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Silence No Japão do século XVII terminou a tolerância religiosa que permitira a cristianização levada a cabo por missionários jesuítas portugueses no século anterior. Agora, com a notícia da apostasia do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson), os seus discípulos, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), incrédulos, decidem viajar com risco das próprias vidas, para descobrir o que acontecer ao seu antigo mentor. O que encontram é um reino onde os poucos cristãos vivem agora escondidos, com medo, perseguidos por um Inquisidor (Issei Ogata) determinado a erradicar, à força de tortura e e cruéis execuções, vestígios da religião cristã.

Análise:

Foram cerca de 25 anos aqueles que decorreram desde que Martin Scorsese iniciou o projecto “Silêncio”, até finalmente o concretizar em filme. E isso sente-se quando se vê o filme, que é uma obra densa, com muito para contar em termos de detalhes cinematográficos, como só pode acontecer num trabalho de tão longa gestação. A ideia era produzi-lo logo após “A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation of Christ, 1988), mas tal não foi possível, e o projecto foi sendo adiado, tendo entrado em pré-produção em 2009, e anunciado em 2011. Mas só em 2014 a produção arrancaria definitivamente.

O ponto de partida é o romance do escritor japonês cristão Shūsaku Endō, publicado em 1966, e que já antes fora adaptado ao cinema, em 1971, por Masahiro Shinoda. Nele conta-se a saga dos padres jesuítas portugueses do século XVII, Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver), que vão para o Japão para descobrir se é verdade que seu antigo mestre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) cometeu apostasia, isto é, renunciou à sua fé, e vive agora como japonês. Após a chegada dos cristãos ao Japão no século anterior, houve um período de implantação do Cristianismo, mas com mudanças políticas locais trazidas com o período Edo, e o xogunato de Tokugawa em Edo (actual Tóquio), o Cristianismo foi proscrito e os seus fiéis expulsos, ou aprisionados até lhe renunciarem. Muitos, no entanto (os Kakure Kirishitans – Cristãos Escondidos) resignaram-se a professar a fé cristã em segredo, sob o risco de serem descobertos e torturados. Com eles estaria o Padre Ferreira, que vemos na primeira sequência a testemunhar essas torturas.

Incapazes de acreditar na apostasia do seu mestre, os padres Rodrigues e Garupe seguem para o Japão, clandestinamente, guiados pelo dúbio Kichijiro (Yōsuke Kubozuka), que talvez seja cristão, talvez tenha renunciado à sua fé, talvez os venha a trair. Os dois jesuítas chegam a Tomogi, onde são recebidos por uma comunidade cristã secreta, que os vê como salvadores que poderão retomar os ritos que eles, então sem pastor, improvisam. Ouvindo notícias de outras comunidades assim, Rodrigues e Garupe separam-se, seguindo os rumores sobre o padre Ferreira. Em Gotō, Rodrigues testemunha a violência japonesa contra os cristãos, e é mais tarde traído por Kichijiro que, para se salvar, o entrega ao Inquisidor, o velho samurai Inoue (Issey Ogata), que leva os prisioneiros para Nagasaki.

Aí, Rodrigues é julgado por Inoue, e tem de testemunhar as torturas e sacrifícios dos outros cristãos, e mais tarde perceber que também Garupe e a sua comunidade foi morta ou torturada. Procurando a resposta na voz de Deus, sobre se deve ou não cumprir o teste do tribunal de pisar a imagem de Cristo, Rodrigues encontra finalmente o padre Ferreira, que confirmar ter deixado a fé cristã para viver em paz no Japão, sem causar o sofrimento daqueles que o seguiam. Rodrigues resigna-se a fazer o mesmo, renunciando a todas as práticas e iconografia cristã, adoptando modos japoneses, e casando com uma mulher japonesa (Asuka Kurosawa).

