Etiquetas

, , , , , , , , , , ,

Faccia a facciaO professor de História Brad Fletcher (Gian Maria Volontè) tem de deixar o ensino, por motivos de saúde, para ir viver no Oeste. Aí acaba raptado por Beauregard Bennet (Tomas Milian), um bandido em fuga que procura reconstituir o seu antigo bando. Com Bennet, Fletchter vai aprender uma nova forma de vida, baseada na acção e uso da força. Quando o bando é traído por um dos seus, o espião da Pinkerton Charley Siringo (William Berger), Bennet é preso, e sobra para Fletcher comandar o bando, agora unindo a violência a uma inteligência metódica e ainda mais cruel.

Análise:

Com o seu segundo western, Sergio Sollima procurou inovar o género, num filme que se distancia tanto da operática obra de Sergio Leone como dos viscerais e sangrentos filmes de Sergio Corbucci. A ideia foi construir um western que fosse ao mesmo tempo uma alegoria sobre as lutas de poder crítica aos pensamentos totalitaristas na sociedade moderna. Com um argumento elaborado com o especialista Sergio Donati, a música do inevitável Ennio Morricone e o design do habitual Carlo Simi, Sollima contou com um dos mais conhecidos rostos do western italiano, Gian Maria Volontè, ao lado do cubano Tomas Milian, que já protagonizara o seu anterior filme “O Grande Pistoleiro” (La resa dei conti, 1966).

“Cara a Cara”, antes de ser um esperado duelo de dois pistoleiros, é o confronto de dois mundos, o da civilização, educada, com refinamento e objectivos elevados, e o da barbárie, bruto, violento e de instintos primários. O primeiro é representado pelo professor de história Brad Fletcher (Volontè), o qual, em virtude da sua doença (que parece provir, na realidade, da sua apatia e pouca ambição) tem de deixar as aulas e procurar descansar no campo. Aí, Fletcher é vítima de um rapto, da parte do bandido Beauregard Bennet (Milian), que simboliza o tal segundo mundo, o dos instintos violentos.

Bennet escapa à prisão, arrastando um revoltado Fletcher, e vai-se esconder na montanha. A princípio incomodado, Fletcher vai-se deixando ficar por perto de Bennet, que reconstrói o bando, e planeia vários golpes. A popularidade de Bennet junto dos seus, e o descoberto poder conferido pelo disparar de uma arma, vão transformar Fletcher, que vai unir a sua crescente aprendizagem de armas, com a inteligência em delinear novos golpes.

Com o que Bennet e Fletcher não contam é que, entre eles, Charley Siringo (William Berger) é um agente da Pinkerton, que provoca o logro de uma assalto e a prisão de Bennet. Sabendo que o bando está sob perseguição, Fletcher ordena a fuga para o deserto, pois sob o comando do seu ex-elemento Zachary Shawn (Aldo Sambrell) reúne-se um enorme número de bandidos e caçadores de cabeças, que massacram tudo por onde passam. Quando Bennet e Fletcher ficam para trás para proteger a fuga dos seus, será o próprio Siringo a intervir, conseguindo conseguindo dissuadir Shawn a deixá-lo prender Bennet e Fletcher como manda a lei. Mas se Bennet aceita a prisão, por estar cansado de uma vida de fugas, Fletcher recusa, pelo que Bennet o mata, para salvar Siringo, que reconhecendo a nobreza do bandido, lhe dá a liberdade.

Assim, mais que um simples western, por natureza uma história de fronteiras longínquas onde a lei ainda não se estabeleceu, “Cara a Cara” tem o pejo de fazer pensar. Sollima dá-nos um confronto de duas formas de estar. Logo no início vemos a intelectual, do professor Fletcher, derrotado por sentir que o mundo prefere as armas ao conhecimento. Note-se como logo depois, a empregada lhe fala do sexo que tem com o seu amante, como que a comprovar que Fletcher, doente e preferindo viver para os livros, não é um homem completo. Esta barreira acentua-se no rapto pelo violento (e ademais já aprisionado pelos seus crimes) Bennet, figura diametralmente oposta da de Fletcher.

