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Foolish WivesO falso conde Sergius Karamzin (Erich von Stroheim) é um pretenso nobre que vive faustamente em Monte Carlo com as supostas primas, a Princesa Olga Petchnikoff (Maude George) e a Princesa Vera Petchnikoff (Mae Busch), na verdade suas amantes. Juntos planeiam golpes para extorquir pessoas da alta sociedade, e vêem na chegada do novo enviado especial dos EUA ao Mónaco, Andrew J. Hughes (Rudolph Christians) e sua esposa Helen (Miss DuPont) uma nova oportunidade. Resta a Sergius tentar seduzir Helen para alguma situação embaraçosa que ele possa usar em sua vantagem.

Análise:

Na década de 1920, na qual Hollywood começava a afirmar-se também pela peculiaridade dos seus personagens e modos de vida, poucas pessoas conseguiram um estatuto tão excêntrico como o do imigrante germânico Erich von Stroheim. Nascido na Áustria, von Stroheim chegou aos Estados Unidos com 24 anos e, logo à chegada, declarou-se como sendo o conde Erich Oswald Hans Carl Maria von Stroheim und Nordenwall, da nobreza austríaca, facto que, apesar de repetidas vezes desmentido (nada havia de nobiliárquico no futuro actor e realizador, que mostrava um mau domínio do alemão, e um calão e sotaque nada consentâneos com a nobreza), ajudou a criar o mito do homem que aspirou sempre a ser mais que aquilo que podia.

Tão decidido e seguro de si, quanto arrogante e original, Erich von Stroheim rumou imediatamente a Hollywood, onde trabalhou como actor, e chegou à cadeira de realização logo em 1919. No cinema criou um personagem-tipo que tinha tudo a ver com a sua persona pública, um falso aristocrata germânico, de monóculo e farda militar, que aproveitava o seu charme de excentricidade para gerar oportunidades e subir sem escrúpulos.

Entre os seus primeiros filmes notáveis está este “Esposas Levianas”, filme que, tal como aconteceria frequentemente na sua carreira de realizador, von Stroheim viu como um projecto seu, desafiando o studio system, colocando-o em conflito aberto com Irving Thalberg, então o produtor da jovem Universal, liderada por Carl Laemmle. A sua visão única, obsessão com o detalhe, e mania de controlo absoluto sobre a obra final resultaram num filme que tinha inicialmente cerca de seis horas, após 11 meses de filmagens e mais de 1 milhão de dólares gastos, valores inimagináveis até então. Obviamente a Universal não podia aceitar tal coisa, tendo feito uma nova montagem, cortando a maior parte das cenas, até conseguir uma versão de apenas 130 minutos, que muito desagradou ao realizador, mas que foi aquela que chegou às salas de cinema.

Mesmo que fique para sempre a questão sobre a autenticidade de uma obra que não segue a visão original do realizador (é hoje impossível reconstituir a versão longa de von Stroheim, visto que a maior parte da película cortada se perdeu), o que resta é ainda assim um filme exemplar pelo seu olhar cáustico, e interessantes soluções de narração e enquadramento.

“Esposas Levianas” é a história do aventureiro que se chama a si conde Sergius Karamzin (Erich von Stroheim), um falso aristocrata russo que vive no Mónaco, mercê de burlas e jogos de influência. Com ele estão as suas supostas primas Princesa Olga Petchnikoff (Maude George) e Princesa Vera Petchnikoff (Mae Busch), na verdade suas amantes, que com ele planeiam golpes e vivem dos serviços do falsário Cesare Ventucci (Cesare Gravina). Com a chegada do embaixador norte-americano Andrew J. Hughes (Rudolph Christians), o trio vê na esposa deste, Helen (Miss DuPont), a vítima perfeita para a sedução de Sergius. Nos clubes, casinos, encontros da alta-sociedade, ou escapadelas nocturnas, Sergius consegue ganhar a confiança de Helen, que o vê como um nobre de elegância e lealdade a toda a prova. Mas tal provoca o ciúme da empregada Maruschka (Dale Fuller), apaixonada de Sergius, e que, para não o ver com Helen, provoca um incêndio que quase mata o par. Descoberto o embuste, Andrew J. Hughes desmascara Sergius em público, provocando-lhe a fuga e consequente tragédia, com a polícia a acabar por descobrir também as verdadeiras identidades das «primas».

