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SarabandAcompanhando os personagens Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) 30 anos depois dos acontecimentos de “Cenas da Vida Conjugal” (Scener ur ett äktenskap, 1973), a história começa quando Marianne decide fazer uma visita surpresa a Johan, que vive em retiro numa casa de campo. Aí, Marianne e Johan recordam o passado e buscam alguma ternura. Ao mesmo tempo, numa casa vizinha, Henrik (Börje Ahlstedt), filho de um anterior casamento de Johan, treina a sua própria Karin (Julia Dufvenius) no violoncelo, a qual procura escapar às amarras do pai. Odiado pelo pai, Henrik vive ainda o desgosto da morte da esposa Anna, enquanto tenta tudo para que Karin não o deixe para estudar no estrangeiro.

Análise:

“Saraband” foi o último filme de Ingmar Bergman, o qual continuava a trabalhar exclusivamente para televisão, e desde o seu mais recente filme exibido nos cinemas, “Na Presença do Palhaço” (Larmar och gör sig til, 1997), apenas trabalhara no teatro filmado “Bildmakarna” (The Image Makers, 2000), uma peça de Per Olov Enquist. Tanto a reputação de Bergman, como o facto de no seu novo filme voltar pegar nos personagens de Marianne (Liv Ullmann) e Johan (Erland Josephson) de “Cenas da Vida Conjugal” (Scener ur ett äktenskap, 1973), “Saraband” foi aclamado como uma espécie de regresso, e acabaria por ter exibição cinematográfica internacional.

O filme foi descrito como uma continuação do célebre “Cenas da Vida Conjugal”, voltando a pegar nos mesmos protagonistas, 30 anos depois de os termos deixado. Estruturado com um prólogo, dez capítulos (com um flashback – Karin que corre pela floresta – que parece saído de um outro filme, por exemplo a “A Fonte da Virgem”, de 1960) e um epílogo, “Saraband” inicia-se com Marianne revisitando o passado através de uma série de fotografias, que nos dão conta do que se passou nesses 30 anos, e a faz sentir saudade de Johan, decidindo visitá-lo no seu retiro na montanha. Aí Marianne (a início um pouco incomodada sobre se devia ou não concretizar a visita) encontra um Johan muito idoso, também ele confuso com a visita, que passa por algum recordar dos tempos passados, mas é sobretudo um momento para confissões e partilha de ternura.

Marianne descobre então que perto, numa cabana junto ao lago, vivem Henrik (Börje Ahlstedt), filho de um anterior casamento de Johan, e Karin (Julia Dufvenius), filha de Henrik. Ambos músicos, Henrik é professor de Karin, treinando-a para que esta entre no Conservatório de Estocolmo. Entre eles predomina a memória de Anna, mulher de Henrik, morta de cancro dois anos antes. Como observadora privilegiada, Marianne vai sendo confessora de todas as personagens. Assim ela (e nós) descobre que Henrik, ainda amargurado pela morte da esposa, colocou sobre os ombros de Karin a responsabilidade de ser toda a companhia de que ele precisa. Por essa razão Karin sente o peso do pai como uma âncora que a não a deixa viver as suas próprias escolhas. Por outro lado, Johan despreza o filho como fraco, vingando-se de este nunca o ter aceitado como pai quando crescia. Ao aperceber-se do quanto Henrik coloca sobre a filha, Johan, tomando o partido desta, vai fazer o possível para a convencer a deixar o pai.

Filmado com cores quentes (e com a contribuição de cinco fotógrafos), numa brilhante fotografia digital, Bergman faz com que todos os capítulos sejam diálogos de duas únicas pessoas, percorrendo todas as combinações possíveis entre os quatro protagonistas. A um momento inicial de relacionamento um tanto ou quanto atrapalhado entre Marianne e Johan, somos levados a imergir na vida de Henrik e Karin. Esta é uma relação doentia entre pai e filha (e de contornos claramente incestuosos), de sufoco, acusações e chantagens psicológicas, que encontra paralelo na relação imperfeita de Henrik com a já desaparecida (mas presente em todo o filme) Anna. Através da nominal sarabanda (sempre a música clássica a pontuar os andamentos do filme, da sarabanda ao órgão de Bach, ou à sinfonia de Bruckner que Johan ouve), relação musical que une os protagonistas, assistimos aos diversos conflitos e necessidades de afirmação (note-se a sensualidade no tocar do violoncelo por parte de Karin, num dueto com o seu pai).

