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A Streetcar Names DesireBlanche Dubois (Vivien Leigh) chega do Mississipi a Nova Orleães, para visitar a irmã Stella (Kim Hunter). Aparentemente chegada para uma curta visita, Blanche vai ficando indefinidamente para desagrado do cunhado, Stanley Kowalsky (Marlon Brando). Aos poucos, e pressionada por Stanley, Blanche vai contando que perdeu a propriedade de família, enquanto Stanley descobre que Blanche teve que fugir depois de ser despedida e de se descobrir a vida de devassidão que levava. Incapaz de encarar os factos, Blanche vai vivendo num mundo de memórias e ilusões, no qual tenta conquistar um marido, como Mitch (Karl Malden).

Análise:

Um ano depois de a peça de Tennessee Williams “The Glass Menagerie” ter chegado ao cinema pelas mãos de Irving Rapper, como o filme “Algemas de Cristal” (1950), foi a vez de “A Streetcar Named Desire”, do mesmo autor, estreada na Broadway em 1947 (e vencedora do Pulitzer Prize desse ano), que sob a direcção de Elia Kazan, e com Marlon Brando, Jessica Tandy, Kim Hunter e Karl Malden no elenco original, teve 855 actuações.

Seria o mesmo Elia Kazan que realizaria para o produtor independente Charles K. Feldman o filme “Um Eléctrico Chamado Desejo”, com argumento do próprio Tennessee Williams (que segundo consta exigiu Kazan na direcção por não confiar que outro respeitasse tanto a sua obra), e um elenco próximo do da Broadway, onde só Jessica Tandy seria substituída, por Vivien Leigh (pois o seu nome era mais sonante), integrante do elenco da peça na sua versão londrina, dirigida por Laurence Olivier.

Como sempre nas obras de Williams, temos em “Um Eléctrico Chamado Desejo” um drama passado em ambiente familiar, acentuado por tensões que passam por dificuldades em lidar com a realidade, necessidade de manter aparências, fugas para a alienação, tensões sexuais e desejos frustrados, e uma qualquer mágoa passada a ensombrar. Enfim, todos os ingredientes que marcaram o que se passou a chamar “Southern Gothic”, que teve expoentes em autores como William Faulkner, Carson McCullers e Flannery O’Connor.

Desta vez temos a história de Blanche Dubois (Vivien Leigh), uma antiga southern belle (nome tradicional do sul dos Estados Unidos para as beldades de famílias finas), cuja idade se mantém elusiva, provinda da propriedade de família no Mississipi, para visitar a irmã Stella (Kim Hunter), que vive com o marido nos subúrbios pobres de Nova Orleães. Não especificando ao que vem, por quanto tempo, ou como conseguiu licença da escola onde ensinava, Blanche não vai passar o escrutínio do cunhado Stanley Kowalsky (Marlon Brando), um polaco, rude e com tendências para a violência, pouco inclinado a aceitar os ares de superioridade da cunhada que repreende Stella por ter casado abaixo dos padrões da antiga família. Stanley exige saber o que aconteceu à propriedade da família no Mississipi, que Blanche apenas diz que se perdeu. Aos poucos a verdade vai sendo revelada, muito porque Stanley investiga com amigos viajantes. Assim descobre que Blanche perdeu tudo para hipotecas, que passou a entreter homens em hotéis, tendo inclusivamente sido expulsa da escola onde ensinava. Recusando-se a encarar a verdade, Blanche vai fingindo que tudo está bem, vivendo num mundo de ilusão, no qual espera um pretendente, que vê em Mitch (Karl Malden), um amigo de Stanley. Só que quando Stanley revela a verdade e Mitch rejeita Blanche, e de se dar uma (apenas sugerida) violação, esta vai ter o colapso final que a afasta para sempre da realidade.

Era mais uma vez o teatro a moldar Hollywood, pelas mãos de dois dos maiores nomes desta nova vaga. Por um lado o argumentista e dramaturgo Tennessee Williams, de cuja pena sairiam alguns dos filmes mais corrosivos da década, imersos em temas de conflito familiar, tensão sexual e problemas psicológicos, como poucas vezes antes haviam sido abordados no cinema. Por outro era a mão do realizador, Elia Kazan, ele próprio um homem com experiência de teatro, e que, pela necessidade de trazer para o ecrã a intensidade e espontaneidade das interpretações de palco, criou em 1947 o Actors Studio, que transformaria para sempre Hollywood.

