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The Country GirlFrank Elgin (Bing Crosby), um famoso actor e cantor agora em declínio, é chamado de novo ao palco pelo jovem encenador Bernie Dodd (William Holden), que quer apostar nele para seu protagonista, mesmo contra o seu próprio produtor (Anthony Ross). Quando as fragilidades de Frank começam a interferir com os seus desempenhos, Dodd visita-o, conhecendo a esposa daquele, Georgie (Grace Kelly), uma figura maternal, temerosa, e aparentemente opressiva, que Frank culpa pela sua insegurança e fuga para a bebida. É também nisso que Dodd acredita, até ir conhecendo cada vez mais o casal, e perceber que a realidade é bem diferente.

Análise:

Filmando em Hollywood desde os anos 30, George Seaton nunca deixou de ser um homem do teatro, antigo encenador e dramaturgo, que via no teatro seu contemporâneo uma fonte de inspiração, em filmes que fazem da tensão entre os seus protagonistas, e diálogos ricos e inteligentes o seu ponto mais forte. Não espanta por isso que, em plena era de influência de um teatro mais realista e de temas mais amargos da Broadway, Seaton tivesse escolhido adaptar uma peça do dramaturgo Clifford Oddets, tornando-a um dos seus mais consagrados filmes de sempre.

A partir de uma peça de 1950, já consagrada com prémios Tony, George Seaton escreveu, produziu e realizou “Para Sempre”, a história de um casamento e uma carreira teatral marcados pelo alcoolismo. No centro está Frank Elgin (Bing Crosby), outrora um famoso actor e cantor, agora em declínio, mas no qual o jovem encenador Bernie Dodd (William Holden) resolve apostar cegamente, e contra a vontade do seu próprio produtor. Só que cedo as fragilidades de Frank se tornam evidentes, e Dodd decide imiscuir-se na sua vida pessoal, conhecendo a esposa daquele, Georgie (Grace Kelly), uma figura maternal, temerosa, e aparentemente opressiva. Isso é o que Frank confirma a Dodd, contando-lhe como após o casal perder um filho, Georgie mudou, tornando-se amarga, e depressiva ao ponto de tentar o suicídio. Desesperado Frank começou a beber, o que deu a Georgie um motivo para viver, já que ao simular ser fraco, Frank fortalecia o papel da esposa. Isto enfurece Dodd, que vendo Frank falhar cada vez mais decide confrontar Georgie, para perceber que a verdade é bem diferente.

Baseado na dinâmica entre os três personagens principais (já que qualquer outro é meramente figurante), “Para Sempre” assenta principalmente no papel de Grace Kelly, a tal rapariga do campo (como o título original a nomeia) que é o vértice de um triângulo de vontades, numa luta que confronta actor e encenador. Sem maquilhagem, de modos amargurados e uma presença quase derrotada, é uma Grace Kelly bem diferente da figura glamorosa que nos habituáramos a ver, transformação essa que pode ter sido um dos motivos para o Oscar que viria a ganhar por este filme.

Se somos levados a pensar que Frank simula a sua fraqueza para estimular a esposa a um papel activo, fica patente a questão sobre a dinâmica de um casamento. Há sempre uma grande mulher atrás de um grande homem? Essa unidireccionalidade é assim tão clara, ou cada um é aquilo que precisa que o outro o deixe ser? Aos poucos vamos percebendo que quase todas as histórias de Frank são mentira, e é ele que foge de responsabilidades, tentou suicidar-se e procura que todos tenham pena dele. A história leva a uma desintoxicação (quer em termos da dependência do álcool, quer da esposa), libertando também Georgie para voltar a ser algo mais que apenas a esposa preocupada. Essa libertação põe em cheque a possibilidade de também Georgie ser já dependente de ter alguém mais fraco, como Frank nas suas fantasias sugeria. Ela é resolvida quando Georgie aceita a proposta amorosa de Dodd, resultando num final feliz para todos, agora com Frank de novo uma estrela.

Há, no desenlace do filme, diferente do da peça de teatro, uma clara cedência à lógica dos finais felizes de Hollywood, ainda que o filme, como se disse, muito graças à força de uma surpreendente Grace Kelly, mantenha as suas arestas aguçadas, prontas a ferir o espectador. É, no entanto, algo que fica a meio caminho, entre as mais famosas adaptações teatrais de então (por exemplo as de Tennessee Williams) e o filme clássico de Hollywood. Começa por haver sempre uma tendência para fugir à clausura do palco, com uma acção distribuída por muitos cenários, em sequências por vezes curtas. Temos ainda a necessidade da introdução de temas musicais, para aproveitar a voz e a fama de Bing Crosby, e há finalmente o recurso a flashbacks, para nos trazer pontos fundamentais da complexa história do casal Elgin.

Com diálogos acutilantes, Grace Kelly a dominar o filme, William Holden, então com 36 anos, seguro num papel que parece ser muitas vezes seu (o do jovem artista, em constante luta por afirmação), é Bing Crosby quem se salienta pela negativa. 26 anos mais velho que a sua pretensa esposa, Crosby, cativa com a sua voz aveludada e tom aristocrático, não convencendo no dramatismo de que o seu personagem precisa. O filme não se livra da imagem de ser um veículo para Crosby vender discos, com vários números forçados que quebram por completo a veia dramática que lhe dá vida.

Com uma forte campanha da Paramount, “Para Sempre” foi nomeado para sete Oscars, incluindo Melhor Filme, Realizador, Argumento, Actor e Actriz. George Seaton perderia os Oscars de Melhor Filme e Realizador para Elia Kazan, por “Há Lodo no Cais” (On the Waterfront, 1954), que também daria a Marlon Brando o Oscar de Melhor Actor. Restava a Seaton o Oscar de Melhor Argumento, que se juntava ao do Melhor Actriz, para Kelly, numa disputa com Judy Garland por “Assim Nasce uma Estrela” (A Star Is Born, 1954) de George Cukor, curiosamente também sobre a relação com um actor alcoólico, que todos esperavam garantisse o Oscar a Garland.

Produção:

Título original: The Country Girl; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1954; Duração: 100 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 11 de Dezembro de 1954 (EUA), 30 de Novembro de 1955 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: George Seaton; Produção: William Perlberg, George Seaton [não creditado]; Argumento: George Seaton [a partir da peça homónima de Clifford Odets]; Música: Victor Young; Orquestração: Sidney Cutner [não creditado], Leo Shuken [não creditado]; Canções: Harold Arlen (música), Ira Gershwin (letras); Fotografia: John F. Warren [preto e branco]; Montagem: Ellsworth Hoagland; Direcção Artística: Hal Pereira, Roland Anderson; Cenários: Sam Comer, Grace Gregory; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Especiais: John P. Fulton; Encenação de Sequências Musicais: Robert Alton; Director de Produção: Harry Caplan.

Elenco:

Bing Crosby (Frank Elgin), Grace Kelly (Georgie Elgin), William Holden (Bernie Dodd), Anthony Ross (Philip Cook), Gene Reynolds (Larry), Jacqueline Fontaine (Cantora), Eddie Ryder (Ed), Robert Kent (Paul Unger), John W. Reynolds (Henry Johnson).

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