Um ano depois, Rodrigues e Ferreira trabalham na inspecção de mercadorias ocidentais, para detectar possíveis artefactos de inspiração religiosa, quando são abordados pelo mercador Dieter Albrecht (Béla Baptiste), a quem Rodrigues confirma não ser já cristão. Mas aquando da sua morte, muitos anos mais tarde, a esposa esconde na sua pira funerária, um pequeno crucifixo, que Rodrigues tinha esculpido em madeira.

Filmado inteiramente em Taiwan, “Silêncio” é tanto uma obra que transporta muito de quem é Scorsese e do que tem sido a sua carreira, como transporta muito da história do cinema. No lado scorsesiano há que começar por lembrar a sua ascendência católica, e o quanto isso sempre o influenciou, e aos seus temas. Vemo-lo logo em “Who’s that Knocking at My Door?” (1967), na relação do protagonista (Harvey Keitel) com a sua culpa. Vemo-lo de modo gráfico na crucificação do personagem de David Carradine em “Uma Mulher da Rua” (Boxcar Berta, 1972). Apercebemo-nos do tema da redenção no muito provocante “Táxi Driver” (Taxi Driver, 1976), e vemos a ressurreição ser tratada de modo estranhamente literal em “Por Um Fio” (Bringing Out the Dead, 1999). E pelo meio há, claro, A Última Tentação de Cristo” (The Last Temptation of Christ, 1988) e “Kundun” (1997), dois filmes onde a dimensão humana, o dever e a verdadeira motivação – de Cristo no primeiro, e do Dalai Lama no segundo – são questionados de um modo bastante intrusivo, e para muitos, controverso.

Numa entrevista, Martin Scorsese terá dito que, ao envelhecer, o tema do que está para além da nossa existência na Terra torna-se mais importante para si. Daí que voltem as questões, e “Silêncio” é um filme de questões, sejam as factuais (o que aconteceu e onde está Ferreira?), sejam as mais importantes, as questões interiores sobre o papel da fé. É nestas que o filme se concentra, na caminhada do padre Rodrigues, que funciona como nosso mediador num mundo inóspito, agressivo, de tortura cruel, e fundamentalismo extremo. Através de Rodrigues vemos o sofrimento daqueles que teimam em manter a fé cristã, e com ele somos interrogados sobre se esse sofrimento é legítimo, ou ele mesmo uma forma de orgulho condenável. E nesse caso, o que é mais importante para Deus, que Rodrigues morra pela sua fé, ou que a ela renuncie para salvar antes aqueles que estão a ser torturados. Ou seja, é o martírio o supremo altruísmo, ou apenas uma forma de orgulho pessoal de alguém que se quer comparar a Cristo? Estas são as perguntas que Rodrigues pede a Deus que lhe responda, e do qual não tem mais que o silêncio, ou imagens como a da pintura de El Greco que lhe surge como num sonho.

Também influenciado pelo mundo do século XXI, “Silêncio” traz-nos visões sobre os excessos do secularismo e do fundamentalismo, mesclados de agenda política. Tal é evidente na pessoa do Inquisidor, um personagem interessantíssimo, que testa a fé de Rodrigues, esgrimindo argumentos lógicos, e usando retorcidas armas psicológicas (das quais a última é mostrar-se o que aconteceu ao padre Ferreira). Astuto e provocador, o Inquisidor explica a Rodrigues que a fé cristã não tem lugar entre o povo japonês, já que este precisa de ser unido em torno de algo que o imperador possa usar politicamente. Além disso, e como Rodrigues testemunhara, os conceitos cristãos surgem sempre alterados pelos fiéis japoneses, que os convertem em algo que percebam, e reflicta melhor a sua cultura. Pode o Cristianismo ser mesmo exportado? Há alguma razão de ser para esse tipo de fé naquela sociedade?

Extremamente contemplativo, e muito filosófico, “Silêncio” traz-nos os temas abordados acima, através da câmara de Rodrigo Prieto que, como habitual em Scorsese, compõe cada plano e enquadramento como se de um quadro se tratasse. É como se, recordando o título, Scorsese deixasse de lado as palavras, concentrando-se no olhar. Não espanta que na pesquisa para o filme tenham sido consultadas pinturas da época (entre as quais pinturas jesuítas do Museu de São Roque*), e que, em muitas passagens da história (dir-se-ia do calvário) do padre Rodrigues, se consigam perceber influências das estações da Paixão de Cristo.

