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Il buono, il brutto, il, cattivoBlondie (Clint Eastwood) e Tuco (Eli Wallach) são dois criminosos que acordam ganhar dinheiro como um esquema arriscado. Como o segundo tem a cabeça a prémio em várias povoações, o primeiro finge entregá-lo para receber a recompensa, para depois o salvar. Só que um dia, após a parceria ser desfeita entre traições e desconfianças, o par depara com o soldado Bill Carson (Antonio Casale) que ao morrer confessa ter escondido ouro roubado ao exército norte-americano. Sem que eles saibam, em simultâneo, o bandido conhecido Angel Eyes (Lee Van Cleef), numa das execuções que lhe foram encomendadas, descobre sobre o ouro de Bill Carson. Em buscas diferentes, Angel Eyes vai-se cruzar com Blondie e Tuco, cada qual com parte da informação, nenhum com confiança nos outros dois, e todos com ambição desmesurada pelo ouro escondido.

Análise:

Com um estilo, linguagem, tipo de herói e iconografia bem desenvolvidos nos seus filmes anteriores, Sergio Leone lançou-se naquele que se tornaria o seu filme mais citado e mais facilmente reconhecível, “O Bom, o Mau e o Vilão”. Mais uma vez, Leone contava com a presença do seu protagonista, Clint Eastwood, secundado por Lee Van Cleef, que já participara em “Por Mais Alguns Dólares” (Per qualche dollaro in più, 1965), aqui com a novidade da participação do também norte-americano Eli Wallach. As filmagens decorreram em Espanha, com a participação de 1500 soldados espanhóis como figurantes, e a carismática cena de Sad Hill Cemetery filmada na província de Burgos. Mais uma vez o elenco incluiu actores de vários países, cada qual falando na sua língua, para posterior dobragem em estúdio.

Era mais uma história de um certo velho Oeste, com a perspectiva sui generis de Leone, assente nos chavões por ele criados, de uma terra desolada, de anti-heróis solitários, sem códigos morais, onde impera a violência e um grotesco muito próprio. A repetição dessa iconografia e herói leva a que o filme seja chamado o terceiro da Trilogia dos Dólares, embora em todos o personagem de Eastwood assuma nomes diferentes (Joe, Monco, Blondie), e não haja relação entre eventos ou personagens de cada um deles, muitas vezes interpretados pelos mesmos actores.

Passado durante a Guerra Civil norte-americana, mais concretamente durante a Campanha do Novo México, em 1862 (período que Leone estudou com detalhe e tentou reproduzir fielmente), “O Bom, o Mau e o Vilão” conta-nos a história de três anti-heróis, habituados a viver à margem das regras, de delito em delito, sobrevivendo graças a condutas muito próprias. Eles são conhecidos como Blondie (Clint Eastwood), um pacato e impassível pistoleiro, que se alia temporariamente a Tuco (Eli Wallach), um bandido com cabeça a prémio em diversos locais. Local após local, Blondie finge entregar Tuco, para receber a recompensa, salvando-o depois, no momento do enforcamento. Por seu lado, outro bandido, o assassino profissional conhecido por Angel Eyes (Lee Van Cleef), ao ser pago para encontrar e matar um certo Jackson, descobre que ele agora se disfarça sob o nome de Bill Carson, e escondeu uma enorme fortuna em ouro roubado.

Depois de uma série de altercações, que deixam Blondie às portas da morte, este e Tuco vão deparar com um comboio de soldados, mortos, um dos quais, se chama Bill Carson (Antonio Casale), e lhes promete o seu ouro em troca de salvação. Como é Blondie a receber a informação, Tuco tem de lhe salvar a vida, e assumindo a identidade dos soldados, vão ambos parar num campo de prisioneiros, onde Angel Eyes procura Bill Carson. Sob coacção, Tuco e Blondie seguem com Angel Eyes até ao cemitério onde os três homens vão ter a confrontação final, não sem antes passarem por mais uma sangrenta batalha da Guerra Civil Americana.

Com uma história épica, e o elevar a arte da relação entre os seus personagens (Blondie, Tuco e Angel Eyes são inesquecíveis), “O Bom, o Mau e o Vilão” introduz ainda o humor no universo do spaghetti de Leone. Nesse campo é Eli Wallach quem brilha, numa interpretação inspirada e sempre desconcertante, durante a qual terá mesmo improvisado muitas das suas reacções e falas (como toda a sequência na loja de pistolas), para além de ter estado várias vezes à beira de acidentes fatais. Mesmo sendo uma segunda ou terceira escolha (Charles Bronson foi contactado para interpretar tanto Tuco como Angel Eyes), a sua presença como Calvera em “Os Sete Magníficos” (The Magnificent Seven, 1960) de John Sturges terá sido factor determinante para Leone. Do mesmo modo Henry Fonda, Lee Marvin e Enrico Maria Salerno foram considerados em vão para o papel de Angel Eyes, que dificilmente poderemos imaginar sem ser na interpretação de Clint Eastwood.