Kazan dirige “Um Eléctrico Chamado Desejo” respeitando muito da lógica teatral, com um cenário que é em grande parte o exíguo espaço de Stanley e Stella, e um elenco muito familiarizado com a peça original. Não deixa, no entanto de usar a linguagem cinematográfica, seja nas passagens para o exterior do apartamento (exceptuando a chegada de Blanche no eléctrico, o seu encontro com Stella no salão de bowling, uma cena de dança e um plano da fábrica de Stanley, todo o filme se passa ou no apartamento, ou no recinto em sua frente), seja no uso dos sons e música, que muitas vezes toca apenas na cabeça de Blanche, seja ainda no uso de close-ups e movimentos de câmara que acentuam o dramatismo de algumas cenas.

Kazan filma o apartamento como um personagem (o espaço como personagem é uma característica do gótico), pelas portas, cortinas, janelas, objectos que interferem nas conversas e distraem da acção (por exemplo o rádio), o modo como a falta de privacidade coloca Blanche sempre a dois passos de Stanley, como os ruídos de um incomodam sempre o outro, o espelho do casal que vive no andar de cima, as visitas que vão trazendo alguma distracção a Blanche, etc. Na verdade o apartamento foi construído com paredes móveis, para poderem ser apertadas criando, no decorrer do filme, uma maior sensação de claustrofobia.

E Blanche é o centro de tudo. Com um passado que aos poucos se vai descobrindo ter muito pouco de recomendável e de coerente com os altos valores que ela defende, Blanche Dubois vive numa ilusão de um passado aristocrático no rural Mississipi, recordando o seu primeiro amor, sonhando com regressos à grandeza. Mas aos poucos descobrimos que há todo um mundo que Blanche renega. Seja o da mágoa de ter causado a morte do primeiro marido, seja o facto de não conseguir viver o fascínio dos desejos carnais (ideia marcada no próprio título, onde “Desejo” é um transporte que leva a algum lugar), que rejeita na relação quase bruta e visceral de Stanley e Stella (note-se o quanto a presença e toques inusitados em Stanley a incomoda, o qual usa sempre camisolas justas, para acentuar o seu corpo).

É assim, num construir de alienação, feita de reinterpretações falsas de factos passados, ilusões descabidas, e uma constante fuga dos assuntos, em refúgios mecânicos, como seja uma conversa banal ou a escolha de uma roupa, que Blanche vai criando uma cada vez maior barreira entre si própria e a realidade, ao ponto de uma desilusão final (a revelação que vai pôr Mitch contra si), a fazer cair de vez na loucura.

Embora o filme siga o espírito da peça de Williams, algumas alterações foram introduzidas, com vista a superar o Código de Hays. Entre elas o motivo da morte do marido de Blanche, que na peça foi por suicídio depois de se ter descoberto a sua homossexualidade (tema caro a Williams). Alterado foi também o final, que no filme mostra Stella a deixar Stanley, enquanto na peça mostra a aceitação do casal pelo que ele é. Uma versão Director’s Cut seria editada já no final do século XX com alguns minutos extra de imagens cortadas pela censura.

“Um Eléctrico Chamado Desejo” foi um sucesso imediato, com a realização, a história e as interpretações de um Brando em início de carreira e uma Vivan Leigh já consagrada a merecerem rasgados elogios desde então. O filme ganhou quatro Oscars, sendo o primeiro filme a ganhar três Oscars de interpretação, Melhor Actriz Principal (Leigh), Melhor Actor Secundário (Malden) e Melhor Actriz Secundária (Hunter), além do Oscar de Melhor Direcção Artística, num total de doze nomeações.

Vivien Leigh e Marlon Brando em "Um Eléctrico Chamado Desejo" (A Streetcar Named Desire, 1951) de Elia Kazan

Produção:

Título original: A Streetcar Named Desire; Produção: Charles K. Feldman Group; País: EUA; Ano: 1951; Duração: 125 minutos; Distribuição: Warner Bros. Pictures; Estreia: Setembro de 1951 (Festival Internacional de Veneza, Itália), 18 de Setembro de 1951 (EUA), 14 de Novembro de 1952 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Elia Kazan; Produção: Charles K. Feldman; Argumento: Tenessee Williams; Adaptação: Oscar Saul [a partir da peça homónima de Tenessee Williams]; Música: Alex North; Direcção Musical: Ray Heindorf; Fotografia: Harry Stradling Sr. [preto e branco]; Montagem: David Weisbart; Direcção Artística: Richard Day, Bertram Tuttle [não creditado]; Cenários: George James Hopkins; Guarda-roupa: Lucinda Ballard; Caracterização: Gordon Bau.

Elenco:

Vivien Leigh (Blanche Dubois), Marlon Brando (Stanley Kowalski), Kim Hunter (Stella Dubois), Karl Malden (Mitch), Rudy Bond (Steve), Nick Dennis (Pablo), Peg Hillias (Eunice), Wright King (Cobrador), Richard Garrick (Médico), Ann Dere (A Matrona), Edna Thomas (Mulher Mexicana).

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