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The Four Horsemen of the Apocalypse Julio Madariaga é o patriarca de uma família de grandes proprietários argentinos. Tendo três netos da filha mais velha (Mabel Van Buren), despreza-os por serem filhos de um genro alemão (Alan Hale), rejubilando quando a segunda filha, Luisa (Bridgetta Clark), casada com o francês Marcelo Desnoyers (Josef Swickard), lhe dá um novo neto. Este, de nome Julio (Rudolph Valentino), sob a protecção do avô torna-se um conquistador boémio. Quando Madariaga morre, os genros levam as famílias para os respectivos países, onde, pouco depois começa a Primeira Guerra Mundial. Esta vai opor França e Alemanha, e colocar as duas famílias frente a frente, trazendo sofrimento e tragédia a ambos os lados.

Análise:

Nos anos 20 do século passado, Hollywood procurava afirmar-se como uma instituição. Depois dos anos formativos do cinema norte-americano na costa Leste, a que se seguiu a instalação em Hollywood a partir de 1909, o cinema passou de mera curiosidade de feira a atracção de entretenimento generalizado por todo o país. Chegava agora um novo desafio, torná-lo uma arte que pudesse ser comparada às outras. Tal ideia ganhou consciência no trabalho de D. W. Griffith, com o seu controverso épico “O Nascimento da Nação” (The Birth of a Nation, 1915) a ser o primeiro filme a ser apresentado na Casa Branca, percebendo-se que o cinema se elevava a outros patamares.

Essa necessidade de afirmação pela excelência domina os anos 20, com as produções a tornarem-se mais ambiciosas, e a preocupação técnica e estética a ser mais cuidada. Procuravam-se grandes temas, e bebia-se na obra dos grandes autores literários. Era o caso do espanhol Vicente Blasco Ibáñez, um romancista cuja obra seria várias vezes adaptada ao grande ecrã, ajudando às carreiras de duas das maiores estrelas da década: Rudolph Valentino e Greta Garbo. Foi isso que se passou com o seu romance “Los cuatro jinetes del Apocalipsis”, um romance sobre a Primeira Guerra Mundial, que a Metro Pictures Corporation (propriedade de Marcus Loew) desenvolveu no filme “Os Quatro Ginetes do Apocalipse”, realizado por Rex Ingram, e que seria a rampa de lançamento da fama de Rudolph Valentino.

Com argumento de June Mathis (a verdadeira força criativa por detrás do filme), “Os Quatro Ginetes do Apocalipse” conta-nos a história dos descendentes de Madariaga «The Centaur» (Pomeroy Cannon), um rude, mas popular proprietário da Argentina, detentor de enorme fortuna. Madariaga tem duas filhas casadas. Elena (Mabel Van Buren) deu-lhe já três netos, a quem ele pouco quer, por serem fruto do casamento com o alemão Karl von Hartrott (Alan Hale), que ele não aprovara. Já Luisa (Bridgetta Clark), é casada com o francês Marcelo Desnoyers (Josef Swickard), homem de confiança de Madariaga, e por isso o nascimento seu primeiro filho é uma enorme alegria para o avô. Este rapaz torna-se o popular Julio (Rudolph Valentino), que com a protecção do avô se dá a indulgências, tornando-se boémio frequentador dos bares de tango de Buenos Aires.

Com a morte de Madariaga a herança é dividida pelas duas filhas em partes iguais, e os genros decidem então voltar às respectivas terras natais, na Europa, para darem uma educação mais elevada aos filhos. Em Paris, Julio volta à vida boémia de pretenso artista durante o dia, e bailarino de tango nos cabarets durante a noite. Aí torna-se amante de Marguerite Laurier (Alice Terry), casada com Etienne Laurier (John St. Polis), amigo do seu pai. Após a descoberta, Etienne opta pelo divórcio, para evitar o escândalo, mas entretanto a guerra rebenta, com enormes mobilizações na França e na Alemanha, às quais Julio, como estrangeiro, fica alheio, enquanto ouve o vizinho de cima (Nigel de Brulier) falar de profecias apocalípticas, e dos quatro cavaleiros, mencionados na Bíblia.

