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Luci del varietàO sucesso de uma troupe de vaudeville, que corre Itália em parcas condições, começa a mudar quando a jovem Liliana Antonelli (Carla Del Poggio), conhecida como Lily, entra para a companhia. Aceite com relutância pelos colegas, mas sob insistência do comediante Checco Dal Monte (Peppino De Filippo), Lily torna-se uma atracção, o que vem perturbar os equilíbrios sempre instáveis da companhia, principalmente com Melina Amour (Giulietta Masina) companheira de Checco, que este vai ignorando. Com o protesto dos outros actores, Checco decide formar a sua própria companhia, em torno de Lily, mas esta começa a ser cobiçada por empresários de outro gabarito.

Análise:

Depois de cerca de duas dezenas de argumentos creditados em seu nome, grande parte para alguns dos mais conceituados nomes do Neo-realismo italiano, Federico Fellini teve o seu primeiro crédito de realizador no filme “Luci del varietà”, que assinou a meias com Alberto Lattuada, um autor para o qual Fellini já escrevera vários argumentos. Com realização, produção e argumento partilhado entre Lattuada e Fellini, “Luci del varietà” é um filme ainda no espírito neo-realista, onde a mão de Lattuada é clara na caracterização dos personagens, modo solto e algo cómico da evolução do enredo.

A história leva-nos a viajar para o mundo dos artistas de palco, uma espécie de saltimbancos, sacrificando-se, muitas vezes em condições paupérrimas, em busca do próximo espectáculo e, quem sabe, de um pouco de respeito e apreciação. Quando a jovem Liliana ‘Lily’ Antonelli (Carla Del Poggio) tenta lugar na companhia, Checco Dalmonte (Peppino De Filippo), o comediante, fica fascinado pela beleza da rapariga, prometendo-lhe o mundo, como seu novo empresário. Tal vem trazer desequilíbrios no grupo, começando no ciúme de Melina Amour (Giulietta Masina), a companheira de Checco. Após algumas partidas em falso, e querelas internas, Lily começa a ser apreciada pelos seus atributos físicos, e Checco decide começar uma nova companhia, recrutando actores que o aceitem como líder. Mas com o sucesso de Lily, surgem ofertas de outros empresários, que ameaçam pôr fim à aventura de Checco.

Se no conteúdo, “Luci del varietà” (retrato desromantizado das condições de uma classe, dita baixa, de artistas de palco, descrito com um humor quase desrespeitoso) lembra a influência neo-realista da obra de Lattuada, o tema e aspecto circense da caracterização dos personagens, e o modo vívido de nos deixar imagens, apontam já algo do que se tornaria a carreira do jovem Fellini, começando como o leque variado e colorido de personagens, com que Lattuada e Fellini percorrem um espectro de condições humanas, do sonho ao desespero, do poético ao existencial.

Muito do filme alicerça-se, claro, no desempenho da belíssima Carla Del Poggio (esposa de Lattuada), na história, como na realidade, uma verdadeira atracção. Curiosamente “Luci del varietà” confronta-a com a menos vistosa, mas talvez mais real Melina, interpretada pela esposa de Fellini, Giulietta Masina, e que na obra do realizador se tornaria um ponto de apoio incontornável. Entre elas temos os desejos de uma redescoberta grandeza (e com isso de uma nova juventude) de Checco Dal Monte, o comediante frustrado, que sonha ser empresário, e que não se quer prender à mulher que o ama, preferindo perseguir ilusões. É como se o mundo alegórico de Fellini, onde sonho e realidade habitualmente se misturam com um toque de nostalgia e doçura poética, começasse já a insinuar-se, mesmo no âmago do mais convencional Neo-realismo.

Valendo pelos olhares para o início da carreira de Fellini, pelas interpretações e pelo modo como ternura e nostalgia são mescladas com desespero e sofrimento, “Luci del varietà” é, em muitos sentidos, um filme híbrido, de transição, mas com pontos de interesse suficientes para que a vontade de o rever continue.

Carla del Poggio em "Luci del varietà" (1951) de Alberto Lattuada e Federico Fellini

Produção:

Título original: Luci del varietà; Produção: Capitolium; Produtores Executivos: ; País: Itália; Ano: 1951; Duração: 97 minutos; Estreia: 12 de Janeiro de 1951 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Alberto Lattuada, Federico Fellini; Produção: Alberto Lattuada, Federico Fellini; Argumento: Alberto Lattuada, Federico Fellini, Tullio Pinelli, Ennio Flaiano [não creditado]; História: Federico Fellini; Música: Felice Lattuada; Direcção Musical: Franco Ferrara; Fotografia: Otello Martelli [preto e branco]; Montagem: Mario Bonotti; Direcção Artística: Aldo Buzzi; Cenários: Luigi Gervasi; Figurinos: Aldo Buzzi; Caracterização: Eligio Trani; Direcção de Produção: Bianca Lattuada.

Elenco:

Peppino De Filippo (Checco Dal Monte), Carla Del Poggio (Liliana ‘Lily’ Antonelli), Giulietta Masina (Melina Amour), John Kitzmiller (Johnny, Trompetista), Dante Maggio (Remo), Checco Durante (Dono do Teatro), Gina Mascetti (Valeria del Sole), Giulio Calì (Ilusionista Edison Will), Silvio Bagolini (Bruno Antonini), Giacomo Furia (Duque), Mario De Angelis (Maestro), Vanja Orico (Moema, Cantora Brasileira), Enrico Piergentili (Pai de Melina), Renato Malavasi (Dono do Hotel, Joseph Falletta (Pistolero Bill).

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