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Il mercenarioQuando o mercenário Sergei Kowalski (Franco Nero) encontra o antigo revolucionário Paco Roman (Tony Musante) como palhaço numa tourada, descobrimos, em flashback, como ambos se conheceram. Kowalski fora contratado pelos irmãos Garcia para lhes transportar a sua prata, quando Roman fez rebentar a mina deles. Sob ameaça das tropas governamentais, e do sádico norte-americano Curly (Jack Palance), Roman e Kowalski vão-se cruzar várias vezes, com o primeiro a pagar ao segundo pela sua ajuda e conhecimentos de guerra. Mas nem todos os encontros acabam bem, e há contas a ajustar entre os dois.

Análise:

Logo após o aclamado “O Grande Silêncio” (Il grande silenzio, 1968), no mesmo ano, Sergio Corbucci passava a um projecto que o colocava no campo dos westerns ligados à revolução mexicana. Seria terreno fértil para os realizadores italianos, que assim podiam justificar sotaques espanhóis, e trazer uma nova iconografia ao cânone do western, que vinha a fortalecer-se de filme para filme, numa corrente que surge por vezes denominada como «westerns zapata». Consigo, Corbucci voltava a ter Franco Nero, o herói nominal de “Django” (1966), e tinha agora no papel do vilão o norte-americano Jack Palance.

Isto é o que acontece em “Pistoleiro Profissional”, mais um filme com o selo da qualidade de produção de Alberto Grimaldi, que terá começado como um projecto para Gillo Pontecorvo, com argumento de Franco Solinas e Giorgio Arlorio. Com Grimaldi a sugerir alterações, o argumento passou então para as mãos de Luciano Vincenzoni, entre outros, que o alteraram substancialmente, provocando a saída tanto de Solinas e Arlorio, como do próprio Pontecorvo. O realizador escolhido por Grimaldi foi então Sergio Corbucci, o qual também quis deixar a sua marca no argumento final.

“Pistoleiro Profissional” é a história de um mercenário polaco, especialista em tácticas militares, e em armamento do último modelo. Ele é Sergei Kowalski (Franco Nero), que na sequência inicial vemos a fazer a introdução da história, que em grande parte é contada em flashback. Acabando de encontrar Paco Roman (Tony Musante) como palhaço numa tourada, Kowalski conta como o conheceu. O Polaco fora contratado pelos irmãos Garcia para transportar prata da sua mina para os Estados Unidos. Quanto a Roman, trabalhava para os Garcia, quando maus tratos o levaram a uma revolta. Apanhado, conseguiu fugir. Quando Kowalski chega para cumprir o negócio, encontra a mina destruída, e Paco e os seus homens triunfantes, em nome da revolução. Quem perseguia Kowalski era o dúbio Curly (Jack Palance), que ao saber das maquinações, interrogou e matou dois dos irmãos Garcia, denunciando depois o crime ao terceiro irmão, o Coronel Alfonso Garcia (Eduardo Fajardo). Juntos atacaram o campo de Roman, o qual contratou no momento Kowalski, e juntos afugentaram a ameaça.

Roman e Kowalski separam-se, mas uma emboscada de Curly volta a juntá-los, vencendo um humilhado Curly que jura vingança. Novamente contratado por Roman, Kowalski participa em vários golpes que tencionam reunir dinheiro para a revolução, e durante os quais Roman encontra Columba (Giovanna Ralli). Mas após novo ataque das tropas governamentais, Roman volta a trair Kowalski, negando-lhe pagamento. É esse o motivo da perseguição que nos leva ao momento presente. Mal acaba a tourada, e antes que Kowalski se apresente, chega Curly e os seus homens. Kowalski intervém, matando os homens de Curly, e permitindo a Roman um duelo justo, no qual ele mata Curly. Resta a Kowalski entregar Roman às autoridades, para descobrir que também ele é procurado. Com ambos perante um pelotão de fuzilamento, a intervenção de Columba salva-os, e voltam a fugir. Roman para a revolução, Kowalski para tratar de si próprio.

Com um argumento complexo, que coloca os personagens de Franco Nero e de Tony Musante várias vezes no caminho um do outro, “Pistoleiro Profissional” é, antes de mais, um confronto de duas personalidades. Roman é um rebelde que, caoticamente, procura algo que passa por ser uma rebelião contra os poderes burgueses instituídos, e que se torna aos poucos num ideal revolucionário. Por seu lado, Kowalski é um típico mercenário, que vende os seus serviços à melhor oferta, mesmo que no final ganhe alguma simpatia por Roman. Há, por isso, uma certa semelhança entre estes dois personagens, e os protagonistas de “Corre Homem Corre” (Corri uomo corri, 1968) de Sergio Sollima, também eles sendo um mexicano que se alinha com a revolução (Tomas Millian) e um estrangeiro que, agindo por conta própria, simpatiza com o primeiro (Donald O’Brien).

