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Inherit the WindQuando Bertram T. Cates (Dick York), um professor de liceu de Hillsboro, Nebraska insiste em falar da evolução das espécies na sala de aulas, é emitida uma ordem de prisão por desafiar a lei do Estado. Com o reverendo Jeremiah Brown (Claude Akins), o Mayor Jason Carter (Philip Coolidge) e todo o povo a acusá-lo, Cates tem apenas o apoio da noiva, Rachel Brown (Donna Anderson), por sinal filha do reverendo. A acusação chama o famoso retórico e já candidado presidencial Matthew Harrison Brady (Fredric March), enquanto um jornal de Leste se interessa pelo caso enviando o seu jornalista E. K. Hornbeck (Gene Kelly), e pagando os honorários do advogado de defesa, Henry Drummond (Spencer Tracy). Segue-se a batalha no tribunal, onde a “A Origem das Espécies” de Darwin é confrontada com “A Bíblia”.

Análise:

Em 1925, em Dayton, Tennessee, o professor de liceu John Thomas Scopes foi levado a tribunal pelo crime de ensinar as teorias de evolução de Darwin. O caso, conhecido como «Scopes Monkey Trial» foi, na época, bastante mediático, tendo resultado na condenação do acusado por um júri bastante tendencioso e puritano, que depois o tribunal reverteu numa pena não efectiva, com base numa questão técnica. Como então a defesa proclamou, não era competência do tribunal julgar entre evolução e criacionismo, mas sim defender a liberdade de pensamento e expressão. Em 1960, Stanley Kramer ressuscitou este velho incidente, para fazer um alerta sobre os limites da liberdade de pensamento e expressão, que decorriam da cruzada do «Macartismo», que então prosseguia a sua caça às bruxas, contra as supostas «actividades anti-americanas» dos simpatizantes de ideologias de esquerda.

Produzido e realizado pelo próprio Kramer, com apoio da United Artists, “O Vento Será a Tua Herança” era, antes de mais, a adaptação ao cinema da peça homónima de Jerome Lawrence e Robert E. Lee, escrita em 1951 e encenada pela primeira vez em 1955. O argumento foi escrito por Harold Jacob Smith e Nedrick Young, este desde logo um problema para Hollywood, por constar da Lista Negra de McCarthy, tendo por isso assinado como Nathan E. Douglas.

Modificando desde logo muitos dos acontecimentos reais (desde o local – Hillsboro, Nebraska – nomes dos personagens, comportamentos hostis da população, personagens do reverendo e filha, morte climática de Brady, etc.), a história inicia-se com a famosa aula de Bertram T. Cates (Dick York), que o coloca em apuros, com todos, do reverendo Jeremiah Brown (Claude Akins) ao Mayor Jason Carter (Philip Coolidge), a pedirem imediatamente a sua cabeça, pelo que consideravam uma ofensa aos ensinamentos da Igreja. Cates é encarcerado, e para conduzir a acusação é chamado o popular Matthew Harrison Brady (Fredric March), político amado na região, já várias vezes candidato presidencial, e com habilidade inata para apelar ao sentimento religioso dos seus eleitores. Mas nem tudo está perdido para Cates, quando este vê chegar E. K. Hornbeck (Gene Kelly), colunista de um famoso jornal de Leste, que se interessou pelo caso, e se dispõe a pagar os serviços de um dos mais famosos advogados do país, Henry Drummond (Spencer Tracy), por sinal antigo amigo de Brady.

O julgamento começa, e é óbvio que toda a sala está com Brady, e com a sua retórica religiosa, que faz de qualquer tentativa de oposição às suas palavras uma espécie de heresia. Embora o juiz (Harry Morgan) tente manter a neutralidade, os argumentos da defesa são sempre rebatidos, as testemunhas mesmo recusadas, pois Brady consegue que seja sempre a Bíblia que esteja em cheque, terreno onde ele sabe ter vitória garantida.