Com uma história de tom leve, Erich von Stroheim mergulha nas hipocrisias da alta sociedade para construir um filme que, ainda que mantendo um pé no thriller sério (as sequências da tempestade e do incêndio são momentos de tensão bem conseguidos), não deixa de ser quase sempre irónico e até humorístico. Tudo no comportamento do falso conde e seu séquito é caricatural, e quase todos os intertítulos servem para, mais que fazer avançar a trama, dar um comentário incisivo e mordaz aos personagens e situações em destaque. Usando uma técnica excelente, um perfeito uso da luz (recorrendo aos tingimentos habituais, amarelo para exteriores diurnos, azul para a noite, etc.), a realização de Stroheim brilha pelo seu à vontade no imprimir de ritmos, a criação de momentos de tensão, o olhar leve para o humor, e o modo como tudo isto flui quase sem a necessidade de diálogos (veja-se o modo como o conde se insinua à esposa do embaixador, a sequência na cabana sob a tempestade, ou o modo como o conde tenta convencer a sua vítima do empréstimo).

Numa fase em que o código de Hays ainda não existia, há espaço para uma moralidade dúbia, nas seduções, insinuações de nudez (como a sequência em que Sergius observa Helen a despir-se, através de um espelho – cena imitada em “Salteadores da Arca Perdida” (Raiders of the Lost Ark, 1981) de Steven Spielberg), e todo o contexto de adultério, conquistas e traições entre amantes libertinos, na elite social de Monte Carlo. Por todos os seus excessos, inovação e irreverência contra costumes, “Esposas Levianas” é, ainda hoje, um objecto de importante valor histórico, tal como foi na altura uma pedrada no charco contra a cristalização de géneros e as convenções sociais tão apreciadas no cinema escapista dos anos 20.

Como curiosidade sobre o detalhe exagerado de von Stroheim nos seus filmes fica o seguinte incidente. O dinheiro falso usado no filme foi encomendado a um verdadeiro falsário, o que levou a que o realizador chegasse a ser preso. Os vestidos do filme vieram de designers de Paris, as jóias, porcelanas, móveis e tapeçarias eram verdadeiras, e até nas refeições filmadas o champanhe e caviar eram autênticos, para assim se poder extrair dos actores reacções fidedignas. Mais caros ainda ficaram os cenários, com uma réplica de Monte Carlo a ser construída em Hollywood.

Note-se finalmente como o embaixador surge quase sempre de costas na segunda metade do filme, já que Rudolph Christians morreu durante as filmagens, sendo então substituído por Robert Edeson.

Após anos de cortes e reedições, hoje a versão mais comum é a de 141 minutos, restaurada pelo American Film Institute e Blackhawk Films, feita em 1973, com produção de David Shepard, montagem de Arthur Lennig e música de Philip Carli.

Erich von Stroheim e Miss DuPont em "Esposas Levianas" (Foolish Wives, 1922) de Erich von Stroheim

Produção:

Título original: Foolish Wives; Produção: Universal Film Manufacturing Company; Produtor Executivo: Carl Laemmle; País: EUA; Ano: 1922; Duração: 141 minutos; Distribuição: Universal Film Manufacturing Company; Estreia: 11 de Janeiro de 1922 (EUA), 28 de Julho de 1925 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Erich von Stroheim; Produção: Irving Thalberg [não creditado]; Argumento: Erich von Stroheim; Intertítulos: Marian Ainslee, Ted Kent, Erich von Stroheim [não creditado]; Orquestração e Condução de Orquestra na Estreia: J. Frank Cork; Fotografia: Ben F. Reynolds, William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Arthur Ripley, Design de Produção: Richard Day, Elmer Sheeley; Cenários: Van Alstein [não creditado].

Elenco:

Maude George (Sua Alteza, Princesa Olga Petchnikoff), Mae Busch (Sua Alteza, Princesa Vera Petchnikoff), Erich von Stroheim (O Seu Primo, Conde Sergius Karamzin), Rudolph Christians (Andrew J. Hughes, Enviado Especial dos EUA ao Mónaco), Miss DuPont (Helen, Sua Mulher), Dale Fuller (Maruschka, Criada), Albert Edmondson (Pavel Pavlich, Mordomo), Cesare Gravina (Cesare Ventucci, Falsário), Malvina Polo (Marietta, A Sua Filha Meio Imbecil), C. J. Allen (Alberto I – Príncipe do Mónaco).

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