Marguerite alista-se como enfermeira em Lourdes, e vem a tratar do ex-marido, agora cego, que lutou bravamente. Tal leva Julio a sentir-se cobarde, e a alistar-se no exército francês. Quanto a Marcelo, vê o seu castelo no Marne tomado pelo avanço alemão, e tem de tolerar a presença dos alemães, sendo que entre eles está um dos sobrinhos, Otto (Stuart Holmes), que o tenta proteger. Quando Marcelo se interpõe na defesa de uma mulher prestes a ser violada, é condenado à morte, mas a reconquista francesa salva-o a tempo, deixando o castelo destruído. Já Julio morre ao lado de um dos primos, depois de se encontrarem nas trincheiras. A notícia leva Marguerite a querer abandonar o seu posto, mas o fantasma de Julio pede-lhe que fique com Etienne. Na última cena, Marcelo chora a morte do filho, no cemitério, quando se avizinha o vizinho de cima, que diz tê-lo conhecido, bem como a todos, apontando os quatro cavaleiros do apocalipse, no céu, que, segundo ele, irão voltar.

No cinema havia “O Nascimento de uma Nação”, de Griffith. Na literatura, antes de Ibañez, havia “Guerra e Paz” de Tolstoi. Ficou claro que a ideia de June Mathis era trazer a grandiosidade dessas obras, quer em termos literários quer cinematográficos. Como nelas, apresenta-se uma família com as suas ramificações e problemas, e dá-se-lhes depois o contexto de um acontecimento histórico marcante (a Guerra Civil Americana no filme de Griffith, as Guerra Napoleónicas na obra de Tolstoi, e agora a Primeira Guerra Mundial). Descrevendo a guerra em sequências bastante gráficas, esta torna-se palco onde vemos desenrolarem-se as tragédias familiares, num épico longo que abarca história mundial e o detalhe das dinâmicas inter-pessoais.

Tudo isto é conseguido em “Os Quatro Ginetes do Apocalipse”, com Rex Ingram a imprimir sempre o ritmo certo a cada secção do filme, seja nos momentos intimistas, seja nas sequências quase documentais da guerra. Notam-se ainda os «erros» do cinema do seu tempo, os longos intertítulos explicando grandes porções do filme através de texto (na Europa isso já deixava de acontecer), uma certa rigidez entre grandes planos de rostos e planos de conjunto, numa alternância quase métrica, e claro, um modo de actuar muito teatral, como era regra nesses tempos. Pelo positiva ficava a qualidade de cenários (quer interiores, quer exteriores), a encenação das cenas de batalhas e desfiles militares, a força dos protagonistas, e mesmo alguns efeitos especiais, como os que nos mostram os cavaleiros do Apocalipse, surgindo sempre de forma apoteótica, e surpreendente no cinema de então.

O filme não escapou, no entanto, a algumas críticas sobre a forma como os alemães foram apresentados. Mas salienta-se sobretudo tratar-se claramente de um filme anti-guerra, a qual é tratada como uma tragédia, sem que nos seja dado qualquer contexto histórico que a pudesse justificar, pois justificá-la não é o objectivo do filme. A destacar está ainda o seu carácter quase mitológico, com a presença dos quatro cavaleiros do último livro da Bíblia, e as profecias a isso associadas, a serem apresentados literalmente (como efeitos da própria actividade humana: conquista, guerra, pestilência trazida pela fome e morte), muito pela figura do sinistro vizinho de Julio, que lembra que a humanidade está condenada a perecer em sucessivas guerras. O fantástico (que é como diz, os efeitos especiais), surge ainda na forma do fantasma de Julio.

