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The Night of the IguanaT. Lawrence Shannon (Richard Burton) é um pastor religioso caído em desgraça, que se dedica agora a ser guia turístico no México. Quando um grupo de mulheres da Igreja Episcopal do Texas, lideradas por Judith Fellowes (Grayson Hall), o acusam de tomar liberdades para com a jovem Charlotte Goodall (Sue Lyon), Shannon desvia o autocarro do grupo para uma pousada remota, mantida pela sua amiga Maxine Faulk (Ava Gardner). Aí, conhece a pintora Hannah Jelkes (Deborah Kerr) e o seu idoso avô poeta (Cyril Delevanti). É do encontro entre Miss Jelkes e Shannon que este começa a confrontar os medos e comportamentos que constantemente minam a sua vida.

Análise:

“The Night of the Iguana” foi o ultimo grande sucesso de Tennessee Williams na Broadway. Baseada num conto seu de 1948, a peça estreou nos palcos em 1961, tendo um total de 316 apresentações, numa produção que incluía como protagonistas Patrick O’Neal, Bette Davis (substituída a meio por Shelley Winters) e Margaret Leighton. A peça foi nomeada para os Tony Awards, e seguiu-se a adaptação ao cinema, que surgiu logo em 1964, pelas mãos do realizador-argumentista John Huston. Este decidiu filmar em cenários naturais, no México, com um elenco caríssimo – Richard Burton (750 mil dólares), Ava Gardner (400 mil dólares) and Deborah Kerr (250 mil dólares) – e nem sempre muito convencido com a produção.

Ao filmar, como se disse, em paisagens naturais, Huston retira Williams dos palcos, para nos dar uma viagem de autocarro, passagens por diferentes aldeamentos, e até mesmo uma estadia numa praia. Tudo isto funciona como prelúdio à caracterização do protagonista, o Reverendo Dr. T. Lawrence Shannon (Richard Burton), que logo na cena de abertura vemos no púlpito, num sermão falhado, que contribui para chocar os seus paroquianos. É uma espécie de prólogo não presente na peça, que nos mostra algumas das razões pelas quais Shannon é desprezado por todos, e que na peça vamos intuindo dos diálogos que ocorrem já no hotel de Maxine Faulk (Ava Gardner).

Mas o filme «começa antes», e mostra-nos o dito sermão, numa espécie de queda desesperada de Shannon, que vemos depois resignado a ser guia turístico no remoto méxico, em excursões de cariz religioso, organizadas para mulheres de meia idade, devotas da Igreja Episcopal do Texas. Entre elas está a jovem Charlotte Goodall (Sue Lyon), que logo tenta seduzir o ex-reverendo. Quando são descobertos juntos no quarto deste, o escândalo é público, com Judith Fellowes (Grayson Hall), protectora da jovem, a tomar medidas para a expulsão de Shannon. Este, num acto impulsivo e impensado, desvia o autocarro para o recôndito hotel da sua velha amiga Maxine Faulk. É aí que Shannon vai conhecer a pintora Hannah Jelkes (Deborah Kerr), que passeia com o idoso avô (Cyril Delevanti), o qual quer terminar um último poema antes de morrer. Miss Jelkes interessa-se por Shannon, a sua descrença e cinismo, e através de vários confrontos vai fazê-lo questionar a sua senda de auto-destruição.

Com um conteúdo religioso mais evidente que habitualmente, a história de Tennessee Williams fala-nos de Shannon, um reverendo em desgraça, qual anjo caído do céu. Incapaz de aceitar os seus conflitos internos, do mesmo modo que não aceita a hipocrisia alheia, Shannon reage-lhe chocando os outros, e com isso aumentando as suas penas, usando os seus defeitos (em particular o deixar-se seduzir pelas suas paroquianas) como uma culpa que requer o castigo auto-infligido da humilhação e o desdém daqueles de quem depende. Por tudo isso Shannon deixou de acreditar, não em Deus, mas no homem, e no Deus pelo homem criado. Incapaz de compatibilizar os seus sonhos com a realidade (ou o mundo fantástico com o mundo realista, como Miss Jelkes se lhes refere), Shannon enceta uma espiral descendente de álcool, auto-comiseração, e conflitos desesperados.

