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DjangoCaminhando solitariamente, arrastando um caixão, o pistoleiro Django (Franco Nero) depara com uma cena de tortura, na qual uma mulher, Maria (Loredana Nusciak), é vítima de dois bandos sucessivos, primeiro bandidos mexicanos que a chicoteiam, os quais são, depois, mortos pelos homens do Major Jackson (Eduardo Fajardo) que de seguida a querem crucificar. Django intervém salvando-a, e levando-a para a cidade mais próxima. Aí descobre que também a cidade é vítima das duas duas facções, os primeiros rebeldes da revolução mexicana, os segundos racistas ex-confederados, todos com contas a ajustar com Maria.

Análise:

Em 1966, Sergio Corbucci era já um autor com obra feita. Tendo começado como realizador e argumentista, na década anterior, tanto em comédias (incluindo algumas do célebre Totó), como dramas e no peplum, Corbucci tinha já cerca de duas dezenas de filmes creditados, quando realizou aquele que seria o seu terceiro western, e um dos seus mais famosos filmes de sempre.

Filmando nos estúdios de Roma, e com exteriores nos arredores de Madrid, a partir de uma história sua e do seu irmão Bruno, Sergio Corbucci, tal como Sergio Leone fizera dois anos antes em “Por um Punhado de Dólares” (Per un pugno di dollari, 1964), baseia-se na história Yojimbo, herói do filme homónimo de Akira Kurosawa, para construir o seu filme. Não tão directamente como Leone o fizera, “Django” volta a pegar no tema do herói solitário de origem dúbia, que chega a uma terra selvagem, onde dois bandos rivais mantêm tudo sob um regime de terror, para interferir destruindo-os. Em “Django” esse propósito não é tão explícito, como nos dois filmes citados, com o protagonista a ter um objectivo ulterior, enriquecer com ouro roubado, sendo a destruição dos dois bandos um meio para atingir esse fim.

Em “Django” temos ainda um contexto político, com o personagem de Franco Nero a interferir numa luta que é também racial. De um lado está o sul dos Estados Unidos, perdedor da Guerra Civil, organizando-se em bandos racistas que, sob comando do Major Jackson (Eduardo Fajardo), disputam a fronteira e os povoados locais. Do outro as tropas rebeldes do General Hugo Rodriguez (José Bódalo), lutador apaixonado da revolução. Pelo meio está Maria (Loredana Nusciak), a prostituta mestiça, que por isso representa para ambos os lados um fruto proibido, sinónimo de pecado e exotismo. Pelo meio ainda, está o ouro que todos vão disputar, e a violência de que todos usam e abusam, mesmo que sem necessidade.

É nesse contexto que se move Django, um anti-herói que começa por salvar Maria, para logo a repudiar, sem interesse que não seja ouro e vingança de contas antigas a ajustar com Jackson. Com a classe que é apanágio dos heróis de western, e a arma secreta que é uma metralhadora (sinal da revolução, que será mais tecnológica que social ou política), Django vai dizimar os ex-confederados, para usar a ajuda dos mexicanos, que ao traí-lo verão também a sua fúria.

Chega depois a imagem de marca de Corbucci, a tortura do seu herói. Em “Django” ela traduz-se na tortura das mãos do protagonista, que fica sem as poder usar. Tem ainda tempo de ser salvo por Maria, vê-la morrer, e por fim matar o seu inimigo quando já ninguém o espera.

Com uma direcção artística que anda perto da de Sergio Leone (constante sujidade, rostos a roçar o grotesco, violência desmedida, paisagens poeirentas e desertas, de onde não parece poder chegar nenhuma redenção, e claro, uma música maior que tudo), Corbucci distingue-se pelo ritmo (sempre mais rápido), cores vivas, e pelos enquadramentos, muitas vezes fazendo uso da handicam, principalmente nos tiroteios, em planos mais fechados.

