Etiquetas

, , , , , , , ,

Il grande silenzioDurante a «Great Blizzard of 1899», as péssimas condições climatéricas causam devastação, e levam alguns homens a roubar para comer. A mão implacável da lei considera-os criminosos e contrata caçadores de prémios para os matar. Estes são liderados pelo sádico Loco (Klaus Kinski), a soldo do banqueiro Henry Pollicut (Luigi Pistilli), que usa a pobreza dos outros em benefício próprio. Apiedando-se do sofrimento do povo, chega Silêncio (Jean-Louis Trintignant), um pistoleiro mudo, exímio, que surge quase como um fantasma, com contas a ajustar com o passado.

Análise:

Continuando na sua senda de westerns violentos, de heróis trágicos, e histórias ácidas, com um piscar de olhos a alegorias políticas, Sergio Corbucci escreveu e realizou em 1968 “O Grande Silêncio”. Tratava-se de mais uma co-produção internacional, com estrelas de outros países, nomeadamente o francês Jean-Louis Trintignant e o alemão Klaus Kinski, numa forma de conseguir alargar o mercado do seu filme. O filme foi rodado nos Dolomitas italianos, ao contrário das habituais planícies espanholas, por a acção decorrer na neve.

Como pano de fundo temos o chamado «Great Blizzard of 1899», uma espécie de mini-glaciar que gelou grande parte da América do Norte, levando temperaturas extremamente negativas a lugares onde tal nunca se registara (por exemplo temperaturas de cerca de 20 graus Celsius negativos em partes do Texas e da Flórida). É nesse contexto que vamos descobrir um bando de foras-da-lei, exilados por roubarem para comer, numa terra que não lhes dá outras oportunidades, e condenados a viver em condições lastimosas. Perante o gelo e a privação, um deles, abandona o abrigo para voltar a casa e estar com a esposa, Pauline (Vonetta McGee), mas é descoberto e morto pelo grupo de caçadores de prémios liderado pelo sádico Loco (Klaus Kinski). Este trabalha a soldo do banqueiro Henry Pollicut (Luigi Pistilli), que usa a pobreza do povo em benefício próprio. Anos antes, fora ele o responsável pela morte da família do jovem a quem ele mandou cortar as cordas vocais, para que não contasse o que viu. Este é hoje o pistoleiro mudo conhecido como Silêncio (Jean-Louis Trintignant), uma espécie de fantasma, de pontaria infalível, que defende os exilados, e procura o confronto com assassinos contratados, provocando-os para que sejam sempre eles a disparar primeiro.

A chegada do novo xerife Gideon Burnett (Frank Wolff) é uma oportunidade de perdão, e depois de a viúva Pauline contratar Silêncio, e este provocar os homens de Loco, o xerife não tem alternativa senão prender Loco. Só que é tudo uma cilada. Loco mata o xerife, enquanto Pollicutt tortura Silêncio em casa de Pauline. O confronto final dá-se na cidade, com os foras-da-lei, atraídos pela mensagem do xerife, para serem esperados pelos homens de Loco. Em troca Loco pede um duelo final com Silêncio, mas este é primeiro mutilado e depois assassinado pelos caçadores de prémios, que, sob as ordens de Loco, acabam por chacinar todos os exilados, incluindo Pauline.

A primeira coisa que salta à vista de quem descobre pela primeira vez “O Grande Silêncio”, é que é um western passado na neve. Com essa mudança simples, Corbucci, não só usava a paisagem como sinal exterior de um mundo frio, isolado e inóspito do ponto de vista humano, como obrigava a repensarmos qualquer cliché, dizendo-nos que tudo podia afinal ser diferente do que esperávamos. O mesmo faria Sydney Pollack mais tarde, em “As Brancas Montanhas da Morte” (Jeremiah Johnson, 1972), um western também revisionista, com Robert Redford.