Ao contrário do filme citado, em “Pistoleiro Profissional” não há uma tão forte componente humorística, embora, tal como naquele filme, o enredo passe por uma série de desencontros e reencontros, que colocam os dois protagonistas muitas vezes lado a lado, mesmo que numa relação tensa, onde os objectivos comuns são puramente circunstanciais. Esse mesmo enredo tem ainda como resultado a evolução da relação entre os dois, de uma perfeita desconfiança, a um respeito, para não dizer mesmo amizade, que se torna a mola de todo o filme. Por outro lado, e em contraste com o filme de Sollima, Corbucci, dando espaço ao seu lado mais violento, transforma muitas das sequências em festivais de rajadas de metralhadoras, que nos fazem ver os corpos cair às dezenas, em sequências longas. Ainda assim, há por várias vezes a necessidade de esconder essa violência, com muitas das mortes a ocorrerem fora de campo, especialmente as perpetradas pelo verdadeiro vilão, e sádico, Curly.

“Pistoleiro Profissional” é, por tudo isso, principalmente um filme de acção, terreno onde Corbucci se sente sempre à vontade. Esta ocorre no ambiente tenso de um saloon, em emboscadas em desfiladeiros, no ataque a uma cidade, num confronto de artilharia pesada, ou nos típicos duelos. Destaca-se aquele entre Palance e Musante, numa arena de praça de touros, com um terceiro personagem (Nero) como árbitro, lembrando demasiado “O Bom, o Mau e o Vilão” (Il buono, il brutto, il cativo, 1964) de Sergio Leone (note-se os planos em que só vemos os olhos de Franco Nero), também numa arena redonda.

O ritmo é sempre acelerado, o enredo sempre retorcido, e a música de Ennio Morricone, está aqui ao melhor nível, comparável à bonita fotografia, que faz pleno uso da beleza da paisagem, e inova de certo modo na estrutura, tanto pelo flashback que nos conduz ao citado duelo, como com esse «duelo final» (entre Musante e Palance) a surgir bem antes do fim, para deixar a incerteza de como evoluirá a relação entre os personagens de Musante e Nero.

Outros momentos subversivos da história surgem da afirmação de Roman de que os seus revolucionários são doze, como os apóstolos, ou ainda no ataque a uma cidade que começa com os revolucionários mascarados como figuras de uma procissão religiosa, onde a própria personagem de Giovanna Ralli se veste de Virgem Maria.

Por curiosidade, note-se que Jack Palance voltaria a usar o nome Curly no filme “A Vida, o Amor… e as Vacas” (City Slickers, 1991), que lhe daria um Oscar já no final da sua carreira.

Tony Musante em "Pistoleiro Profissional" (Il mercenario, 1968) de Sergio Corbucci

Produção:

Título original: Il mercenario [Título inglês: The Mercenary]; Produção: P.E.A. – Produzioni Europee Associate – Rome / Produzioni Associate Delphos S.p.A. – Rome / Profilms 21; País: Itália / Espanha / EUA; Ano: 1968; Duração: 106 minutos; Distribuição: Produzioni Europee Associati (PEA) (Itália), United Artists; Estreia: 20 de Abril de 1968 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Corbucci; Produção: Alberto Grimaldi; Produtor Associado: Francesco Merli; Argumento: Luciano Vicenzoni, Sergio Spina, Adriano Bolzoni, Sergio Corbucci; História: Franco Solinas, Giorgio Arlorio; Música: Ennio Morricone, Bruno Nicolai; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Alejandro Ulloa [filmado em Techniscope, cor por Technicolor]; Montagem: Enzo Ocone, Eugenio Alabiso; Design de Produção: Piero Filippone; Direcção Artística: Luis Vázquez; Cenários: Hermanos Vázquez; Figurinos: Jürgen Henze; Caracterização: Raul Ranieri, Alejandro Millón; Efeitos Especiais: Manuel Baquero, Celeste Battistelli; Direcção de Produção: Francesco Merli, Manuel Castedo.

Elenco:

Franco Nero (Sergei Kowalski, O Polaco), Tony Musante (Paco Roman), Jack Palance (Ricciolo / Curly), Giovanna Ralli (Columba), Eduardo Fajardo (Alfonso García), Franco Giacobini (Pepote), Lorenzo Robledo (Militar), Franco Ressel (Studs), Álvaro de Luna (Ramón), Raf Baldassarre (Mateo), Joe Kamel (Sebastian), José Riesgo (Irmão de Garcia), Vicente Roca (Elias Garcia), José Canalejas (Lerkin), Guillermo Méndez (Capitão), Enrique Navarro (Notário), Simón Arriaga (Simón), Ugo Adinolfi, José I. Zaldua (Estalajadeiro), Francisco Nieto (Antonio), A. Jiménez Castellanos, Tito García (Primo de Garcia).

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