Com um protagonista que, de certo modo, pode lembrar o homem sem nome de Clint Eastwood, dos filmes de Leone (frio, impassível, distante da emoção dos outros), “Django” destaca-se por um maior uso do macabro (o caixão arrastado, o desfazer das mãos do herói, a morte de Maria, a sua tortura, o corte de uma orelha, o enorme número de mortes), num sadismo que seria uma imagem de marca do realizador. Tal fez com que “Django” estivesse banido em muitos países até recentemente.

Recebendo o papel principal, depois de falhada a contratação de Mark Damon, Franco Nero seria o Django ideal, cunhando uma imagem que o perseguiria por toda a carreira. O sucesso do filme e do personagem levou, aliás, a que surgissem outros filmes com “Django” no título. Estas sequelas não oficiais chegaram a várias dezenas, onde se tentava recriar um personagem ao estilo de Django, mesmo que os filmes nada tivessem a ver com a história original, Sergio Corbucci ou Franco Nero. Por vezes bastava que Franco Nero surgisse num filme de western para que nalgum país o título passasse a ter a palavra “Django”. Por tudo isto, e sobretudo pelo carisma da realização de Sergio Corbucci, “Django” tornou-se um dos mais estimulantes western spaghetti, e padrão a bater pelos filmes que se lhe seguiram.

O filme teria um única sequela oficial, protagonizada também por Franco Nero, chamada “Django Ataca de Novo” (Django 2 – Il grande retorno, 1987), realizada por Nello Rossati. Por sua vez, o filme de Corbucci foi inspiração para “Django Libertado” (Django Unchained, 2012) de Quentin Tarantino, repetindo o nome do protagonista, e contando com um cameo do próprio Franco Nero, mesmo que a história nada tenha a ver com a original.

Como curiosidade acrescente-se que Corbucci teve como assistente de realização em “Django” o futuro realizador Ruggero Deodato, e que o título é uma homenagem ao guitarrista lendário Django Reinhardt, o qual tinha uma mão deficiente.

Franco Nero em "Django" (1966) de Sergio Corbucci

Produção:

Título original: Django; Produção: B. R. C. Produzione Film-Rome / Tecisa-Madrid; País: Itália / Espanha; Ano: 1966; Duração: 92 minutos; Distribuição: Euro International Film (EIA) (Itália), Constantin Film (RFA), Franco Nero (EUA), Les Films Marbeuf (França), Standard Films (Bélgica), Toho-Towa (Japão), Vincit Films (Espanha); Estreia: 6 de Abril de 1966 (Itália), 5 de Agosto de 1968 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sergio Corbucci; Produção: Sergio Corbucci, Manolo Bolognini, Bruno Frascà [não creditado]; Argumento: Sergio Corbucci, Bruno Corbucci, Piero Vivarelli, Franco Rossetti, José Gutiérrez Maesso [não creditado]; Versão Inglesa: Geoffrey Copleston; História: Sergio Corbucci, Bruno Corbucci; Música: Luis Bacalov; Direcção de Orquestra (Tema Principal): Bruno Nicolai; Fotografia: Enzo Barboni [cor por Eastmancolor]; Montagem: Nino Baragli, Sergio Montanari; Design de Produção: Carlo Simi [como Giancarlo Simi]; Direcção Artística: Carlo Simi; Cenários: Francisco Canet; Figurinos: Marcella De Marchis, Carlo Simi [como Giancarlo Simi]; Caracterização: Mario Van Riel; Direcção de Produção: Bruno Frascá, Miguel Ángel Martín Proharán (Espanha).

Elenco:

Franco Nero (Django), José Bódalo (General Hugo Rodriguez), Loredana Nusciak (Maria), Ángel Álvarez (Nathaniel, o Barman), Gino Pernice [como Jimmy Douglas] (Irmão Jonathan), Simón Arriaga (Miguel), Giovanni Ivan Scratuglia (Membro do Klan), Remo De Angelis [como Erik Schippers] (Ricardo), Rafael Albaicín (Membro do Bando de Hugo), José Canalejas (Membro do Bando de Hugo), Eduardo Fajardo (Major Jackson).

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