Esse frio é o mote de uma história trágica, plena de violência e de um sadismo enlouquecido, que justifica o nome do personagem de Klaus Kinski. Dizendo-se inspirado pelas mortes de Ernesto “Che” Guevara e Malcolm X, Corbucci apresenta-nos nominais foras-da-lei que são vítimas, e agentes da autoridade que são bárbaros assassinos, a soldo de um poder económico sem escrúpulos. Pelo meio movimenta-se o herói trágico, fruto de violência (o assassinato dos pais), moldado em tragédia (a mutilação que o tornou mudo), e condenado a sofrer em nome da justiça. Era a habitual tendência de Corbucci para massacrar violentamente os seus heróis, como fizera já antes com o famoso Django.

Com temas simples, a justiça e a vingança, aqui com contornos de manifesto político, Corbucci conta uma história que é quase lenda (e note-se de novo o efeito da paisagem no definir de um mundo quase irreal), e onde os feitos heróicos são simplesmente o martírio que redime, e consciencializa a nação. Nela os personagens são feios (notável a interpretação de Kinski em mais um vilão inesquecível), sujos e maus, num grotesco que Corbucci partilha com Leone, e onde a música de Morricone ajuda a trazer o travo conhecido de um velho Oeste amargo, de temas bem mais existenciais e demandas das quais não reza a história, como habitual no Spaghetti. É um Oeste triste, e (apesar da alvura da neve) negro, onde o nominal silêncio é também o da paisagem invernosa, quanto o da morte que por ela espreita, ou mesmo o da cumplicidade de quem deixava que tais tragédias fossem acontecendo.

Apesar das conhecidas limitações da produção (a neve na cidade foi criada em estúdio com espuma de barbear, num efeito muito pouco convincente), Corbucci surpreende pela atmosfera (do negrume dos interiores aos planos de cortar o fôlego na aridez gelada dos exteriores) e pela total incerteza até ao final, mostrando que não estava disposto a comprometer-se a troco de um final feliz.

Como habitualmente, o filme surgiu em várias versões, com dobragens em estúdio em diferente línguas, por diferentes actores. Tal não evitou que a distribuição norte-americana ficasse comprometida, quando David F. Zanuck voltou atrás nas intenções da Fox, por se sentir revoltado com o filme. Não obstante, “O Grande Silêncio” ganharia rapidamente o estatuto de culto, como uma das mais originais e arrojadas criações de Sergio Corbucci.

Jean-Louis Trintignant em "O Grande Silêncio" (Il grande silenzio, 1968) de Sergio Corbucci

Produção:

Título original: Il grande silenzio [Título inglês: The Great Silence]; Produção: Adelphia Compagnia Cinematografica / Les Films Corona; País: Itália / França; Ano: 1968; Duração: 101 minutos; Distribuição: 20th Century Fox; Estreia: 7 de Dezembro de 1968 (Itália), 24 de Setembro de 1970 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Corbucci; Produção: Robert Dorfmann [não creditado], Attilio Riccio [não creditado]; História: Sergio Corbucci; Argumento: Vittoriano Petrilli, Mario Amendola, Bruno Corbucci, Sergio Corbucci; Diálogos da versão inglesa: John Davis Hart, Lewis E. Ciannelli; Música: Ennio Morricone; Direcção de Orquestra: Bruno Nicolai; Fotografia: Silvano Ippoliti [filmado em Wide Screen, cor por Eastmancolor]; Direcção Artística: Riccardo Domenici; Figurinos: Enrico Job; Caracterização: Lamberto Marini; Efeitos Especiais: Eros Bacciucchi; Direcção de Produção: Giovanni A. Giurgola.

Elenco:

Jean-Louis Trintignant (Gordon / Silêncio), Klaus Kinski (Tigrero / Loco), Vonetta McGee (Pauline Middleton), Frank Wolff (Xerife Gideon Burnett), Luigi Pistilli (Henry Pollicut), Mario Brega (Martin), Carlo D’Angelo (Governador de Utah), Marisa Merlini (Regina), Maria Mizar (Rapariga Loura do Saloon), Marisa Sally (Rapariga Morena do Saloon), Raf Baldassarre (Sanchez), Spartaco Conversi (Walter), Remo De Angelis (Xerife Falso no Flashback), Mirella Pamphili (Rapariga Ruiva do Saloon no Flashback).

Anúncios