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Death of a SalesmanWilly Loman (Frederic March), um velho caixeiro-viajante, orgulhoso dos anos de estrada, mas hoje pouco reconhecido, com uma carteira de clientes a definhar, e pago à comissão por vendas que mal consegue fazer. Quando Biff (Kevin McCarthy), o seu filho mais velho, chega a casa depois de deixar a Universidade no Texas, o conflito inicia-se. Por um lado Willy vê os seus sonhos para Biff e Happy (Cameron Mitchell) serem frustrados. Por outro, através da mãe (Mildred Dunnock), Biff começa a perceber que o pai está falido, e à beira de perder a sanidade.

Análise:

“A Morte de Um Caixeiro Viajante” foi a adaptação que a Stanley Kramer Productions fez, para a Columbia, da peça de Arthur Miller “Death of a Salesman” que vencera em 1949 os prémios Tony e Pulitzer para teatro. Para tal, Kramer, um homem com sensibilidade para a dinâmica de palco, entregou a realização a Laslo Benedek, e contratou como actores principais, Cameron Mitchell, Mildred Dunnock e Howard Smith, todos eles repetindo os papéis da Broadway. Já no papel do protagonista, o actor Lee J. Cobb foi substituído por Frederic March, que curiosamente rejeitara o papel na produção original para teatro.

No centro da história está Willy Loman (Frederic March), um caixeiro-viajante na costa Leste dos EUA, orgulhoso de uma carreira na estrada, onde fez inúmeras amizades, e deixou um nome respeitado. Só que Willy envelheceu, os seus antigos clientes já morreram, hoje é pouco reconhecido, e a sua empresa paga-lhe à comissão por vendas que ele mal consegue fazer. O orgulho de Willy são os dois filhos Biff (Kevin McCarthy) e Happy (Cameron Mitchell), principalmente o primeiro, para quem Willy sonha com um futuro de grandeza.

Mas Biff, chegado a casa depois de estudar e trabalhar no Texas, tem outros planos, o que o faz entrar imediatamente em conflito com o pai. É através da mãe (Mildred Dunnock) que Biff começa a perceber o que se passa. Falido, forçado a viver de esmolas, Willy começou a entrar num mundo de ilusão, onde fala incansavelmente com sombras do seu passado, recordando tempos felizes e opções que, se tomadas, o poderiam ter tornado rico. Incapaz já de distinguir realidade e fantasia, Willy comporta-se como um louco, algo que a esposa, por vergonha, vai tentando mitigar.

Das diligências de Willy para obter algum dinheiro, e dos confrontos com os filhos, a verdade vai-se revelando. Biff, que já há muito descobrira as mentiras do pai, deixou-se cair num mundo sem esperança, onde vai queimando oportunidades, por nunca conseguir estar à altura dos sonhos para si sonhados. Resta a Willy uma última oportunidade de dar à família aquilo que nunca pode, graças ao seu seguro de vida.

Com um argumento escrito por Stanley Roberts, sem a participação de Miller, o qual foi muito crítico do resultado final, o filme foi fiel à história e usou os diálogos originais. Segundo o dramaturgo, foi errada a truncagem algumas cenas fundamentais, e também a opção na representação dos delírios do protagonista. Este é o ponto fundamental de “A Morte de Um Caixeiro Viajante”, que começamos por ver chegar a casa abatido por mais um fracasso, para se entregar, durante a noite, a uma sequência de delírios que o colocam a falar com os seus filhos anos antes, com o irmão Ben (Royal Beal), já falecido, e em conversas com a esposa e uma amante ocasional (Claire Carleton). Para tal, com mudanças de luz, Benedek usa os mesmos cenários, onde os personagens das cenas fantasiosas vão surgindo, partilhando o espaço com as cenas reais, transformando-o apenas na imaginação do protagonista. Isto dá uma grande unidade espacial, onde um cenário se torna momentaneamente flashback e logo depois ilusão, com os personagens reais por vezes a interferirem para chamar Willy à realidade. O expediente é engenhoso, mas algo exigente, e não muito bem aceite pelo público, nem pelo autor.

Do lado de Benedek fica a tal unidade espacial, poucas vezes quebrada (escritórios, corrida pelo metro, cena ao volante, restaurante), onde quase todo o filme decorre na casa e quintal dos Loman, num cenário negro, de habitação pobre, como se pretendia ilustrar uma família que é vítima de um sonho americano não concretizado, mas vive ainda na sua ilusão.

“A Morte de Um Caixeiro Viajante” é, por isso, guiado pelo personagem de Willy Loman, que representa o fracasso do tal sonho americano. Willy é um homem de meia-idade, vítima de uma sociedade que prometeu muito, mas não soube cuidar dos seus sonhos. Hoje não tem amigos, é desprezado pelos colaboradores, e a sua posição é motivo de vergonha para os filhos, que não suportam mais as suas conversas de grandeza. Willy, um vendedor, não consegue vender a sua imagem, nem o seu sonho aos que estão mais próximos, e que, como se vem demonstrando pelo filme dentro, vivem de certo modo como vítimas desse sonho de grandeza a que sabem não poder vir a corresponder. É esse o drama de Biff, que sabe nunca será ninguém, e de Happy, que, como o nome indica, se refugia numa vida alegremente fútil, dedicada às mulheres que conquista.

Tal como o cenário e a loucura de Willy, os diálogos são amargos, como se a incompreensão dominasse, apesar dos esforços daquela que parece a mais sã das personagens, a esposa Linda, que vivendo numa aparente negação, o faz propositadamente, por não conseguir causar sofrimento naqueles que ama, sobretudo no marido.

Esta atmosfera de fracasso afastou o público, que nunca esteve com um filme que, por outro lado, a crítica elogiou fortemente. Em consequência “A Morte de Um Caixeiro Viajante” conquistou quatro Globos de Ouro (incluindo o de Melhor Actor para Fredric March), a Taça Volpi do Festival de Veneza, e nomeações para cinco Oscars.

A peça de Miller seria várias vezes adaptada ao cinema e televisão, sendo a mais famosa o telefilme de 1985, realizado por Volker Schlöndorff, e interpretado por Dustin Hoffman e John Malkovich.

Cameron Mitchell, Kevin McCarthy e Fredric March em "A Morte de Um Caixeiro Viajante" (Death of a Salesman, 1951) de Laslo Benedek

Produção:

Título original: Death of a Salesman; Produção: Stanley Kramer Company; País: EUA; Ano: 1951; Duração: 111 minutos; Distribuição: Columbia Pictures; Estreia: 20 de Dezembro de 1951 (EUA), 3 de Novembro de 1953 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Laslo Benedek; Produção: Stanley Kramer; Produtor Associado: George Glass; Argumento: Stanley Roberts [baseado na peça de Arthur Miller]; Música: Alex North; Direcção Musical: Morris Stoloff; Orquestração: Maurice De Packh [não creditado]; Fotografia: Franz Planer [preto e branco]; Montagem: William A. Lyon; Design de Produção: Rudolph Sternad; Direcção Artística: Cary Odell; Cenários: William Kiernan; Caracterização: Clay Campbell; Director de Produção: Clem Beauchamp.

Elenco:

Fredric March (Willy Loman), Mildred Dunnock (Linda Loman), Kevin McCarthy (Biff Loman), Cameron Mitchell (Happy Loman), Howard Smith (Charley), Royal Beal (Ben), Don Keefer (Bernard), Jesse White (Stanley), Claire Carleton (Miss Francis), David Alpert (Howard Wagner).

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