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The Catered Affair Quando Jane Hurley (Debbie Reynolds) anuncia aos pais que vai casar, estes, Tom (Ernest Borgnine), um taxista a juntar dinheiro para comprar o táxi que conduz, e Aggie (Bette Davis), doméstica, aceitam o plano da rapariga de um casamento sem festa nem pompa. Mas cedo a pressão de quem os rodeia, e a humilhação que é não terem nada para dar à filha os leva a mudar de ideias, com Aggie a pressionar para que haja um casamento como ditam as regras. Só que com o avançar dos planos, Tom e Aggie percebem que não têm dinheiro, ao mesmo tempo que Jane sofre outras pressões que lhe mostram que a boda traz mais problemas que soluções.

Análise:

Escrito pelo argumentista de televisão, tornado dramaturgo, Paddy Chayefsky, adaptado ao cinema pelo também dramaturgo Gore Vidal, e realizado pelo também argumentista e esporadicamente dramaturgo Richard Brooks, “The Catered Affair”, uma peça originalmente escrita para televisão, é como que o retomar do caminho mostrado em ” um pouco na senda do anterior “Marty” (1955) de Delbert Mann, também escrito por Chayefsky. Tal como o filme de Mann, “The Catered Affair” lida (quase em formato televisivo), com uma história urbana de vida de classe média baixa (a chamada «working class»), de aspirações modestas, e possibilidades muito humildes. A recordar “Marty” temos de novo a presença de Ernest Borgnine, que aqui contracena com a grande Bette Davis.

No centro de “The Catered Affair” está o nominal «affair» que é um casamento, cujo planeamento vai trazer um enorme número de contradições e dissensões. Tudo começa quando Jane Hurley (Debbie Reynolds) anuncia aos pais que vai casar. Mas não é um casamento segundo as regras, pois decididos a poupar dinheiro e a aproveitar o empréstimo de um carro para a lua-de-mel, Jane e o noivo Ralph Halloran (Rod Taylor) querem uma cerimónia simples, apenas com família chegada, e dez minutos com o padre. A princípio a ideia parece sensata, e os pais de Jane, ele Tom (Ernest Borgnine), um taxista a juntar dinheiro para comprar o táxi que conduz, ela Agnes (Bette Davis) – ou «Aggie», como é sempre chamada, – é uma doméstica que nunca fez mais que preocupar-se com aqueles sobre a sua alçada, concordam. Mas quando mais vão valando do assunto a terceiros, mais a coisa vai ficando estranha.

Logo em casa sofrem as acusações do tio Jack Conlon (Barry Fitzgerald), irmão de Agnes, que se sente repudiado com o tal casamento para família chegada, que não o inclui. Na rua, as notícias correm depressa e as pessoas comentam que provavelmente Jane está grávida, e por isso apressa o casamento. Finalmente, ao reunir-se com a família de Ralph, bem financeiramente, que quer presentear o filho com muito de bom, incluindo um apartamento, Agnes sente-se humilhada, e convence o marido e a filha de que têm de organizar um casamento grandioso, pois é a única coisa importante que ela alguma vez deu ou poderá dar a alguém.

Contrafeitos, Tom e Jane concordam, e esta convence Ralph, o qual não fica muito agradado. Começam os preparativos e nem tudo vai bem. Tom percebe que as despesas crescem, e perderá todas as suas poupanças e sonho de ter o seu táxi, Agnes luta com a crescente lista de convidados que se vai tornando irrazoável, e Jane vê a sua melhor amiga em sofrimento por não ter condições financeiras para ser sua dama de honor. Dado crescente número de problemas, a família aceita a realidade e volta ao primeiro plano.

Contado assim, o filme parece a história de um casamento planeado, mas é na verdade muito mais que isso. Além da anedótica luta de uma família com as expectativas e formas erradas que todos têm de os pressionar, temos ainda um retrato de uma classe média trabalhadora, mas sem nada de seu, numa luta para cumprir um sonho americano que já não crêem possível, a não ser na breve ilusão de uma festa. Mas acima de tudo isso estão as relações de um casal com aquilo que os rodeia.

