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C'era una volta il WestNo dia do seu casamento, Brett McCain (Frank Wolff) e a família são chacinados por bandidos. À chegada, a noiva Jill McBain (Claudia Cardinale) herda apenas uma terra sem qualquer riqueza, mas que é disputada pelo assassino Frank (Henry Fonda), a soldo do industrial dos caminhos-de-ferro, Morton (Gabriele Ferzetti). Atraídos ao local são Cheyenne (Jason Robards), um bandido em fuga das autoridades, cujo bando surge incriminado nos crimes de Frank, e o misterioso Harmonica (Charles Bronson), que vai marcando encontros com Frank, e matando os homens deste, que aparecem no seu lugar.

Análise:

Depois do sucesso e destaque internacional adquirido, com a trilogia de westerns, protagonizada por Clint Eastwood, com que Sergio Leone definiu todo um novo imaginário do western spaghetti, seria a própria Hollywood a chamá-lo. A ideia de Leone seria mudar de género e começar aquele que seria “Era uma vez na América” (Once Upon a Time in America, 1984), mas os produtores insistiram em mais westerns. Leone começou assim aquilo que via como nova trilogia, continuada com “Aquenta-te, Canalha!” (Giù la testa, 1971) e terminada com o citado “Era uma vez na América”, homenageando três períodos históricos que fizeram os Estados Unidos.

Filmando novamente na planície andaluza, em Espanha, e nos estúdios romanos da Cinecittà, Leone tinha agora o apoio da Paramount Pictures que o levava a filmar também no mítico Monument Valley (Utah e Arizona), nos Estados Unidos, bem como no México. Com argumento escrito a meias com as futuras lendas do cinema italiano Bernardo Bertolucci e Dario Argento, surgia “Aconteceu no Oeste”, um filme que continuava, estilisticamente, a caminhada iniciada por Leone com “Por um Punhado de Dólares” (Per un pugno di dollari, 1964), mas agora onde tudo era maior, mais rico, mais intenso, e mais dramático.

Logo no tema se percebe alguma mudança. Não estamos já presença de aventureiros solitários, em busca de alguma temporária fama ou riqueza, mas sim num ajuste de contas com o passado em forma de uma vingança. E esta é justificada pela maldade de um vilão, que antes que percebamos o que terá feito nesse tal passado, já começámos a odiar pelos seus crimes do presente.

Ele é simplesmente chamado Frank (Henry Fonda), líder de um bando de criminosos, que vemos matar desapiedadamente uma família de colonos irlandeses, cujo patriarca, Brett McBain (Frank Wolff) esperava nesse mesmo dia, a noiva Jill (Claudia Cardinale), com quem deveria casar. Descobrimos depois que Frank trabalha para Morton (Gabriele Ferzetti), um magnata dos caminhos-de-ferro, que quer à força os terrenos da família de MacBain. Entretanto, Frank decide deixar pistas que incriminam o bando de Cheyenne (Jason Robards), um bandido em fuga das autoridades, ao mesmo tempo que tem de perceber quem é o estranho conhecido por Harmonica (Charles Bronson) que insiste em o procurar, e lhe vai matando os homens. As circunstâncias fazem com que Harmonica e Cheyenne acabem em casa de Jill, salvando-a, e percebendo que o interesse nela é a chave para chegarem a Frank.

Com uma história de vingança, passada por entre a construção dos caminhos-de-ferro, onde uma presença feminina vem questionar um mundo de homens, Sergio Leone inovava, mantendo a sua linha vencedora. Temos quase que a repetição do tríptico bom-mau-vilão, que na verdade era, no filme com esse nome, um tríptico herói-vilão-antiherói (Clint Eastwood, Lee van Cleef, Eli Wallach, respectivamente), que agora tinha esses papéis tomados por Charles Bronson (o herói, com objecivo concreto, incorruptível, e de boas intenções), Henry Fonda (um vilão que representa tudo o que há de mau, cínico e cruel) e Jason Robards (um bandido capaz de compaixão, e que por motivos transviados acabará por ajudar os bons, e também como Wallach, capaz de alguma comicidade). Indo ainda mais longe, pode-se dizer que essa estrutura de personagens alastrava no spaghetti, com o citado tríptico a ser o motivo de filmes de Sergio Sollima, como “Corre Homem Corre” (Corri uomo corri, 1968) e de Sergio Corbucci, como “Pistoleiro Profissional” (Il mercenário, 1968) e “Companheiros” (Vamos a matar, compañeros), com actores como Donald O’Brien e Franco Nero no papel do herói impassível, Tony Musante e Tomas Milian como o anti-herói trapalhão e semi-cómico, e Marco Guglielmi e Jack Palance no papel do vilão sádico.

Temos depois todo o imaginário de Leone, a paisagem amarelada, a desertificação, os espaços, o grotesco dos rostos, os planos (por exemplo o típico plano do rosto encher meio ecrã, para dar o resto da acção em fundo), os tiroteios filmados detrás de quem dispara, e claro, o tempo, agora ainda mais lento e majestoso, onde a tensão é criada pelos duelos surdos de olhares e crescendo de expectativa, naquilo que ficou chamado ópera-western. A isto é necessário juntar ainda mais uma banda sonora inesquecível de Ennio Morricone, cujos sons (aqui no recorrente tema da harmónica) e melodias se tornavam banda sonora do nosso imaginário do velho Oeste.

