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The Glass MenagerieLaura Wingfield (Jane Wyman) é uma mulher solteira, com uma deficiência numa perna, para quem a sua mãe, Amanda (Gertrude Lawrence) quer insistentemente encontrar um pretendente, temendo que esteja a passar a sua idade de casar. Quem fica com o encargo é o irmão Tom (Arthur Kennedy), que sonha viajar e ser escritor, farto da prisão em que se torna a influência da sua mãe. No dia em que Tom traz para jantar o seu colega Jim O’Connor (Kirk Douglas), todos anseiam que tal traga uma mudança na vida de Laura, cujo único interesse são figurinhas de vidro que colecciona avidamente.

Análise:

Em 1945 a peça de Tennessee Williams “The Glass Menagerie”, estreava na Broadway. Seria o maior sucesso do dramaturgo até então, e aquela que o projectaria como um dos mais importantes autores de teatro do século XX. Era também a sua peça mais pessoal (com personagens inspirados em si próprio e na sua família), e uma abertura de portas para Hollywood, ávida de sangue e ideias novas.

De facto, notava-se uma abertura na indústria do cinema, desejosa de incorporar ideias (e pessoas) vindas do teatro, onde tudo parecia mais real, menos glamoroso, e onde os temas eram mais duros e complexos, quando comparados com as ideias repetitivas de heróis bidimensionais que pululavam na tela. Foi no final dos anos 40, então já um enorme sucesso na Broadway, que, pela mão da Warner Bros. Williams chegou a Hollywood, onde colaboraria no argumento da sua própria peça, que ajudou a transformar no filme “Algemas de Cristal”, com realização de Irving Rapper, ele próprio um antigo actor e encenador da Broadway. Não espanta por isso que o filme de Rapper mantenha toda a atmosfera do palco, com quase toda a acção a decorrer numa única sala, exceptuando-se alguns planos no exterior, uma sequência no emprego de um personagem, uma saída para um clube, e o prólogo num navio.

A acção decorre na casa dos Wingfield, família dominada pela antiga beldade sulista Amanda (Gertrude Lawrence), que ainda lamenta o abandono do marido (ausente, mas dominando o ambiente com a sua fotografia), dezasseis anos antes. Com ela vivem os filhos Tom (Arthur Kennedy) e Laura (Jane Wyman). Mas se Tom é rebelde, em constante conflito com a mãe, pois o seu sonho é largar a prisão caseira, ir correr mundo e tornar-se escritor, já Laura parece demasiado frágil. Criatura tímida, afligida por uma deficiência numa perna, parece ter apenas interesse pelas suas figuras de vidro, para desespero da mãe que quer à força arranjar-lhe pretendente. Tudo parece poder mudar quando Tom traz consigo, para jantar, o colega Jim O’Connor (Kirk Douglas). Tal resulta no enorme esforço de Amanda para ter a casa e a filha mais apresentável. Mas, embora Laura e Jim tenham um serão agradável, cedo ela percebe que não deve ter esperanças muito elevadas.

Com uma acção sempre dominada pela figura de Amanda, numa prestação brilhante de Gertrude Lawrence (curiosamente no seu último filme), “Algemas de Cristal” é guiado pelos diálogos inteligentes e sinuosos de Tennessee Williams. Cedo se percebe que o tema é único: encontrar um «gentleman caller» para Laura. Tal coloca-nos numa tensão que é a dos Wingfield, colocando todas as suas esperanças (e as nossas) numa noite de jantar.

Assim, como que cada personagem vai desenhando mais uma linha na história, dando-lhe camadas que a tornam dura, mas terna. À obstinação quase cega de Amanda junta-se a fragilidade e introversão trazidas por Laura (espelhadas pelas frágeis figuras de vidro), o cinismo cáustico, mas bondoso, de Tom, e o carisma e charme de Jim. Todos os actores brilham em igual medida, ninguém ofuscando ninguém, mesmo que a interpretação de Gertrude Lawrence não tenha caído bem num público pouco habituado a ir ao teatro.

Com um personagem que quer sair de casa para ser escritor, uma irmã frágil que ao ficar para trás vai perder o controlo da sua vida, e uma mãe dominadora, são muitos os pontos de contacto entre a história e o próprio Tennessee Williams. Também por isso ela tem visto o seu sucesso continuar a crescer, o mesmo acontecendo com o filme de Rapper, na altura merecendo algumas reacções ambíguas (o próprio Williams ficou insatisfeito), hoje considerado um clássico, e um dos filmes que mais ajudou a abrir a porta de Hollywood para os ventos que sopravam do teatro mais sério da Broadway.

Kirk Douglas, Gertrude Lawrence, Jane Wyman e Arthur Kennedy em "Algemas de Cristal" (The Glass Menagerie, 1950) de Irving Rapper

Produção:

Título original: The Glass Menagerie; Produção: Charles K. Feldman Group; País: EUA; Ano: 1950; Duração: 107 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 28 de Setembro de 1950 (EUA), 7 de Março de 1952 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Irving Rapper; Produção: Jerry Wald, Charles K. Feldman; Argumento: Tennessee Williams, Peter Berneis [a partir da peça de Tennessee Williams]; Música: Max Steiner; Orquestração: Murray Cutter; Fotografia: Robert Burks [preto e branco]; Montagem: David Weisbart; Direcção Artística: Robert M. Haas; Cenários: William Wallace; Figurinos: Milo Anderson; Caracterização: Perc Westmore.

Elenco:

Jane Wyman (Laura Wingfield), Kirk Douglas (Jim O’Connor), Gertrude Lawrence (Amanda Wingfield), Arthur Kennedy (Tom Wingfield), Ralph Sanford (Mendoza), Ann Tyrrell (Balconista), John Compton (Jovem), Gertrude Graner (Instrutora).

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