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Giù la testaNo México da revolução no início do século XX, encontra-se John H. Mallory (James Coburn), um revolucionário irlandês do IRA, perito em explosivos, e que, depois de traído pelo melhor amigo, deixou tudo para trás, para uma vida a troco do melhor preço. É lá que se vai cruzar como Juan Miranda (Rod Steiger), um bandido local, líder de uma família de foras-da-lei, que sonha com importantes assaltos a bancos, que o tornem alguém. Com John a soldo dos revolucionários, as ambições dos dois homens cruzam-se momentaneamente, tornando-os, praticamente sem o quererem, verdadeiros heróis da revolução.

Análise:

Desta vez com o apoio da United Artists, Sergio Leone continuava, com “Aguenta-te Canalha!”, a sua trilogia «Era uma vez», de filmes dedicados à história da América do Norte, que por essa razão também ficou conhecido como “Once Upon a Time in the Revolution”. O filme terá sido pensado para ser dirigido por Giancarlo Santi, assistente de Leone, e noutra altura por Sam Peckimpah, mas a já notoriedade de Leone levava a que houvesse pressão no sentido de ser ele a dar o nome ao filme.

Com argumento de Leone, Sergio Donati e Luciano Vincenzoni, “Aguenta-te Canalha!” volta a apresentar as imagens de marcas do expoente do western spaghetti do seu autor, uma história marcada por anti-heróis, uma narrativa épica, de longos tempos e imensos espaços, a inclusão de um elenco internacional com algumas estrelas americanas (neste caso Rod Steiger e James Coburn), acção marcada pelo drama, que aqui e ali é interrompido por pequenos momentos de humor, e as filmagens na imensa paisagem da Andaluzia, com interiores em Roma, e desta vez uma passagem pela Irlanda.

É desta vez Sergio Leone quem, através de “Aguenta-te Canalha!”, olha para a revolução mexicana de 1910–20. E, à boa maneira do chamado western zapata, fá-lo do ponto de vista de dois bandidos. Um é o perito em dinamite John H. Mallory (James Coburn), um revolucionário irlandês do IRA que, depois de traído pelo melhor amigo, deixou tudo para trás, para se envolver numa guerra com a qual não tinha laços emocionais. O outro, Juan Miranda (Rod Steiger) é um pequeno bandido, líder de uma família de foras-da-lei, que sonha com assaltos a bancos que o tornem temido e respeitado.

Depois de um encontro menos auspicioso entre os dois, John e Juan reencontram-se em Mesa Verde, onde o primeiro irá colocar a sua perícia ao serviço do revolucionário Dr. Villega (Romolo Valli) no assalto ao banco. Motivado apenas pelo saque, o bando de Juan ajuda no assalto, para descobrir que o banco é uma prisão onde se torturam revolucionários. Como resultado, Juan e John tornam-se, sem o querer, heróis da revolução. Na perseguição que se segue, Juan e John explodem a ponte com os soldados do Coronel Günther Reza (Antoine Saint-John), mas ao regressarem descobrem que a família de Juan foi chacinada. Em vingança, este procura os soldados, sendo capturado e condenado à execução. John chega a tempo de o salvar e de descobrir, que o Dr. Villega, por ter sido torturado, funcionara como delator.

Na fuga de comboio para se juntarem aos revolucionários, Juan e John deparam com a fuga do comandante local, Don Jaime (Franco Graziosi), que os tenta subornar em vão. A caminho das tropas de Zapata e Sancho Villa, Juan e John reencontram Villega, e vêem-se perseguidos pelo comboio do Coronel Günther Reza (Antoine Saint-John). Pela última vez, John armadilha a locomotiva, e o Dr. Villega vai conduzi-la de encontro à morte para assim expiar o seu crime. Na luta que se segue, John e Juan enfrentam novamente a morte.

Segundo Sergio Leone, “Aguenta-te Canalha!” não tenciona ser um filme político, pelo que o lado ideológico é irrelevante ao autor. Embora coincidindo com os protestos de Paris, e o crescendo da ideologia de esquerda na Europa que viu no filme uma bandeira, Leone queria, mais uma vez desmistificar o romantismo destes temas no cinema, com um filme repleto de cinismo, e conduzido por anti-heróis, que se vêem arrastados para o epicentro de um momento histórico, quando querem apenas sobreviver e fazer, ilicitamente, algum lucro.

Também segundo Leone, a ideia para o filme vinha do confronto entre a intelectualidade (o personagem de Coburn, veterano de revoluções românticas, e leitor de Bakunine), e o prosaico (o ingénuo interpretado por Steiger), sendo que todo o percurso é feito no sentido de desmistificar esse romantismo, que nos chega nos flashbacks de John, passados na Irlanda, onde amizades, romance, sonho e aventura se trocam por traição, crime e fuga. Perante isto, a vida de Juan é simples. Vive para os seus, que protege e por quem dá a vida se necessário, olhando para o dia seguinte apenas como mais uma oportunidade de sobrevivência e possível lucro. Por isso, quer da parte dos protagonistas, quer dos seus oponentes e coadjuvantes, a revolução é um palco de guerra, de cinismo, de crime, de oportunismo, e raras vezes de ideais puros, como fica demonstrando quando o próprio Dr. Villega se revela incapaz de evitar trair os seus.