De um desolador nevoeiro inicial, a um progressivo uso da cor (nomeadamente dos tons castanhos escuros da pintura barroca tenebrista), “Silêncio” é um festim visual, onde se reconhecem as influências daqueles que Scorsese admira. As longas panorâmicas e travellings sobre um mundo entre o desespero e a iconografia religiosa, lembram imediatamente “Andrei Rublev” (Andrey Rublev, 1966) de Andrei Tarkovsky. O olhar quase místico de planos-sequência elaborados são um piscar de olho a Kenji Mizoguchi, tanto quando a força dos elementos (por exemplo a chuva copiosa) e o sacrifício pessoal nos trazem à memória Akira Kurosawa. Já o sofrimento espelhado nos rostos, em close-ups extremos nos fazem lembrar “A Paixão de Joana d’Arc” (La passion de Jeanne d’Arc, de 1928) de Carl Theodor Dreyer. Por fim, convém recordar o quanto o tema principal – a relação entre o homem e a sua fé – relembra o célebre «silêncio de Deus» tantas vezes explorado por Ingmar Bergman.

“Silêncio” é, assim, um filme difícil, lento, filosófico, contemplativo, onde Scorsese dá espaço à imagem e ao pensamento, numa construção de muitas camadas, a pedir visionamentos repetidos. O filme assenta ainda numa interpretação sólida de Andrew Garfield, bem acompanhado por Liam Neesom, Adam Driver e Issei Ogata, sem esquecer o papel determinante de Yōsuke Kubozuka, como o fiel que tantas vezes traiu a religião para se salvar, para logo procurar uma confissão (ou arrependimento), que nunca sabemos se é genuíno, ou apenas uma procura de defesa contra quem o possa julgar.

No final ficamos com o eterno questionamento da fé, onde, mais que numa preocupação sobre a existência divina, temos a interrogação sobre o nosso papel no modo de nos relacionarmos com o transcendente, bem como sobre a relevância da fé no nosso tempo. Mas por tudo o que nos dá, quer em termos abstractos, quer nos puramente estéticos, “Silêncio” é um monumento, e a prova de que Scorsese continua a ser um caso à parte no cinema de Hollywood, e em cada filme um paladino da história do cinema.

* Obrigado à Sofia Santos por esta informação.

Andrew Garfield e Shin'ya Tsukamoto em "Silêncio" (Silence, 2016) de Martin Scorsese

Produção:

Título original: Silence; Produção: Cappa Defina Productions / Emmett/Furla/Oasis Films (EFO Films) / Fábrica de Cine / SharpSword Films / Sikelia Productions / Verdi Productions / Waypoint Entertainment; Produtores Executivos: Brandt Andersen, Michael Barnes, Paul Breuls, Dale A. Brown, Wayne Marc Godfrey, Nicholas Kazan, Matthew J. Malek, Gianni Nunnari, Chad A. Verdi, Michelle Verdi, Tyler Zacharia, Cary Brown; Co-Produtoção Executiva: George Furla, Anthony Jabre, Ben Rodriguez; País: ; Ano: 2016; Duração: 161 minutos; Distribuição: Paramount Pictures (EUA); Estreia: 29 de Novembro de 2016 (Cidade do Vaticano), 13 de Dezembro de 2016 (EUA), 19 de Dezembro de 2017 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Vittorio Cecchi Gori, Barbara De Fina, Randall Emmett, David Lee, Gastón Pavlovich, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler; Co-Produção: David Webb; Produtores Associados: Augustin Coppel, Ruben Coppel, Brent Ryan Green, Arnaud Lannic, Christophe Lannic; Argumento: Jay Cocks, Martin Scorsese [a partir do livro homónimo de Shūsaku Endō]; Música: Kathryn Kluge, Kim Allen Kluge, Francesco Lupica (Música Adicional); Fotografia: Rodrigo Prieto; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design de Produção: Dante Ferretti; Direcção Artística: Wen-Ying Huang, Ding-Yang Weng, Michael Tsung-Ying Yang, Wang Zhi-Cheng; Cenários: Francesca Lo Schiavo; Figurinos: Dante Ferretti; Caracterização: Noriko Watanabe; Efeitos Especiais: R. Bruce Steinheimer; Direcção de Produção: Diane L. Sabatini.