O ponto mais crítico para Cates dá-se quando a sua namorada, Rachel Brown (Donna Anderson), a filha do reverendo, é chamada a depor por Brady, com base em desabafos que ela fizera em confidência. Brady deturpa as palavras de Rachel contra Cates, e este proíbe Drummond de a contra-interrogar, assinando desde logo a sua sentença. O próprio Drummond chega a demitir-se do caso, sendo intimado a continuar por falta de respeito ao tribunal, fazendo o resto da defesa sobre a interpretação que Brady (ele próprio chamado a testemunhar) faz da Bíblia.

Mas fosse qual fosse a ordem de ideias, e já com a rádio presente para transmitir o veredicto em directo, Cates é considerado culpado, com o juiz a estabelecer a pena em apenas 100 dólares, pelo ridículo que o caso estava a ter perante toda a nação. Essa pena causa a fúria de Brady, que tenta um último e emocionado discurso, morrendo enquanto o faz.

Com a premissa anteriormente descrita, “O Vento Será a Tua Herança” era claramente uma crítica aos sectores mais puritanos e politicamente mais retrógrados da sociedade norte-americana. O próprio título o indica, citando uma frase da Bíblia, do Livro dos Provérbios «Aquele que perturba a sua própria casa terá apenas o vento como herança», proferida pela primeira vez por Brady, para criticar a dissensão entre o reverendo e a filha, e mais tarde em tribunal, por Drummond, já no sentido mais lato, que levava Stanley Kramer a usar esta obra. Aqui a «família» era a comunidade, e a nação, divididas por lutas políticas fracturantes.

Tal como defendido por Drummond, era a liberdade de pensamento e expressão que estava em causa. Ainda assim, “O Vento Será a Tua Herança” parece ser claramente um filme onde se aponta simplesmente os erros do puritanismo, com uma caricaturização dos personagens que defendem o criacionismo, do povo ignorante que alinha em massa em hinos ridículos e frases feitas que nos fazem crer termos voltado à Idade Média, ao próprio Brady (numa excelente interpretação de Fredric March), sempre dado aos prazeres da gula, e com um ego que o fazia sentir-se um verdadeiro profeta.

Quem está pronto a ridicularizar isto é o jornalista Hornbeck (com Gene Kelly num papel for a da sua esfera habitual), farejando sensacionalismo, descrevendo-se como total cínico, e assumindo que «faço coisas odiosas pelas quais as pessoas me adoram, e faço coisas adoráveis pelas quais as pessoas me odeiam». São dele as melhores tiradas do filme, nas linhas mais cáusticas e directas, com vista a expor o ridículo da argumentação, e ao mesmo tempo a hipocrisia em que facilmente caímos.

Entre as duas posições move-se Drummond, numa das últimas interpretações do grande Spencer Tracy. Se aparentemente Drummond e Hornbeck estão do mesmo lado, esse lado é apenas a defesa de Cates. E mal o caso encerra as diferenças surgem, com Drummond a acusar Hornbeck de um cinismo oco, mostrando-nos que para ele nunca foi a religião que esteve em causa. É a posição conciliadora que descansa o próprio público, e que, se já tinha sido sugerido quando o próprio Drummond quis usar a Bíblia em sua defesa, marca o final do filme, quando ele coloca a Bíblia em cima do livro de Darwin, e leva os dois num sorriso, sobre o qual se voltam a ouvir os hinos religiosos de antes.

Kramer, filmando maioritariamente em interiores (nomeadamente na sala de audiências), contrasta clausura dos espaços, na lógica teatral (com algumas sequências filmadas num só take), com alguns planos gerais de exteriores, que servem principalmente para nos mostrar a ameaça da população). O filme inclui algumas sequências não presentes na peça, como são as cenas de interlúdio entre sessões de tribunal (discurso do reverendo, conversa entre Brady e Rachel, conversa entre Drummond e Hornbeck que leva à defesa sobre a Bíblia). O filme dava assim uma no cravo outra na ferradura, defendendo a tal liberdade de pensamento e expressão, mas protegendo a palavra divina, tanto dos cínicos e agnósticos como Hornbeck, como dos retrógrados como Brady. Para ele, é na caminhada tolerante entre religião e ciência que estava a força do seu povo. Ou por outras palavras, pela tolerância política da esquerda à direita, que ele clamava num filme político, em tempos conturbados.