O tom trágico está, aliás, sempre presente. Desde a história de Madariaga, que vemos como um patriarca isolado que depõe as esperanças num descendente ainda por nascer, até depois depender dele, quando este – Julio – não passa de um boémio. Temos depois a tragédia de Marguerite, ligada pelo infortúnio ao marido que traiu, como forma de expiar os seus erros, quando ele, cego, nem sequer sabe que é ela quem o trata. Temos ainda a tragédia de Marcelo, que regressado a França, não pode cumprir o seu papel de cidadão, pois anos antes saíra em fuga, e agora prefere viver incógnito. O seu pecado torna-se a acumulação de antiguidades que guarda no castelo, símbolo de futilidade, que será completamente destruído na guerra. Por fim temos o próprio destino dos netos de Madariaga, condenados a morrer todos na guerra, com Julio e um dos primos a encontrarem-se nas trincheiras no momento em que uma bomba rebenta, matando-os a ambos.

Quase como efeito secundário do filme, deu-se a explosão do mito Valentino. Aposta pessoal de Mathis, que enfrentou Ingram, o qual queria um actor mais conhecido, Rudolph Valentino teve aqui o seu primeiro papel importante, definindo desde logo o mito do amante latino, exuberante, impetuoso e romântico. São várias as sequências feitas apenas para ele, sobretudo na primeira metade do filme, onde se destaca a primeira na casa de tangos de Buenos Aires. Ali, Valentino dança um tango de sedução, que começa por tirar o par (Beatrice Dominguez) a outro homem, para terminar com a mulher perfeitamente conquistada. De olhar perfurante, modos elegantes, e um penteado que não se desfazia nem num vendaval, Valentino encarnava a paixão avassaladora, feita dança e impulsividade. A isso juntavam-se os seus beijos em tela, os mais escandalosos filmados até então. Nem o facto de, no filme de Ingram, o seu personagem nos seja apresentado como um boémio oco, que faz o seu crescimento através do sofrimento e sacrifício em batalha, diminuiu em nada o seu efeito. O mito estava criado, e Valentino reinaria durante uma década.

O sucesso do filme foi imediato (mais de 9 milhões de dólares encaixados), com elogios à sua grandiosidade e excelência, tornando June Mathis a mais poderosa mulher de Hollywood do seu tempo.

“Os Quatro Ginetes do Apocalipse” foi restaurado em 1993, numa versão de 132 minutos, com produção de Kevin Brownlow e David Gill, e uma banda sonora que inclui efeitos sonoros como explosões, tiros, música e outros ruídos diegéticos. A música usada inclui excertos de Mahler, Saint-Säens, Berlioz, Haydn, Hummel, e compositores sul-americanos.

Bowditch M. Turner, Nigel de Brulier e Rudolph Valentino em "Os Quatro Ginetes do Apocalipse" (The Four Horsemen of the Apocalypse, 1921) de Rex Ingram

Produção:

Título original: The Four Horsemen of the Apocalypse; Produção: Metro Pictures Corporation; País: EUA; Ano: 1921; Duração: 132 minutos (Versão de 1993); Distribuição: Metro Pictures Corporation; Estreia: 6 de Março de 1921 (EUA), 31 de Março de 1923 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Rex Ingram; Argumento: June Mathis [a partir do romance “Los cuatro jinetes del Apocalipsis” de Vicente Blasco Ibáñez]; Música: Carl Davis (Versão de 1993); Fotografia: John F. Seitz [preto e branco]; Montagem: Grant Whytock; Direcção Artística: Joseph Calder, [não creditado], Amos Myers [não creditado]; Desenho de Intertítulos: Jack W. Robson; Direcção de Produção: Sterrett Ford.

Elenco:

Pomeroy Cannon (Madariaga), Josef Swickard (Marcelo Desnoyers), Bridgetta Clark (Doña Luisa), Rudolph Valentino (Julio Desnoyers), Virginia Warwick (Chichí), Alan Hale (Karl von Hartrott), Mabel Van Buren (Elena), Stuart Holmes (Otto von Hartrott), John St. Polis (Etienne Laurier (as John Sainpolis), Alice Terry (Marguerite Laurier), Mark Fenton (Senador Lacour), Derek Ghent (René Lacour), Nigel De Brulier (Tchernoff, O Vizinho de Cima), Bowditch M. Turner (Argensola, Criado de Julio), Edward Connelly (Caseiro), Wallace Beery (Tenente-coronel von Richthosen), Harry Northrup (O General), Arthur Hoyt (Tenente Schnitz).

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