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Come Back, Little ShebaLola (Shirley Booth) e Doc Delaney (Burt Lancaster) são um casal de meia-idade, que vive numa relação desgastada, sem amor, amargurada pelas perdas de ambos, e pela longa relação com o álcool de Doc, que quase lhe custou a prática da sua especialidade, homeopatia. Quando Lola aluga um quarto à jovem estudante universitária Marie Buckholder (Terry Moore), essa decisão vai ter consequências na vida do casal, com Lola a viver no entusiasmo e jovialidade de Marie aquilo que não teve, e Doc, paternalmente, a ver nas opções de Marie o medo da repetição dos erros que ele próprio cometeu no passado.

Análise:

No movimento que aconteceu na década iniciada em 1950, que levou para Hollywood um conjunto de histórias baseadas no teatro contemporâneo, um dos dramaturgos cuja obra foi bem-sucedida no cinema foi William Inge. Tudo começou com a adaptação de “Come Back, Little Sheba”, estreada na Broadway em 1950, com direito a 190 actuações, nas quais brilharam os actores Shirley Booth e Sidney Blackmer, ambos vencedores do Tony Award desse ano.

Com produção de Hal B. Wallis para a Paramount Pictures, nasceria “A Cruz da Minha Vida”, onde Shirley Booth repetiria o seu papel de palco, no que era a sua estreia no cinema. Estreante era também o realizador escolhido, Daniel Mann, um homem com experiência de palco, e que teria como principais obras no cinema algumas adaptações de peças de teatro.

“A Cruz da Minha Vida” conta a história do casal Delaney. Eles são Lola (Shirley Booth) e Doc (Burt Lancaster), num momento em que se percebe viverem um casamento gasto, sem emoção ou esperança, e marcado pelo alcoolismo de Doc e uma abnegação alienada de Lola. A chegada de Marie Buckholder (Terry Moore), uma jovem estudante a quem Lola aluga um quarto, vem quebrar a paz podre que se vivia então na casa dos Delaney, trazendo tensões e reavivando dores do passado.

No espelho e comentários ao exemplo de Marie (que Lola admira pela jovialidade, como a filha que não teve, e Doc, cinicamente critica pelos erros previsíveis, como a lembrança das opções passadas de que se ressente), aos poucos vamos descobrindo o que atormenta os Delaney. E tal foi um namoro que levou a uma gravidez imprevista, apressou um casamento não planeado e fez com que Doc tivesse de desistir do seu curso de medicina, enquanto Lola teria a infelicidade de dar à luz um nado morto. O casamento continuou, sem amor, sem alegria, com Doc a entregar-se à bebida e a momentos de violência, alienando a sua vida, enquanto Lola se refugia numa patetice alegre de veneração por um Doc que já não existe, e memórias de uma vida que nunca tiveram, onde a obsessão com a cadelinha perdida, Sheba, é metáfora para a inocência e os sonhos que já não voltam.

Filmado quase todo em casa dos Delaney (exceptuando-se alguns planos da entrada, e duas ou três saídas – a reunião dos alcoólicos anónimos, o hospital), o filme de Daniel Mann respeita a lógica do teatro, sabendo dar-lhe alguma da linguagem cinematográfica (riqueza de planos, montagem, decoupage), sem perder a unidade do espaço da componente teatral.

Como não podia deixar de ser, “A Cruz da Minha Vida” tem os seus pontos fortes na intensidade dramática, diálogos acutilantes (com um enorme respeitar dos diálogos de Inge), e interpretações soberbas tanto de Shirley Booth (que repetindo o papel do teatro, venceria o Oscar e Globo de Ouro desse ano pelo filme), como de Burt Lancaster, que, ao que consta, lutou pelo papel que teve muitos outros interessados, vencendo a corrida, mesmo quando era mais novo (38 anos apenas) que o personagem que iria interpretar.

Não menosprezando a actuação alegre e segura de Terry Moore, é da interacção entre Shirley Booth e Burt Lancaster que “A Cruz da Minha Vida” se faz. Como se falassem uma linguagem exclusiva, em que só aos poucos, por pistas em frases perdidas aqui e ali, nos deixasse adivinhar as camadas de vida, de desilusão e de amargura de que se faz a sua história conjunta.

Tal como podia ser previsto pelo conhecimento da obra de Inge, um dramaturgo habituado a ir ao âmago das limitações humanas, nos erros que privam o indivíduo dos caminhos desejados, “A Cruz da Minha Vida” é um filme que dói pelo seu realismo, por quase conhecermos os personagens, por sentirmos com eles mágoas que sabemos serem universais.

O filme foi um sucesso junto da crítica, firmando desde logo o nome de Daniel Mann, e dando-lhe, para além dos prémios já citados, nomeações aos Oscars de Melhor Actriz Secundária (Terry Moore) e Melhor Montagem.

Shirley Booth e  Burt Lancaster em "A Cruz da Minha Vida" (Come Back, Little Sheba, 1952) de Daniel Mann

Produção:

Título original: Come Back, Little Sheba; Produção: Paramount Pictures; País: EUA; Ano: 1952; Duração: 93 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 24 de Dezembro de 1952 (EUA), 3 de Abril de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Daniel Mann; Produção: Hal B. Wallis; Argumento: Ketti Frings [baseado na peça homónima de William Inge]; Música: Franz Waxman; Fotografia: James Wong Howe [preto e branco]; Montagem: Warren Low; Direcção Artística: Hal Pereira, Henry Bumstead; Cenários: Sam Comer, Ross Dowd; Figurinos: Edith Head; Caracterização: Wally Westmore; Efeitos Visuais: Gordon Jennings.

Elenco:

Burt Lancaster (Doc Delaney), Shirley Booth (Lola Delaney), Terry Moore (Marie Buckholder), Richard Jaeckel (Turk Fisher), Philip Ober (Ed Anderson), Edwin Max (Elmo Huston), Lisa Golm (Mrs. Coffman), Walter Kelley (Bruce Cunningham).

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