Etiquetas

, , , , ,

Texto de Pedro Pereira
Co-autor do blogue “Por um Punhado de Euros

O inicio da década de sessenta trouxe uma mudança de padrões no cinema western. As paisagens que Ford vincara como sinónimo do género seriam drasticamente alteradas pelas ramblas andaluzas, onde as filmagens eram bastantes mais económicas. Ditou-se também a permuta do cowboy bonitinho, galante e bem-falante, pelo pistoleiro maltrapilho, carrancudo e de poucas conversas. A culpa de tudo isto atribuímo-la vulgarmente a um homem, Sergio Leone, realizador italiano que nos entregou em 1964 o clássico “Por um punhado de dólares”, adaptação de “Yojimbo”. Nascia aqui o western-spaghetti, designação assim encontrada para diferenciar este novo modelo europeu do clássico americano.

Este filme foi pioneiro por tudo aquilo que trouxe para o despoletar do subgénero, mas não foi o primeiro western a ser realizado em solo europeu, na verdade já se faziam westerns em solo europeu há alguns anos, ora via produções germânicas, que se focavam essencialmente em adaptações da obra de Karl May (filmadas na agora Croácia), ora via produções espanholas que copiavam a papel químico os princípios do western clássico. Porém, seria através da incursão de Leone que mudaria toda a indústria cinematográfica europeia.

O modelo adoptado foi quase sempre o da co-produção, com italianos e espanhóis no domínio das equipas técnicas e como maiores fornecedores do elenco, surgindo depois outros países como a França e a Alemanha, a funcionarem essencialmente como investidores, impondo aqui e ali a entrada de um ou outro actor da sua nacionalidade. O objectivo era vender o filme em tantos mercados quanto possível, destacando para o efeito o nome que mais interessasse ao respectivo mercado. Repescando-se depois actores norte-americanos de segunda linha para assumir o protagonismo. E os actores que americanos não fossem, mudava-se-lhes o nome para algo anglo-saxónico, de forma a criar a ilusão sobre os espectadores de que se tratavam de produções americanas.

O ritmo e o tom mudam nestas produções, regras e boas condutas são frequentemente desprezadas, e é o pistoleiro taciturno e impiedoso que sai como homem do jogo. Leone introduziu-nos o «homem sem nome» e em catadupa surgem um sem número de anti-heróis de valores dúbios: Django, Ringo, Sartana, Sabata, Garringo, Cjamango, Pecos, Amen, etc. Muitas dessas personagens teriam sequelas oficiais, mas muitas outras (a maioria) teriam continuações não-oficiais e sem qualquer ligação aos filmes originais. Balbúrdia à moda mediterrânea!

Em pouco mais do que uma década o cinema europeu comercial andaria às cavalitas destes filmes, e realizadores em inicio de carreira ou com poucos créditos teriam a oportunidade de assinar trabalho. Foram centos de filmes com qualidade variável, dedicar tempo a vê-los todos é um exercício que se recomenda apenas a gente de estômago forte, mas outros são simplesmente imperdíveis e há três Sergios que não vão querer esquecer: Leone, Sollima e Corbucci.

Textos adicionais
A lista de filmes

Anúncios