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Orphans of the StormQuando a Condessa de Linières (Katherine Emmet) dá à luz Louise, resultado de um relacionamento com um plebeu, a criança é abandonada, sendo recolhida e educada como filha do casal Girard, ao lado de Henriette. Anos mais tarde, órfãs, as duas crianças, Henriette (Lilian Gish) e Louise (Dorothy Gish), vão para Paris, procurar cura para a cegueira da segunda. Só que a cobiça do malvado Marquês de de Praille (Morgan Wallace) vai separá-las, Henriette entregue para uma orgia, e Louise raptada como pedinte. A intervenção de Chevalier de Vaudrey (Joseph Schildkraut) salva Henriette e apaixona-se por ela, mas rebenta a revolução, e os nobres são perseguidos por Robespierre, enquanto Henriette procura a irmã, e tenta salvar o seu amado.

Análise:

À entrada da década de 1920, depois dos seus enormes sucessos da década anterior, D.W. Griffith continuava a trilhar um caminho ímpar, apostando em super-produções, onde ligava dramas emocionais com momentos marcantes da história da humanidade. Tal foi o caso de “As Duas Órfãs”, filme adaptado da peça francesa de 1874 “Les Deux Orphelines”, de Adolphe d’Ennery e Eugène Cormon, já encenada para os palcos dos Estados Unidos. O filme seria o seu último grande sucesso comercial, e último dos seus filmes protagonizados pela sua diva de sempre, Lilian Gish. “As Duas Órfãs” seria, como habitualmente, produzido pelo próprio Griffith, mas agora já distribuído pela companhia que ele entretanto ajudou a fundar, com Charles Chaplin, Douglas Fairbanks e Mary Pickford, a United Artists

Se “O Nascimento de uma Nação” (Birth of a Nation, 1915) nos trazia a América da Guerra Civil de 1861-1865, e “Intolerância” (Intolerance, 1916) nos levava a viajar pela antiga Babilónia, pela Israel de Jesus Cristo e pela Noite de São Bartolomeu na Renascença francesa, “As Duas Órfãs”, por sua vez, têm como pano de fundo Paris em vésperas da Revolução Francesa de 1789. É aí, com o exemplo da prepotência da aristocracia, seguido dos excessos revolucionários que levam ao regime do Terror, que Griffith, a viver o nascimento das ditaduras europeias e a novidade da revolução russa (muito em “As Duas Órfãs” parece uma condenação do novo regime soviético), colhe como ensinamento que tão nocivos são uma classe dominante opressora como o são a anarquia e bolchevismo. Para ele, como anotado numa espécie de prefácio ao filme, a solução é uma democracia como a americana, a qual deve estar alerta para não cair em nenhum daqueles dois extremos.

Dado o mote político, a história mostra-nos o nascimento de Louise, filha ilegítima da Condessa de Linières (Katherine Emmet), cuja família nunca aprovou o relacionamento com um homem de classe baixa. Por essa razão a bebé é abandonada à porta de Notre Dame, sendo recolhida por um casal que a educa com a sua filha Henriette. Anos mais tarde, já adultas, Henriette (Lillian Gish) e Louise (Dorothy Gish) rumam a Paris, onde a primeira acredita poder curar a cegueira da segunda. Só que no caminho têm um encontro com o pérfido Marquês de Praille (Morgan Wallace), que logo congemina raptar a bela Henriette para uma das orgias do seu palácio. À chegada, e depois de o Marquês atropelar mortalmente a filha do agitador Jacques-Forget-Not (Leslie King), Henriette é raptada, e Louise fica ao abandono, sendo recolhida pela pedinte Frochard (Lucille La Verne), que vê nela um bom investimento.

O Marquês dá a sua orgia, e nela apresenta Henriette, a qual implora por salvação. Os seus pedidos são ouvidos por Chevalier de Vaudrey (Joseph Schildkraut), um nobre de bom coração, conhecido por ajudar os pobres, e este salva-a tendo de matar um nobre em duelo. Chevalier de Vaudrey vai albergar Henriette numa casa de Robespierre (Sidney Herbert), e promete-lhe tudo fazer para encontrar a sua irmã. Só que o seu tio, o Conde de Linières (Frank Losee), não vê com bons olhos a ligação do sobrinho a uma rapariga plebeia. Intrigada, a Condessa vai conhecer Henriette, e quando falam de Louise, a Condessa percebe que é a filha que perdeu há tantos anos. Só que os homens do Conde, decidido a separar o casal, prendem Henriette.

Sob o comando de Danton (Monte Blue), que conhecera Henriette em casa de Robespierre, dá-se o assalto à Bastilha que inicia a Revolução Francesa. Os prisioneiros são libertados, entre eles Henriette, e os nobres perseguidos, com Chevalier de Vaudrey a ter que se esconder. Entretanto Louise é salva por Pierre, o filho dos Frochard, que se apieda dela, enquanto Jacques-Forget-Not, decidido a levar a sua vingança a todos os extremos, persegue Chevalier de Vaudrey, encontrando-o escondido em casa de Henriette. Os dois são levados ao tribunal da revolução, onde são condenados à guilhotina por Robespierre, perante Louise, que entretanto reencontrara a irmã. Graças à intervenção de Danton, que confirma que Chevalier de Vaudrey sempre foi amigo dos pobres, a pena é revogada, quando Henriette já estava no cadafalso. O Terror termina, as irmãs são reunidas, a Condessa regressa para velar por ambas, e Henriette aceita ser noiva de Chevalier de Vaudrey.

