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Marty Proveniente de uma família italiana, que já viu três irmãos e três irmãs casarem, Marty (Ernest Borgnine) é um talhante solteirão, que vive com mãe (Esther Minciotti), e passa os tempos livres em casa, com os amigos a tentarem levarem-no para a vida boémia, e todos à sua volta a recriminarem-no por não ter ainda casado. Mas desprovido de beleza física, Marty não quer mais tentar a sua sorte, até ao dia em que acorre em salvamento da também considerada feia, e por isso abandonada num baile, Clara (Betsy Blair). Os dois encontram companhia num no outro, e entusiasmam-se pela química que sentem. Mesmo que agora Marty tenha que combater a desconfiança dos amigos e da própria mãe.

Análise:

A partir de uma história do dramaturgo Paddy Chayefsky, escrita como uma peça para televisão, a independente Hecht-Lancaster (produtora de Harold Hecht e do actor Burt Lancaster) adaptou o filme “Marty”para a United Artists. Este teve realização de Delbert Mann, um homem com formação de teatro, que se estreava no cinema, depois de alguns trabalhos para televisão. Essa sensibilidade teatral, inserida na corrente que levava muita gente do teatro para Hollywood, é fundamental na transposição para a tela do argumento de Paddy Chayefsky, ele próprio um homem com experiência no teatro, mas que, curiosamente começara como escritor para televisão, numa mistura entre estas várias expressões que é marcante no resultado final de “Marty”.

Com uma certa qualidade televisiva (os cenários simples, planos muito fechados, e a economia narrativa que leva a um apressado salto entre espaços), “Marty” é o remake de um telefilme de 1953, protagonizado por Rod Steiger. O filme conta a história do nominal protagonista (Ernest Borgnine), um solteirão de uma família de origem italiana, estigmatizado por todos, porque aos 34 anos ainda não casou. Nitidamente uma boa pessoa, e um tanto ou quanto tímido, Marty desistiu desse tipo de sonhos por, nas suas palavras «não ter aquilo que as mulheres procuram», isto é, assumir-se como feio. Mas um dia, num baile, apiedando-se de Clara (Betsy Blair), uma mulher abandonada pelo seu parceiro por ser feia, Marty fica toda a noite a conversar com ela, e descobre que pela primeira vez sentiu uma ligação a alguém que partilha do seu entusiasmo. Quando isso se sabe, quer no bairro onde os amigos conquistadores o gozam, quer pela mãe (Esther Minciotti), com receio de ser posta de lado, Marty sofre todo o tipo de pressões para não voltar a ver Clara, mas nada o demove de procurar a pessoa com quem se sente bem.

Num filme cujo título é o nome do protagonista, e até um diminutivo curto, não espanta que estejamos perante a história de um homem simples, de origem modesta, modos humildes, e de ambições curtas, que passam por tentar comprar o talho onde trabalha (e onde o vemos logo desde o primeiro plano), com um empréstimo que nem ele próprio entende. É também, logo nessa primeira sequência, que ouvimos alguém dizer que é uma vergonha que Marty ainda não tenha casado, e esse clima de crítica vai acompanhá-lo durante todo o filme (dir-se-ia que o acompanhou durante toda uma vida que, embora sua, foi passada à sombra das aspirações de outros). É a própria mãe que o acusa de não ter casado, enquanto os amigos o acusam de não procurar uma vida mais boémia. Por fim, quando Marty conhece alguém de quem verdadeiramente gosta, terá a crítica da mãe que teme ser posta de lado, e dos amigos que já se sentem trocados.

Essa é a história de Marty (o personagem e o filme), uma pessoa boa, e que por isso pouco conta para quem o dá por adquirido. Só que Marty encontra Clara, uma mulher habituada a ser desprezada, por não ser bela, e que encontra nele um eco das suas frustrações, e uma esperança de que, mais que a beleza, seja na relação honesta entre duas pessoas que algo mais possa nascer.

Passado em pouco mais que uma noite e um dia, “Marty” é uma pequena viagem sobre o quotidiano simples de um homem sem grande ambições, que ao encontrar um espelho numa mulher simpática e receptiva a conhecê-lo, resplandece e ganha força para agir por si, contra as pressões e solicitações daqueles que o rodeiam. Irónica é a sua história familiar (um primo que lhe implora que receba em casa a sua própria mãe, sem ser capaz sequer de o ouvir quando Marty tem dúvidas sobre um empréstimo; e uma tia que é posta de fora de casa pelo filho que precisa de privacidade com a esposa, com a concordância da irmã dela – a mãe de Marty – que logo após teme que Marty lhe faça o mesmo).

Olhar cáustico para as expectativas sobre os homens, pressão familiar e social, como uma viagem pela noite, de planos simples, um pouco ao jeito da estética noir, “Marty” é, acima de tudo, a força da interpretação de Ernest Borgnine, aqui longe dos papéis de secundário, duro e bruto, que o marcaram toda a vida, para ganhar um Oscar pela sua prestação sentida e humilde.

“Marty” tornou-se um dos filmes mais baratos (e o mais curto, com apenas 90 minutos) a receber o Oscar de Melhor Filme, prémio que acumularia com a Palma de Ouro de Cannes (um dos poucos filmes a conseguir tal feito, e o primeiro norte-americano a vencer em Cannes), justificando a aposta em actores menos conhecidos, mesmo quando a United Artists pressionara para que se escolhesse Marlon Brando, e a própria Betsy Blair chegou a estar boicotada, pela sua presença nas listas negras de McCarthy, tendo apenas mantido o papel graças à influência do seu marido de então, Gene Kelly. O filme recebeu ainda os Oscars de Melhor Realizador (Mann), Argumento (Chayefsky) e Actor (Borgnine), num total de nove nomeações.

Produção:

Título original: Marty; Produção: Hecht-Lancaster Productions [como Steven Productions]; País: EUA; Ano: 1955; Duração: 89 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 11 de Abril de 1955 (EUA), 10 de Janeiro de 1956 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Delbert Mann; Produção: Harold Hecht, Burt Lancaster [não creditado]; Produtor Associado: Paddy Chayefsky; Argumento: Paddy Chayefsky [a partir de uma história sua]; Música: Roy Webb, Harry Warren (tema “Marty”); Música Adicional: George Bassman; Fotografia: Joseph LaShelle [preto e branco]; Montagem: Alan Crosland Jr.; Direcção Artística: Ted Haworth, Walter M. Simonds; Cenários: Robert Priestley; Figurinos: Norma Koch; Caracterização: Robert J. Schiffer.

Elenco:

Ernest Borgnine (Marty Piletti), Betsy Blair (Clara), Esther Minciotti (Mrs. Piletti), Augusta Ciolli (Tia Catherine), Joe Mantell (Angie), Karen Steele (Virginia), Jerry Paris (Tommy), Frank Sutton (Ralph) [não creditado].

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