Outra novidade, se bem que esta já prevista pelo evoluir dos filmes anteriores de Leone, é o uso do tempo. Sergio Leone consegue que as cenas de acção sejam, ao mesmo tempo, cenas de uma impavidez enervante, com repetição de planos, uso dos close-ups, num esticar dramático que levava o seu filme para aquilo que se começou a definir como um dramatismo operático, como tão bem seria conseguido no seu filme seguinte, “Aconteceu no Oeste” (Once Upon a Time in the West, 1968). Exemplo é a tantas vezes citada sequência final, o «truelo» entre os três protagonistas, que decorre sem palavras durante quase cinco minutos, e que é o culminar perfeito de tantas outras sequências do filme (basta ver como os primeiros dez minutos e meio não têm palavras).

Importante, na definição do espaço, sentido temporal, e desolação, é a música de Ennio Morricone, numa das suas mais famosas bandas sonoras, aqui incorporando sons animais, e sua imitação através de instrumentos. O resultado é uma verdadeira ópera emocional, plena de acção, humor e tensão, assente nas interpretações dos seus protagonistas, numa melancolia típica de Sergio Leone, e numa história empolgante, onde não falta o habitual cinismo e propensão para a violência. Essa coesão espacial, como um personagem de direito próprio, é atestada no facto de os mesmos cenários serem usados para descrever cidades diferentes. É o caso da cidade onde o acontece o segundo enforcamento de Tuco, que é a mesma onde Maria é interrogada por Angel Eyes, a da loja das pistolas e da emboscada a Blondie pelo bando de Tuco. No fundo era o mesmo cenário criado por Carlo Simi para “Por Mais Alguns Dólares”. Conhecida como “El Paso”, o cenário é hoje um parque temático chamado “Mini Hollywood”. Esse elogio da iconografia já conhecida levava a que Clint Eastwood, a meio do filme, viesse a vestir um poncho mexicano, que era exactamente do mesmo dos outros filmes da trilogia.

“O Bom, o Mau e o Vilão” tornou-se desde logo um sucesso, mesmo no mercado norte-americano, onde a sua crueza, que desobedecia ao antiquado código de Hays foi mais um prego no seu caixão, firmando para sempre o nome de Clint Eastwood na galeria de heróis norte-americanos.

Inicialmente intitulado “The Magnificent Rogues” e “The Two Magnificent Tramps”, o filme passou por várias versões, da original italiana de 161 minutos, a uma versão editada de 142 minutos, até à versão restaurada em 2003, de 179 minutos, contendo cenas anteriormente cortadas. Estas necessitaram de novas falas de Clint Eastwood e Eli Wallach, ao passo que o já falecido Lee Van Cleef foi nelas dobrado por Simon Prescott.

Com um estatuto que não pára de crescer, constantes citações em westerns modernos, e o contínuo elogio de muitos realizadores contemporâneos, “O Bom, o Mau e o Vilão”, pelo seu dramatismo, valores de produção, opções estéticas, ritmo operático e história intensa, com um humor fino e personagens carismáticos, é uma referência incontornável e, para muitos, o melhor de todos os western spaghetti.

Eli Wallach e Clint Eastwood em "O Bom, o Mau e o Vilão" (Il buono, il brutto, il, cattivo, 1966) de Sergio Leone

Produção:

Título original: Il buono, il brutto, il cativo [Título inglês: The Good, the Bad and the Ugly]; Produção: Produzioni Europee Associati (PEA) / Arturo González Producciones Cinematográficas, S.A / Constantin Film Produktion / United Artists [não creditada]; País: Itália / França / Espanha / EUA; Ano: 1966; Duração: 178 minutos; Distribuição: Produzioni Europee Associati (PEA) (Itália), United Artists; Estreia: 23 de Dezembro de 1966 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Leone; Produção: Alberto Grimaldi; Argumento: Sergio Leone, Agenore Incrocci, Furio Scarpelli, Luciano Vincenzoni; Diálogos em Inglês: Mickey Knox; História: Sergio Leone, Luciano Vincenzoni; Música: Ennio Morricone; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Tonino Delli Colli [filmado em Techniscope, cor por Technicolor]; Montagem: Eugenio Alabiso, Nino Baragli; Design de Produção: Carlo Simi; Figurinos: Carlo Simi; Caracterização: Rino Carboni; Efeitos Especiais: Eros Bacciucchi; Direcção de Produção: Fernando Cinquini, José Antonio Pérez Giner, Gray Frederickson [não creditado].

Elenco:

Eli Wallach (Tuco Ramirez), Clint Eastwood (Blondie), Lee Van Cleef (Sentenza / Angel Eyes), Aldo Giuffrè (Capitão Unionista Alcoolizado), Luigi Pistilli (Padre Pablo Ramirez), Rada Rassimov (Maria), Enzo Petito (Lojista), Claudio Scarchilli (Peão Mexicano), John Bartha (Sheriff), Livio Lorenzon (Baker), Antonio Casale (Jackson / Bill Carson), Sandro Scarchilli (Peão Mexicano), Benito Stefanelli (Elemento do bando de Angel Eyes), Angelo Novi (Monk), Antonio Casas (Stevens), Aldo Sambrell (Elemento do bando de Angel Eyes), Al Mulock (Caçador de Prémios Com Um Braço), Sergio Mendizábal (Caçador de Prémios Louro), Antonio Molino Rojo [como Molino Rocho] (Capitão Harper), Lorenzo Robledo (Clem), Mario Brega (Cabo Wallace).

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