Tom e Agnes vão confessar no final que nunca tiveram um momento só seu. Casaram sem o planear, tiveram sempre família à volta, depois as preocupações com os filhos, um dos quais morreu na guerra. Sobrevieram as dificuldades financeiras, o crescimento de Jane e do irmão Eddie (Ray Stricklyn), e claro, manter o tio Jack. O casamento de Jane, com a anunciada entrada na vida militar de Eddie são uma aventura, principalmente para Tom e Agnes, que, com o também anunciado casamento de Jack, pela primeira vez vão ficar sozinhos um com o outro, vão falar e conhecer-se. É esse o drama de “The Catered Affair”, o de um casal que sempre viveu junto, mas não se conhece. É essa a conclusão da conversa da catártica noite de véspera do esperado dia de Jane e Ralph. Nela Tom, falando abertamente pela primeira vez (durante o filme e durante a sua vida), explica que também ele sofre por não poder dar mais à filha, mas também tem o direito de sofrer por nunca poder ter dado nada a si próprio. É o grito de alerta de que, num casal, mais do que fazer algo pelos outros, a união vem de dentro, do que os dois possam fazer um pelo outro. Para que não fique um vazio no momento em que os outros segue as suas vidas. Essa é a lição aprendida do Tom e Agnes, que no final percebem que as festas de aparência nada significam quando comparadas com o que fica, a vida a dois.

Quase como se filmasse para televisão, Richard Brooks usa meios parcos para concentrar a acção nos espaços fechados dos apartamentos, em cenas a dois ou três, que são sempre de alguma intensidade emocional, sem nunca perder um realismo de simplicidade. Destaca-se, claro, Bette Davis, a verdadeira força por detrás do filme e da família, numa interpretação que é forte, sem nunca ser exagerada, como se a actriz soubesse (e sabia) a perfeita medida com que a sua personagem devia encher a tela, sem fazer dela sua propriedade. Ao seu lado Ernest Borgnine é perfeito como o marido que prefere extinguir-se nas sombras, expressando-se por esgares expressivos, mas reprimidos, e que quando fala, mostra ter, afinal muito a dizer (algo que parece ter sido a própria carreira de Borgnine, tantas vezes à sombra de outros). Já Debbie Reynolds limita-se a ser cândida e doce, numa Jane muito madura e sensata.

Considerado um texto mais complexo que as habituais abordagens simplistas de Chayefsky (de que “Marty” volta a ser exemplo), o próprio autor tinha dúvidas quanto ao resultado final, declarando que o primeiro acto (as decisões e indecisões sobre o formato da cerimónia) era uma farsa, o segundo (os preparativos para o casamento em grande) uma comédia dramática, e o terceiro (a constatação de que ter-se-ia de voltar à forma inicial) uma verdadeira tragédia.

A peça seria mais tarde tornada um musical na Broadway, com música e letras de John Bucchino.

Debbie Reynolds, Ernest Borgnine e Bette Davis em "The Catered Affair" (1956) de Richard Brooks

Produção:

Título original: The Catered Affair; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1956; Duração: 93 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 14 de Junho de 1956 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Richard Brooks; Produção: Sam Zimbalist; Produtor Associado: ; Argumento: Gore Vidal [a partir da peça para televisão de Paddy Chayefsky]; Música: André Previn; Orquestração: Wally Heglin [não creditado]; Fotografia: John Alton [preto e branco]; Montagem: Gene Ruggiero, Frank Santillo; Direcção Artística: Cedric Gibbons Paul Groesse,; Cenários: Edwin B. Willis, Hugh Hunt; Caracterização: William Tuttle; Direcção de Produção: William Dorfman [não creditado].

Elenco:

Bette Davis (Mrs. Agnes Hurley), Ernest Borgnine (Tom Hurley), Debbie Reynolds (Jane Hurley), Barry Fitzgerald (Tio Jack Conlon), Rod Taylor (Ralph Halloran), Robert F. Simon (Mr. Joe Halloran), Madge Kennedy (Mrs. Joe Halloran), Dorothy Stickney (Mrs. Rafferty), Carol Veazie (Mrs. Casey), Joan Camden (Alice Scanlon), Ray Stricklyn (Eddie Hurley), Jay Adler (Sam Leiter), Dan Tobin (Gerente do Hotel), Paul Denton (Bill Scanlon), Augusta Merighi (Mrs. Musso).

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