mostra que o que conta são as aparências, os valores da família, a honra do nome, e as portas que esses princípios podem abrir, mostrados na tão falada e ansiada audiência com o Papa.

Pelo meio desta narrativa trágico-cómica, Fellini vai exercitando aquilo que se tornariam as suas imagens de marca. Desde logo temos o ambiente de artistas de variedades, geralmente de baixa estirpe, na eterna confusão (ou talvez seja melhor dizer-se «espelho») entre arte e vida. Eles são, tanto a equipa de personagens da fotonovela, como os recontros inusitados que Ivan vai tendo pela noite solitária que atravessa (por exemplo o cuspidor de fogo que surge do nada, como que para marcar algum carácter onírico dessa noite). Por outro lado o uso da música a dar um tom circense a tantos momentos, de tom caricatural e acelerado. Por outro ainda, como de esperar numa comédia, estão os cortes rápidos numa montagem que faz o seu próprio comentário jocoso. Veja-se por exemplo a tentativa frustrada de Fernando em beijar Wanda, levando com um mastro na cabeça, para logo se cortar para uma plateia de ri sonoramente.

Desta vez contando com a música de Nino Rota, que o acompanharia em quase toda a sua carreira, Fellini mostrava-nos alguma continuidade com o tema do seu filme anterior “Luci del Varietà” (1951), filmado em colaboração com Alberto Lattuada, mas agora numa sátira mais directa, e mais afastada das pretensões sociais daquele filme. Ainda longe do surrealismo de filmes futuros, Fellini mostra já uma propensão para usar a noite como uma viagem subjectiva, e a ideia do sonho e escapismo como buscas de vida, compondo as cenas com personagens coloridos, numa estrutura por vezes caótica, como por exemplo na sequência em que a sua esposa Guilietta Masina surge do nada como a prostituta Cabiria, a qual seria motivo do futuro filme “As Noites de Cabíria” (Le notti di Cabiria, 1957).

“O Sheik Branco” foi apreciado pelas suas sequências cómicas, por uma crítica que ainda não podia ainda prever que o caminho de Fellini seria muito diferente da simples comédia de costumes.

Brunella Bovo e Alberto Sordi em "O Sheik Branco" (Lo sceicco bianco, 1952) de Federico Fellini

Produção:

Título original: Lo sceicco bianco; Produção: P.D.C. / OFI; Produtores Executivos: ; País: ; Ano: 1952; Duração: 86 minutos; Distribuição: P.D.C.; Estreia: 6 de Setembro de 1952 (Festival de Veneza, Itália), 27 de Setembro de 1952 (Itália), 16 de Maio de 1958 (Cinema Éden, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Luigi Rovere; Produtor Associado: ; Argumento: Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano; História: Michelangelo Antonioni, Federico Fellini, Tullio Pinelli; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Fernando Previtali; Fotografia: Arturo Gallea, Leonida Barboni [não creditado] [preto e branco]; Montagem: Rolando Benedetti; Direcção Artística: Raffaello Tolfo; Cenários: ; Caracterização: Franco Titi; Direcção de Produção: Enzo Provenzale.

Elenco:

Alberto Sordi (Fernando Rivoli, O Sheik Branco), Brunella Bovo (Wanda Giardino Cavalli), Leopoldo Trieste (Ivan Cavalli), Giulietta Masina (Cabiria, A Prostituta), Ernesto Almirante (Doutor Fortuna, O Realizador da Fotonovela), Lilia Landi (Felga, A Cigana da Fotonovela), Fanny Marchiò (Marilena Alba Vellardi), Gina Mascetti (Aida Rivoli, Esposa de Fernando), Jole Silvani, Enzo Maggio (Furio), Anna Primula, Mimo Billi (Homem na Praia), Armando Libianchi, Ugo Attanasio (Tio de Ivan), Giulio Moreschi, Elettra Zago, Piero Antonucci, Aroldino, O Comediante (Aroldino).

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