Resta-lhe, no ambiente amigável das últimas pessoas que lhe querem bem (a viúva Faulk, e a nova amiga), receber um último teste de beleza humana, como a presente no aguardado último poema do avô de Miss Jelkes, ou na simples bondade da própria. É a luta final pela crença no livre-arbítrio, que solta Shannon das amarras do passado para uma nova vida, como a metafórica libertação da iguana, com os humanos a brincarem que são Deus, num momento em que Deus não está mais presente.

Sendo um dos mais humanos e comoventes textos de Tennessee Williams (poucas vezes vemos um dos seus personagens descer desesperadamente tão baixo, num tão eloquente grito de socorro), “A Noite da Iguana” não deixa de ser mais uma peça deveras provocante. Nela aborda-se a sexualidade desregrada da juventude, o cinismo religioso, a falta de fé e vocação por parte dos pastores religiosos e até a ausência de Deus. Como se não bastasse, a personagem de Judith Fellowes é apontada como lésbica de armário, e o filme mostra mesmo uma ménage à trois entre Faulk e dois empregados mexicanos (sinal de que Hollywood estava a ficar bem mais permissiva).

“A Noite da Iguana” deve, como seria de esperar, imenso aos seus actores, com um Richard Burton melodramático, capaz de levar o filme às costas, como o seu personagem carrega os pesos da sua culpa, Ava Gardner brilhante nas réplicas cáusticas e maneirismos desconcertantes, e Deborah Kerr surpreendente na capacidade de passar da mais inocente candura para uma inesperada e realista força interior. Eles fazem, acima de tudo, um filme de tensões e equilíbrios sempre em evolução, que tornam um drama de moralidade e insinuações sexuais em muito mais, a tal comovente história humana, muito transversal aos seus personagens.

O filme venceu o Oscar de Melhor Guarda-roupa, tendo sido nomeado para os de Melhor Direcção Artística, Fotografia e Actriz Secundária (Grayson Hall). Ava Gardner foi nomeada como Melhor Actriz nos Globos de Ouro e nos BAFTA, e Cyril Delevanti foi nomeado como Melhor Actor Secundário nos Globos de Ouro.

O filme tornou-se ainda famoso na altura por razões externas, com a presença de Elizabeth Taylor durante as filmagens, no assumir da escandalosa relação que ela e Richard Burton haviam iniciado pouco antes, ambos ainda casados com outras pessoas. A relação entre os dois, com dois casamentos e várias separações seria das mais badaladas de sempre em Hollywood.

A peça de Williams resultaria mais tarde num filme servo-croata realizado em 2000, por Janusz Kica.

Produção:

Título original: The Night of the Iguana; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM), Seven Arts Pictures; País: EUA; Ano: 1964; Duração: 118 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 10 de Junho de 1964 (San Sebastian Film Festival, Espanha), 30 de Junho de 1964 (EUA), 7 de Dezembro de 1964 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Huston; Produção: Ray Stark; Produtores Associados: Sandy Whitelaw [como Alexander Whitelaw], Emilio Fernández [não creditado]; Argumento: Anthony Veiller, John Huston [a partir da peça homónima de Tennessee Williams]; Música: Benjamin Frankel; Fotografia: Gabriel Figueroa [preto e branco]; Montagem: Ralph Kemplen; Direcção Artística: Stephen B. Grimes; Figurinos: Dorothy Jeakins; Caracterização: Eric Allwright [não creditado], Jack Obringer [não creditado]; Direcção de Produção: Clarence Eurist;

Elenco:

Richard Burton (Rev. Dr. T. Lawrence Shannon), Ava Gardner (Maxine Faulk), Deborah Kerr (Hannah Jelkes), Sue Lyon (Charlotte Goodall), Skip Ward [como James Ward] (Hank Prosner), Grayson Hall (Judith Fellowes), Cyril Delevanti (Nonno), Mary Boylan (Miss Peebles).

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