Com cerca de duas horas e meia, “As Duas Órfãs” é mais uma produção monumental de Griffith, que foi, inclusivamente filmar exteriores em Itália, para ter fachadas clássicas de edifícios no seu filme. É óbvia a sua ideia de defender a miscigenação de classes, com os personagens que melhor vivem entre elas a serem os heróis do filme. É o caso da Condessa, que amara um plebeu, e ao reconhecer a filha, muitos anos depois, luta por ela. É o caso de Chevalier de Vaudrey, nobre que salva Henrietta, e ajuda os pobres sempre que pode. E no sentido inverso, é o caso de Danton, revolucionário com compaixão e que não vê apenas mal nos aristocratas. Pelo contrário a prepotência da aristocracia, presente no Conde de Linières, e sobretudo no Marquês de Praille (que vemos inclusivamente matar gratuitamente uma criança) é-nos mostrada com uma sobranceria criminosa, tanto quanto o são a sede de vingança de Jacques-Forget-Not e de Robespierre (note-se como este se acobarda na Revolução, escondido à espera do resultado, enquanto o corajoso Danton se expõe como herói). Pelo lado colectivo vemos como Griffith mostra orgias no campo aristocrático e celebrações orgiasticamente violentas no campo plebeu, mais uma vez na condenação dos excessos de ambas as partes.

Nesse contexto histórico temos a história de duas órfãs, do amor que as une (Henriette diz que nunca casará, enquanto Louise não puder ver o seu noivo para o aprovar, o que virá a acontecer quando esta se cura), e aquele que Henriette descobre em Chevalier de Vaudrey. Estas histórias principais são depois secundadas com enredos secundários, como o rapto de Louise, a vida dos Frochard, as motivações de Jacques-Forget-Not, e a presença de alguns personagens secundários (Pierre Frochard, Picard, etc.), que ajudam a tornar o filme numa obra densa, como o esperado da literatura do final do século XIX.

Como habitual na obra de Griffith, “As Duas Órfãs” não foge a esse princípio literário, com várias histórias paralelas a desenvolver-se separadamente para só mais tarde haver interacção de personagens. Como sempre, Griffith faz extenso uso do cross-cutting para fazer pontos de acção distintos convergir narrativamente, usa muitos flashbacks (quase sempre muito curtos, apenas para ilustrar pontos breves), e filma planos de conjunto em interiores de cenários bastante ricos, usando a técnica de filmar os grandes planos com os actores separadamente contra um fundo escuro, quase abstracto. A tudo isto Griffith junta todo o seu habitual léxico visual, desde inúmeros inserts, ao uso da íris para destacar algo, fade-ins, e claro, aos grandiosos planos exteriores de movimentos conjuntos, como é a sequência da revolução.

Mas nada disto resultaria sem interpretações convincentes, como o são as de Lilian Gish e de Joseph Schildkraut, comoventes e assertivos em partes iguais, e bem acompanhados por um elenco muito forte. Embora padecendo dos defeitos da época, com excessiva teatralização, e por vezes uma narrativa demasiado pesada, o filme de Griffith foi mais um enorme sucesso, graças à mensagem, à força dos personagens, e minuciosa recriação cénica. Com um ritmo empolgante, e episódios cativantes, o filme arrasta-se bastante no último acto, com uma sequência de eventos repetitiva que tem por objectivo criar suspense sobre o fim dos dois protagonistas a caminho da guilhotina.

Dorothy e Lilian Gish em "As Duas Órfãs" (Orphans of the Storm, 1921) de D. W. Griffith

Produção:

Título original: Orphans of the Storm; Produção: D.W. Griffith Productions; País: EUA; Ano: 1921; Duração: 144 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 28 de Dezembro de 1921 (EUA), 4 de Janeiro de 1926 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: D.W. Griffith; Produção: D.W. Griffith; Argumento: D.W. Griffith [como Gaston de Tolignac] [a partir da peça de Adolphe d’Ennery e Eugène Cormon, conforme a adaptação de Marquês de Trolignac]; Música: William Frederick Peters, Louis F. Gottschalk; Fotografia: Paul H. Allen, G.W. Bitzer, Hendrik Sartov [preto e branco]; Montagem: James Smith, Rose Smith; Direcção Artística: Charles M. Kirk; Cenários: Edward Scholl; Figurinos: Herman Patrick Tappe [não creditado]; Caracterização: ; Efeitos Especiais: Edward Scholl.

Elenco:

Lillian Gish (Henriette Girard), Dorothy Gish (Louise Girard), Joseph Schildkraut (Chevalier de Vaudrey), Frank Losee (Conde de Linières), Katherine Emmet (Condessa de Linières), Morgan Wallace (Marquês de Praille), Lucille La Verne (Madame Frochard), Sheldon Lewis (Jacques Frochard), Frank Puglia (Pierre Frochard), Creighton Hale (Picard), Monte Blue (Danton), Leslie King (Jacques-Forget-Not), Sidney Herbert (Robespierre), Lee Kohlmar (King Louis XVI), Marcia Harris (Senhoria de Henriette), Adolph Lestina (Médico), Kate Bruce (Irmã Genevieve), Flora Finch (Camponesa Faminta), Louis Wolheim (Verdugo), Kenny Delmar (Chevalier, Criança), James Smith (Bailarino), Herbert Sutch (Talhante no Festival), Rose Smith (Bailarina).

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