Elenco:

Andrew Garfield (Padre Sebastião Rodrigues), Adam Driver (Padre Francisco Garupe), Liam Neeson (Padre Cristóvão Ferreira), Tadanobu Asano (Intérprete), Ciarán Hinds (Padre Valignano), Issei Ogata (Inquisidor Inoue), Shin’ya Tsukamoto (Mokichi), Yoshi Oida (Ichizo), Yōsuke Kubozuka (Kichijiro), Nana Komatsu (Mónica, Haru), Ryo Kase (João, Chokichi), Béla Baptiste (Dieter Albrecht), Asuka Kurosawa (Esposa de Rodrigues), Kaoru Endô (Uneme, Samurai de Unzen), Diego Calderón (Prisioneiro Frade Agostiniano #2), Rafael Kading (Prisioneiro Frade Agostiniano #1), Matthew Blake (Prisioneiro Frade Franciscano), Benoit Masse (Prisioneiro Frade Agostiniano #3), Tetsuya Igawa (Prisoner Japanese Jesuíta), Shi Liang (Sr. Chun, Homem de Negócios Chinês), Panta (Yohei, Aldeão de Tomogi #1), Takuya Matsunaga (Toukichi, Aldeão de Tomogi #2), Miho Harita (Tomi, Esposa de Ichizo), Hairi Katagiri (Tsune, Mulher de Tomogi), Masayuki Yamada (Kasuke, Marido em Tomogi), Michié (Mitsu, Esposa em Tomogi), Hiroko Isayama (Hiro, Mulher de Tomogi), Yutaka Mishima (Kuro, Homem de Gotō #1), Yasunari Takeshima (Haku, Homem de Gotō #2), Yuri Ishizaka (Tae, Irmã de Kichijiro), Ryo Sato (Hisa, Irmã de Kichijiro #2), Ruo Satō (Kichizo, Pai de Kichijiro), Yoriko Dôguchi (Naka, Mãe de Kichijiro), Kisetsu Fujiwara (Kichita, Irmão de Kichijiro #2), Yasushi Takahashi (Aldeão de Tomogi), Sanjûrô Kobayashi (Aldeão de Tomogi), Mangorō Satō (Aldeão de Tomogi), Keiko Morikawa (Aldeão de Tomogi), Jin Maki (Barqueiro), Naoto Yokouchi (Nadador de Gotō), Kansai Eto (Mosuke, Velho de Gotō), Shun Sugata (Comandante Samurai), Kazuhiko Ozaki (Yahachi, Refém de Tomogi #3), Fumitaka Terai (Tobei, Prisioneiro Cristão), Hako Ohshima (Kiku Prisioneiro Cristão), Hideki Nishioka (Mataichi Prisioneiro Cristão), Takahiro Fujita (Criado de Inoue), Senmaru (Malabarista em Nagasaki), Ryô Fujiwara (Criança em Nagasaki), Nobuaki Fukuda (Homem Rude), Munetaka Aoki (Guarda Prisional #1), SABU (Samurai #1), Tetsu Watanabe (Guarda Prisional #2), Exile Akira (Oficial da Prisão), Shunya Tajima (Samurai na Praia #1), Ryuki Kitaoka (Samurai na Praia #2), Hiroki Noguchi (Samurai no Barco), Katsuo Nakamura (Velho Monge Budista), Yoshihiro Takayama (Homem Grande), Shoji Miyata (Gritos de Vendedor (voz)), Noriwo Mitsuda (Gritos de Vendedor (voz)), Ayumu Saito (Guarda Prisional #3).