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Who's Afraid of Virgina Woolf?George (Richard Burton) e Martha (Elizabeth Taylor) são um casal de meia-idade, no mundo académico, que vive numa relação de amor-ódio, regada com muito álcool e fomentada por frustrações passadas. Na base delas, está a pouca agressividade de George, que apesar de genro do reitor, teima em não subir no seu departamento. Tal torna Martha amarga, a que se junta uma estranha história sobre o elusivo filho do casal. Tudo parece rebentar na noite em eles que recebem como convidados o jovem casal Nick (George Segal) e Honey (Sandy Dennis), que se vão tornando testemunhas de guerras violentas, bem como cobaias dos jogos e agressões de humor mórbido de George e Martha.

Análise:

É impossível pensar no filme “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, protagonizado pelo electrizante par Elizabeth Taylor/Richard Burton, sem se pensar em tudo o que estava para lá da tela, o romance mediático, de pormenores escandalosos, que fascinou Hollywood durante uma década, e levou a dois casamentos com um divórcio de permeio. Contracenando juntos desde o infame “Cleópatra” (Cleopatra, 1963) de Joseph L. Mankiewicz, Taylor e Burton, dois actores de já renome, emprestavam uma intensidade a cada drama que interpretavam juntos, que marcava todos os seus filmes, acrescendo ao mito do tal romance hollywoodesco que apaixonava os fãs.

Mas antes que este par tomasse o filme como seu, e todas as discussões, convulsões e maneirismos de um casal, como algo que, sem querer, pensamos sempre ser um olhar indiscreto para a vida de um casal real, já havia uma peça de teatro, e uma ideia de autor, argumentista e realizador. E esta começa na peça de Edward Albee, estreada na Broadway em 1962 e vencedora de um Tony, no ano seguinte. Como habitual, a Broadway lidava com temas difíceis, não se coibindo de o fazer de uma forma amarga, sem um necessário final feliz, e com recurso a linguagem ofensiva. Mas tal não dissuadiu Jack Warner que viu a história com potencial para ser passada ao cinema, num argumento de Ernest Lehman, que teve a coragem de não tocar nos diálogos, deixando toda a irreverência do palco chegar ao ecrã.

Consta que Edward Albee indicou Bette Davis e James Mason para os papéis principais, mas a produção apostou numa dupla mais jovem e enérgica (com Taylor a ter que engordar quinze quilos, para parecer ter 52 anos, e não 33, que era a sua idade). Para a realização foi chamado o jovem (35 anos) Mike Nichols, um antigo actor de palco, que ganhou reputação como encenador na Broadway, e teria aqui a sua primeira experiência no cinema.

Sendo fiel à lógica de palco, Nichols filmou uma história que, não só seguiu o texto original de muito perto, como se manteve fiel à unidade espacial típica do teatro. Quase toda a acção decorre na casa dos protagonistas, exceptuando breves cenas num bar, no carro, e no relvado à porta da casa. Sem que estas mudanças quebrem a unidade da peça, o filme “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” centra-se, como não podia deixar de ser nos diálogos, que é como quem diz, nos duelos de palavras e personalidades entre os protagonistas.

E estes são Martha (Elizabeth Taylor), a filha do reitor da universidade, casada com George (Richard Burton), professor de História na mesma universidade, e que, para desgosto da esposa, nunca chegou a director do departamento. Alegres, dinâmicos, mas conflituosos e agressivos, Martha e George vivem à beira de um abismo entre o amor e o ódio, sem dificuldades em se agredirem sempre que podem.

Toda a história se passa numa noite em que, depois de uma festa na Universidade, Martha e George regressam a casa, tendo como convidados outro casal. Eles são Nick (George Segal), professor recém-chegado ao departamento de Biologia, e a esposa Honey (Sandy Dennis, esposa de George Segal). Estes começam por perceber que aterraram no meio de uma guerra interna, para aos poucos (e graças ao muito álcool consumido nessa noite) se irem deixando envolver. E as teias começam então a enrolar-se. Martha vê em Nick o homem ambicioso que queria que o marido fosse, e não hesita em humilhá-lo com comparações. Nick começa a sentir que um caso com a filha do reitor não será má ideia. Enquanto isso George descobre os pormenores do casamento de Nick e Honey (uma gravidez histérica), e usa isso para lhes causar desconforto. Pelo meio é aludido várias vezes um elusivo filho de Martha e George, cuja menção traz sempre discussão entre o casal.

Em três actos (menos distintos no filme que na peça), as agressões verbais e jogos mórbidos vão subindo de intensidade, com Martha a acabar por trair George com Nick; Honey a confessar a George que a gravidez foi real, e acabou por abortar; e George a usar isso para provocar o casal de convidados, e contar a verdade sobre o pretenso filho que teve com Martha, destroçando-a propositadamente.

Com diálogos avassaladores, e um ritmo cortante, mercê de interpretações excepcionais, “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” consegue passar para o grande ecrã toda a intensidade (e dir-se-ia claustrofobia) do palco. Nichols consegue isso com sequências longas em que os actores são seguidos de câmara na mão, que por vezes evoluem para close-ups de enorme (e desconcertante) proximidade.

Também ao nível dos temas, o desconforto é propositado, com a escalpelização de uma relação gasta e viciada, onde duas pessoas, por tão bem se conhecerem, são sempre capazes de tocar nos pontos fracos um do outro. É um sadismo quase explícito, que também é masoquismo, pois sempre que um deles abre uma ferida, sabe que vai ser magoado de seguida. Cada elemento do casal é tão dominadoramente agressivo como fragilmente dominado. É, afinal, um desmascarar do que seria a família real de classe média-alta e intelectualmente evoluída, com muito de disfuncional, e bem longe dos idílios que a maioria dos filmes nos dava a ver.

Pelo meio temos a ténue linha entre ilusão e realidade, que leva à construção da história de um filho, que funciona como um escape, e talvez exemplo do quanto o casamento de Martha e George necessitava e do quanto era já baseado em ilusões.

Sendo mais um marco do fim da velha Hollywood, onde o assalto dos conceitos e valores da Broadway era de novo evidente, “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” foi um sucesso para a crítica, como o atestam as treze nomeações aos Oscars da Academia, todas as possíveis, feito que o filme partilha com “Cimarron” (1960) de Anthony Mann. Venceria cinco, entre elas a de melhor actriz principal (Taylor) e melhor actriz secundária (Dennis).

Elizabeth Taylor em "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?" (Who's Afraid of Virgina Woolf?, 1966) de Mike Nichols, segundo a peça de Edward Albee

Produção:

Título original: Who’s Afraid of Virgina Woolf?; Produção: Warner Bros.; País: EUA; Ano: 1966; Duração: 131 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 21 de Junho de 1966 (EUA), 14 de Março 1969 (Cinema S. Luiz e Cinema Alvalade, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Mike Nichols; Produção: Ernest Lehman [não creditado]; Argumento: Ernest Lehman [baseado na peça homónima de Edward Albee]; Música: Alex North; Fotografia: Haskell Wexler [preto e branco]; Montagem: Sam O’Steen; Design de Produção: Richard Sylbert; Cenários: George James Hopkins; Figurinos: Irene Sharaff; Caracterização: Gordon Bau (Elizabeth Taylor), Ron Berkeley (Richard Burton).

Elenco:

Elizabeth Taylor (Martha), Richard Burton (George), George Segal (Nick), Sandy Dennis (Honey).

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