O sucesso e relevância do filme levou a posteriores adaptações à televisão, a primeira logo de 1965, realizada por George Schaefer e com Melvyn Douglas, Ed Begley e Murray Hamilton nos principais papéis (Drummond, Brady e Horneck, respectivamente). A segunda, de 1988 seria realizada por David Greene e protagonizada por Kirk Douglas, Jason Robards e Darren McGavin nesses mesmos papéis. A mais recente data de 1999, com realização de Daniel Petrie, e interpretada por Jack Lemmon (Drummond), George C. Scott (Brady) e Beau Bridges (Horneck).

Na Broadway, depois das 806 apresentações iniciais, que levaram a dois prémios Tony, em 1956, com um elenco que incluía Paul Muni (Drummond), depois substituído por Melvyn Douglas, por problemas de saúde, Ed Begley (Brady) e Tony Randall (Hornbeck), a peça teria dois regressos. O primeiro foi em 1996 com Charles Durning e George C. Scott, e o segundo em 2007 com Brian Dennehy e Christopher Plummer.

Como curiosidade, acrescente-se que este foi o último filme de Dick York, que faria nome na televisão, nomeadamente na série “Casei Com Uma Feiticeira” (Bewitched, 1964-1971).

“O Vento Será a Tua Herança” seria nomeado para quatro Oscars da Academia (Actor – Tracy – Argumento Adaptado, Fotografia e Montagem), não vencendo nenhum. Recebeu ainda nomeações nos BAFTA, nos Globos de Ouro, e no Festival de Berlim (onde March venceu o Urso de Ouro de Melhor Actor). O filme continua hoje reconhecido como um dos melhores dramas de tribunal de sempre.

Spencer Tracy, Harry Morgan e Fredric March em "O Vento Será a Tua Herança" (Inherit the Wind, 1960) de Daniel Petrie, segundo a peça de Jerome Lawrence e Robert E. Lee

Produção:

Título original: ; Produção: Stanley Kramer Productions [como Lomita Productions]; País: EUA; Ano: 1960; Duração: 123 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: Novembro de 1960 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Stanley Kramer; Produção: Stanley Kramer; Argumento: Nedrick Young, Harold Jacob Smith [a partir da peça homónima de Jerome Lawrence e Robert E. Lee]; Música: Ernest Gold; Fotografia: Ernest Laszlo [preto e branco]; Montagem: Frederic Knudtson; Design de Produção: Rudolph Sternad; Guarda-roupa: Joe King; Caracterização: Bud Westmore; < Direcção de Produção: Clem Beauchamp.

Elenco:

Spencer Tracy (Henry Drummond), Fredric March (Matthew Harrison Brady), Gene Kelly (E. K. Hornbeck), Dick York (Bertram T. Cates), Donna Anderson (Rachel Brown), Harry Morgan (Juiz Mel Coffey), Claude Akins (Rev. Jeremiah Brown), Elliott Reid (Promotor Público Tom Davenport), Paul Hartman (Oficial Mort Meeker), Philip Coolidge (Mayor Jason Carter), Jimmy Boyd (Howard), Noah Beery Jr. (John Stebbins), Norman Fell (Técnico da Rádio WGN), Gordon Polk (George Sillers), Hope Summers (Mrs. Krebs, Mulher Puritana), Ray Teal (Jessie H. Dunlap), Renee Godfrey (Mrs. Stebbins), Florence Eldridge (Sarah Brady).

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