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Splendor in the GrassEm 1928, no Kansas, Bud Stamper (Warren Beatty) e Deannie Loomis (Natalie Wood) são dois populares estudantes de liceu, apaixonados um pelo outro, e motivo de admiração dos seus pares. Mas Bud, de família rica, tem a pressão do seu pai Ace (Pat Hingle), que teme que o filho engravide Deannie e ponha em causa o futuro que pensou para ele. Com o exemplo da irmã dissolute (Barbara Loden), Bud começa a evitar Deannie para a proteger de ganhar a mesma reputação. Mas ao sentir-se trocada, Deannie vai desesperar a ponto de tentar o suicídio, enquanto Bud, contra vontade, vai para Yale, para um curso que nunca desejou.

Análise:

A partir do argumento do dramaturgo William Inge, que desta vez escreveu directamente para cinema, Elia Kazan realizou um dos seus filmes hoje mais conhecidos, “Esplendor na Relva”. Filmando integralmente em Nova Iorque (mesmo os exteriores, que pretendiam parecer os campos do Kansas), Kazan construiu um hino à rebeldia da juventude, aqui sem medo de usar a tensão sexual como motor da história, num par de jovens actores, a já consagrada Natalie Wood, e o estreante Warren Beatty, até aí actor de televisão.

Com o título retirado do poema “Ode: Intimations of Immortality” de William Wordsworth, (cujo excerto «Though nothing can bring back the hour of splendour in the grass, / of glory in the flower, / we will grieve not, / rather find strength in what remains behind.») é lido no filme, a história centra-se na explosão de desejo e paixão que é a relação entre Wilma Dean «Deannie» Loomis (Natalie Wood) e Bud Stamper (Warren Beatty). Ambos estudantes de liceu, Deannie e Bud são um casal admirado, mas com um pequeno problema, o desejo sexual começa a ser demasiadamente intolerável por não ser consumado. Com medo que algum gesto impensado ponha em causa o futuro de Bud, o seu pai, Ace Stamper (Pat Hingle), o mais rico proprietário da região, tenta tudo para convencer o filho a deixar Deannie, e pensar apenas nos estudos, e na ida para Yale. Com o exemplo da sua desregrada irmã Ginny (Barbara Loden) que deitou todas as oportunidades a perder em relações escandalosas, divórcios apressados e um suposto aborto, e com o sentimento de que estar perto de Deannie lhe faz mais mal que bem, Bud aceita o conselho do pai, de consumar o desejo sexual com outras mulheres. Mas do lado de Deannie a repressão magoa igualmente, e a consciência de que poderá estar a perder Bud é demais para ela, levando-a ao desespero, e à tentativa de suicídio.

Os anos passam, com Deannie internada, Bud a falhar nos estudos, e a Grande Depressão de 1929 a arruinar os Stamper. Depois de uma última tentativa de se ligar ao seu filho, Ace suicida-se, e este acaba por abandonar os projectos do pai. Quando Deannie, já recuperada, regressa a casa, encontra um Bud mais velho, casado e com um filho. A memória e saudade do passado continuam, mas não passam agora disso.

Baseando o filme nos falsos-adolescentes Natalie Wood e Waren Beatty (ambos já acima dos 20 anos), Kazan tem o arrojo de fazer uma obra onde o desejo sexual, e a frustração da sua não concretização, são as forças motrizes. Para tal, e sendo ele um homem do Actors Sudio, conta-se como tentou motivar os seus actores, em especial Natalie Wood, habituada a uma imagem de elegância e classe, mas que o realizador queria modificar (não a deixava usar maquilhagem), para lhe retirar a aura de menina bonita, e tornar numa adolescente rebelde e capaz de escandalizar os seus pares. Wood teve algumas dificuldades, conseguindo as cenas mais emblemáticas do filme (a sequência da banheira, e as tentativas de sexo com Bud que levam à tentativa de suicídio no lago) com Kazan a levá-la ao limite, muitas vezes provocando-a a ponto de histeria.

Filmado em Technicolor, e com uma produção elaborada, “Esplendor na Relva” destaca-se principalmente por essa força trazida por Natalie Wood e Warren Beatty, expressando uma fúria de viver (e o primeiro «french kiss» de Hollywood) condenada a ser domada pelos valores da sociedade, mesmo que corruptos, como exemplificado pelas casas de diversão para as quais Ace empurrava Bud, quando, num clássico duplo padrão, condenava a filha Ginny por ter esse tipo de comportamento. É toda essa energia que não pode ser consumida, e o desejo que não pode ser consumado, que afectam Deannie e Bud, deixando-os à deriva, ela entregue a um hospital, ele num curso que não quis, casando com uma mulher que talvez nem ame.

Acima de tudo, “Esplendor na Relva”, tal como o poema indica, é o olhar nostálgico para o romantismo das ilusões perdidas, mas que mesmo perdidas no tempo, continuam a fornecer aquela chama de esperança que nos diz que na vida é possível a cor, nem que seja só a que num dia já longínquo vivemos.

Pela negativa, destaca-se os restantes personagens, de um Ace demasiado caricatural (e cujo coxear era real, por uma queda de Pat Hingle que lhe destroçou a perna durante as filmagens, e que o actor incorporou no personagem), e uma Ginny muito exagerada, cuja função é fornecer um contraponto para com Bud, em quem opai aposta tudo. O filme parece hoje um pouco datado, com o esgotamento de Deannie a parecer forçado, mas vale sobretudo pelos valores que coloca em causa, e pela forma como afronta a repressão doméstica, mostrando o que esta pode ter de nocivo numa juventude idealista e sonhadora.

O filme receberia reconhecimento nos Oscars, com o prémio para Melhor Argumento Adaptado, e nomeação para Natalie Wood, como Melhor Actriz. Eliza Kazan receberia uma nomeação pela Director’s Guild of America, a que se juntariam três nos Globos de Ouro (Filme, Actor e Actriz), e a dos BAFTA de Melhor Actriz para Wood.

Warren Beatty e Natalie Wood "Esplendor na Relva" (Splendor in the Grass, 1961) de Elia Kazan

Produção:

Título original: Splendor in the Grass; Produção: Warner Bros. Pictures / Newtown Productions / NBI Productions; País: EUA; Ano: 1961; Duração: 124 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 10 de Outubro de 1961 (EUA), 9 de Fevereiro de 1962 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Elia Kazan; Produção: Elia Kazan [não creditado]; Produtor Associado: William Inge, Charles H. Maguire; Argumento: William Inge; Música: David Amram; Orquestração: ; Fotografia: Boris Kaufman [cor por Technicolor]; Montagem: Gene Milford; Design de Produção: Richard Sylbert; Direcção Artística: ; Cenários: Gene Callahan; Figurinos: Anna Hill Johnstone; Caracterização: Robert Jiras; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: .

Elenco:

Natalie Wood (Wilma Dean Loomis), Warren Beatty (Bud Stamper), Pat Hingle (Ace Stamper), Audrey Christie (Mrs. Loomis), Barbara Loden (Ginny Stamper), Zohra Lampert (Angelina), Fred Stewart (Del Loomis), Joanna Roos (Mrs. Stamper), John McGovern (Doc Smiley), Jan Norris (Juanita Howard), Martine Bartlett (Miss Metcalf), Gary Lockwood (Allen ‘Toots’ Tuttle), Sandy Dennis (Kay), Crystal Field (Hazel), Marla Adams (June), Lynn Loring (Carolyn), Phyllis Diller (Texas Guinan), Sean Garrison (Glenn).

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