Como novidades, como já foi dito, a presença feminina, ajudando a definir temas mais clássicos (a vingança, a luta por um pedaço de terra na era da construção de um país, e ainda, o amor e a família – não esqueçamos que Jill se transforma em mulher honesta quando deixa a cidade para participar na construção do sonho de Brett).

Mas no centro de tudo está o confronto de personalidades, e sobretudo de vontades. Isto é, o duelo, que percorre todo o filme, do homem da harmónica (Bronson) e do vilão (Fonda) que em tempos causou a sua ira. É com um desses duelos que o filme começa (a inesquecível e longa sequência da espera do comboio), e é com o duelo literal dos dois que o filme ganha o seu desenlace. Dois actores que Leone já tentara ter nos seus filmes anteriores, Henry Fonda interpreta aqui um dos mais odiáveis personagens da sua profícua carreira, enquanto Bronson (sem a classe fria de Eastwood) se limita a mostrar a sua expressão de barro que seria enervante de ver, se não soubéssemos que é esse o efeito pretendido sobre os seus adversários. Destaque ainda para Claudia Cardinale. Mesmo que a sua voz não seja ouvida na versão inglesa (a voz é de Joyce Gordon), a actriz italiana passeia classe e sensualidade em cada segundo que tem na tela, como que trazendo à Terra, com enorme subtileza e força, todos os conceitos masculinos que, de outro modo, se tornariam demasiado abstractos e fugidios. A forma como se dá ao seu inimigo porque, como confessa, fará tudo para se salvar, é um excelente paradigma do universo de Leone. Isto é, ele pode ser sujo e sem escrúpulos, mas tem horizontes bem definidos e reais, e na presença de uma mulher torna-se quente e humano.

Há ainda a realçar as citações de Leone ao western clássico, de que ficam aqui alguns exemplos claros. A sequência inicial da espera ao comboio é nitidamente inspirada em “O Comboio Apitou Três Vezes” (High Noon, 1952), de Fred Zinnemann, também com Fonda; a aparição da família McBain (cena da caça e posterior funeral) bebem de “Shane” (1953), de George Stevens; Charles Bronson já tocava harmónica em “Vera Cruz” (1954), de Robert Aldrich.

Com um argumento sempre intrigante e empolgante, e uma realização inspirada que transforma cada ângulo e cada olhar num foco de tensão, “Aconteceu no Oeste” é um daqueles filmes que não se esquece, marca para sempre o que cada pessoa possa pensar do western e, apesar da sua duração, parece passar num ápice, tal a tensão que vai criando a cada momento. Destaque para os planos filmados de grua, na entrada de Claudia Cardinale, e no final do filme, num abrir e fechar de ciclo, de cortar a respiração.

Como era habitual o filme foi rodado sem captação das vozes dos actores, sendo a dobragem nas diversas línguas feita depois em estúdio. Henry Fonda, Charles Bronson, Jason Robards, Jack Elam, Frank Wolff, Keenan Wynn e Lionel Stander dobraram as próprias vozes em inglês. Já versão italiana Claudia Cardinale foi dobrada por Rita Savagnone. Também como habitual, a versão de cinema que estreou nos Estados Unidos era mais curta (com menos 30 minutos) numa montagem diferente, que prejudicou muito o filme.

Claudia Cardinale em "Aconteceu no Oeste" (C'era una volta il West/Once Upon a Time in West, 1968) de Sergio Leone

Produção:

Título original: C’era una volta il West [Título inglês: Once Upon a Time in West]; Produção: Rafran Cinematografica / Finanzia San Marco / Paramount Pictures; Produtor Executivo: Bino Cicogna; País: Itália / EUA / Espanha / México; Ano: 1968; Duração: 158 minutos; Distribuição: Euro International Film (EIA) (Itália), Paramount Pictures; Estreia: 21 de Dezembro de 1968 (Itália), 31 de Março de 1970 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Leone; Produção: Fulvio Morsella; Argumento: Sergio Leone, Sergio Donati; História: Dario Argento, Bernardo Bertolucci, Sergio Leone; Música: Ennio Morricone; Fotografia: Tonino Delli Colli [filmado em Techniscope, cor por Technicolor]; Montagem: Nino Baragli; Direcção Artística: Carlo Simi, Rafael Ferri [não creditado], Carlo Leva [não creditado]; Cenários: Carlo Simi; Figurinos: Carlo Simi, Antonella Pompei [não creditada]; Caracterização: Alberto De Rossi; Efeitos Especiais: Eros Bacciucchi; Direcção de Produção: Claudio Mancini.

Elenco:

Claudia Cardinale (Jill McBain), Henry Fonda (Frank) Jason Robards (Cheyenne), Charles Bronson (Harmonica), Gabriele Ferzetti (Morton), Paolo Stoppa (Sam), Woody Strode (Stony, Membro do Bando de Frank), Jack Elam (Snaky, Membro do Bando de Frank), Al Mulock (Knuckles, Membro do Bando de Frank) [não creditado], Keenan Wynn (Xerife, Leiloeiro), Frank Wolff (Brett McBain), Lionel Stander (Barman).

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