Porém tudo muda. Fletcher deixa-se fascinar pelas armas, sente ódio àqueles que ditam a lei, que ele agora acha desumana, e no seu orgulho sente-se superior a todos, por poder aliar intelecto à força bruta. Num ápice (quando Bennet não está, por ter sido preso), Fletcher torna-se um ditador. Onde Bennet fora bruto por instinto, Fletcher é-o por deliberação. A sua violência é calculada em busca de um bem maior, objectivos grandiosos que o tornam um visionário meio louco aos olhos dos seus.

Tudo irá evoluir em desacordo com os planos do bando, graças à presença da Pinkerton (uma agência privada, famosa por dar caça a bandidos perigosos). E aí, mesmo do lado da lei voltamos a ver diferenças. Siringo é o homem bom, moral, que não quer um massacre. Tal não impede que as autoridades dêem carta branca a Shawn, um assassino. É a velha teoria de que a diferença entre justiceiros e terroristas está apenas na interpretação de quem os contrata, com o grupo de Shawn a abusar do seu poder, roubando e matando por onde passa, em nome da caça ao homem, como se todo o crime se justificasse desde que feito em nome de um bem maior.

O final feliz acontece quando Siringo, mesmo já ferido, convence Shawn a recuar. Temos então a exposição das diferenças entre os dois protagonistas. Bennet quer entregar-se, pois cansou-se da vida que tinha, e reconhece a nobreza de Siringo. Já Fletcher, embriagado pelo seu novo poder, quer matar o seu captor. O impasse resolve-se entre Bennet e Fletcher mostrando-nos que afinal, a diferença não era entre civilização e barbárie, nem entre racionalidade e instintos selvagens. A verdadeira diferença foi sempre entre nobreza de alma e princípios morais, que Bennet descobriu ter, e a sede e ilusão de poder a todo o custo, para os quais Fletcher foi evoluindo.

Com tanto para contar-nos, e embora nalguns momentos e diálogos se veja alguma ingenuidade narrativa, Sergio Sollima consegue um filme de excepção, onde trama, ideias e suspense de aventura surgem em equilíbrio. Filmado, como sempre, na Andaluzia, “Cara a Cara” faz ainda uso de uma grande diversidade de cenários naturais (savana, deserto, montanha, floresta), num ritmo sempre dinâmico, cativante, e servido por personagens fortes e emotivos. No final, fica o entretenimento, a mística do velho Oeste (aqui filmado em ângulos baixos e num ecrã muito largo), mas também a eterna questão sobre a natureza humana e os factores que levam um homem a agir bem ou mal, num dualismo que aqui se nos apresenta em tons de cinzento, difíceis de catalogar.

Curiosidade é a presença da então muito jovem Carole André, futura diva de Sollima na famosa série “Sandokan: O Tigre da Malásia” (1976).

Gian Maria Volontè e Tomas Milian em "Cara a Cara" (Faccia a faccia, 1967) de Sergio Sollima

Produção:

Título original: Faccia a faccia [Título ingles: Face to Face]; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA) / Arturo González Producciones Cinematográficas; País: Espanha/Itália; Ano: 1967; Duração: 107 minutos; Distribuição: ; Estreia: 24 de Novembro de 1967 (Itália), 28 de Novembro de 1968 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Sollima; Produção: Alberto Grimaldi; Produtor Associado: ; Argumento: Sergio Donati, Sergio Sollima; História: Sergio Sollima; Música: Ennio Morricone; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Rafael Pacheco [filmado em Techniscope, cor por Technicolor]; Montagem: Eugenio Alabiso; Design de Produção: Carlo Simi; Figurinos: Carlo Simi, Franco Antonelli; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Eros Bacciucchi; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Thomas Sagone.

Elenco:

Gian Maria Volontè (Professor Brad Fletcher), Tomas Milian (Solomon ‘Beauregard’ Bennet), William Berger (Charley ‘Chas’ A. Siringo), Jolanda Modio (Maria), Gianni Rizzo (Williams), Carole André (Cattle Annie), Ángel del Pozo (Maximilian de Winton), Aldo Sambrell (Zachary Shawn), Nello Pazzafini (Vance), José Torres (Aaron Chase), Linda Veras (Cathy, Amante de Fletcher), Antonio Casas (Cidadão em Puerto del Fuego), Frank Braña (Jason), Guy Heron (Xerife de Winton Estate), Rossella D’Aquino (Sally, Empregada de Hotel), Giovanni Ivan Scratuglia (Pistoleiro de Taylor), Lidia Alfonsi (Belle de Winton).

Anúncios