Mantendo o seu modo de filmar, a grandeza dos planos e movimentos, e a classe do seu uso de tempos e acção, Leone confiou desta vez o seu “Bom” a James Coburn (que já tentara antes ter nos seus filmes), um veterano do western e filmes de acção nos Estados Unidos, depois da recusa de Clint Eastwood, num papel inicialmente pensado para Jason Robards. Mas é Juan quem brilha e dá identidade ao filme, como um bandido colérico, mas amável, perigoso, mas bem-humorado. Depois da recusa de Eli Wallach para repetir um papel que se pareceria com o Tuco de “O Bom, o Mau e o Vilão” (Il buono, Il brutto, il cattivo, 1966). O já oscarizado Rod Steiger vestiu com engenho o papel conseguindo dar-lhe grande personalidade e independência, ficando para sempre como a marca mais inconfundível do filme.

Novamente com uma banda sonora inspirada de Ennio Morricone (sempre entre o romantismo orquestral, e os surpreendentes sons naturais com que pintava o cruel velho Oeste), “Aguenta-te Canalha!” tornou-se um pouco menos amado que os restantes filmes de Leone, talvez pela menor facilidade de identificação com os protagonistas, aqui sem objectivos grandiosos nem tarefas aventurosas. Uma ainda maior crueza das cenas, que alguns crêem inspirada em Peckimpah, por exemplo envolvendo execuções sumárias frente a pelotões de fuzilamento vinha também abrir algumas feridas deixadas pelas guerras na Europa.

Ainda assim, e apesar de uma recepção fria no seu tempo, “Aguenta-te Canalha!” tem vindo a ganhar um estatuto de culto, como um dos filmes a descobrir da curta, mas intensa carreira de Sergio Leone.

Rod Steiger em "Aguenta-te Canalha!" (Giù la testa/Duck, You Sucker, 1971) de Sergio Leone

Produção:

Título original: Giù la testa [Título inglês: Duck, You Sucker]; Produção: Rafran Cinematografica / Euro International Films (EIA) / United Artists [não creditada] / San Miura [não creditada]; País: Itália / Espanha / Estados Unidos; Ano: 1971; Duração: 151 minutos; Distribuição: Euro International Film (EIA) (Itália), United Artists; Estreia: 29 de Outubro de 1971 (Itália), 2 de Novembro de 1972 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Leone; Produção: Fulvio Morsella; Produtores Associados: Claudio Mancini, Ugo Tucci; Argumento: Luciano Vincenzoni, Sergio Donati, Sergio Leone; História: Sergio Leone, Sergio Donati; Adaptação de Diálogos: Roberto De Leonardis, Carlo Tritto; Música: Ennio Morricone; Fotografia: Giuseppe Ruzzolini [filmado em Techniscope, cor por Technicolor e Eastman]; Montagem: Nino Baragli; Direcção Artística: Andrea Crisanti; Cenários: Dario Micheli; Figurinos: Franco Carretti; Caracterização: Amato Garbini; Efeitos Especiais: Antonio Margheriti, Giovanni Corridori [não creditado], Gerry Johnston [não creditado]; Direcção de Produção: Camillo Teti.

Elenco:

Rod Steiger (Juan Miranda), James Coburn (John H. Mallory), Romolo Valli (Dr. Villega), Maria Monti (Adelita, Passageira da Carruagem), Rik Battaglia (Santerna), Franco Graziosi (Governador Huerta), Antoine Saint-John [como Domingo Antoine] (Gutierez / Col. Günther Reza), Vivienne Maya [como Vivienne Chandler] (Coleen, Namorada de John), David Warbeck (Nolan, Amigo de John), Giulio Battiferri (Miguel), Poldo Bendandi (Revolucionário Executado), Omar Bonaro (Revolucionário), Roy Bosier (Proprietário na Carruagem), John Frederick (Americano na Carruagem), Amato Garbini (Segundo Polícia no Comboio), Michael Harvey (Yankee, Condutor da Carruagem), Biagio La Rocca (Benito Miranda), Furio Meniconi (Revolucionário Executado), Nazzareno Natale (Elemento da Família de Juan, Morto na Explosão da Dinamite), Vincenzo Norvese (Pancho Miranda), Stefano Oppedisano (Revolucionário), Memè Perlini [como Amelio Perlini] (Peon), Renato Pontecchi (Pepe), Goffredo Pistoni (Papa Miranda), Jean Rougeul (Padre na Carruagem), Corrado Solari (Sebastian), Benito Stefanelli (Guarda), Franco Tocci (Primeiro Polícia no Comboio), Rosita Torosh, Antonio Casale [como Anthony Vernon] (Notário na Carruagem), Giuseppe Rinaldi (dobragem de voz de James Coburn) [não creditado], Carlo Romano (dobragem de voz de Rod Steiger) [não creditado].

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