O tema principal é, como tantas vezes em Bergman, o do envelhecimento, e consequente solidão. Henrik vê na filha a salvação que o retire de uma solidão a que a morte de Anna o votara, e o perceber que não pode adiar a separação vai acabar com ele. Pelo seu lado, Johan finge aceitar esse isolamento, que agora é apenas pasto para memórias e arrependimentos. Estes são partilhados por Marianne que, ao fim de uma vida, quer confessar, sem ter a quem, que perdeu o homem que sempre amou. E perda é, afinal, o sentimento transversal, na imagem de Anna (presente numa foto sempre pronta a ser exibida), a cola que todos unia, a esperança que todos conquistava, a perda que todos agora lamentam.

Há algo de autobiográfico em “Saraband”, com a figura de Anna a surgir como dedicatória a Ingrid von Rosen, esposa de Bergman de 1971 a 1995, altura da sua morte, por cancro, num filme onde o espectro da solidão e da caminhada final para a morte (como exemplificada no estado da quase vegetativa Martha) é tema fundamental. Nesse sentido, Erland Josephon é mais uma vez o alter ego do próprio Bergman, arrogante, teimoso, com muitas pontes quebradas e inconfessáveis dores de alma, que se resigna a nunca resolver.

Mas acima de tudo, “Saraband” é um filme de consciencialização pelo confronto, seja a de Johan que nunca aceitará o filho, a de Henrik de que nunca ultrapassará a morte de Anna, a de Karin de que precisa de se libertar do pai, e a de Marianne de que nunca foi feliz como havia sido com Johan. Entre a perda de quem envelhece e a energia de quem ousa por ainda ser jovem, o filme é um olhar de auto-avaliação onde erros do passado e do futuro convivem, naquilo que é, afinal, a imperfeição da condição humana.

Por isso o filme move-se entre amargura e ternura, entre planos futuros e olhares para o passado, entre as citadas cores quentes da casa de Johan, e os cenários frios da casa do lago. Sempre com a habitual intensidade bergmaniana, longos monólogos, e um explorar doloroso de sentimentos universais, e uma procura de intimidade e contacto humano, nem que seja a fugaz forma como os corpos envelhecidos de Johan e Marianne partilham uma noite de insónia, ou um leve olhar da filha Martha que faz Marianne crer que por uma vez houve um toque entre as duas.

Para a posteridade, “Saraband” é a última obra de Bergman, um filme digno do melhor da carreira do original autor sueco, e uma despedida sentida, quente e coerente com um percurso único, e hoje por tantos imitado.

Erland Josephson e Julia Dufvenius em "Saraband" (2003) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Saraband; Produção: SVT Fiktion / Danmarks Radio (DR) / Norsk Rikskringkasting (NRK) / RAI Radiotelevisione Italiana / Yleisradio (YLE 1) / Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF) / ZDF Enterprises / Network Movie Film-und Fernsehproduktion / Österreichischer Rundfunk (ORF) / Nordiska TV-Samarbetsfonden / Nordisk Film- & TV-Fond; Produtora Executiva: Pia Ehrnvall; País: Suécia / Dinamarca / Noruega / Itália / Finlândia / Alemanha / Áustria; Ano: 2003; Duração: 112 minutos; Estreia: 1 de Dezembro de 2003 (Suécia – TV), 10 de Julho de 2004 (Itália), 13 de Janeiro de 2005 (Cinema Alvaláxia, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Johan Sebastian Bach, Anton Bruckner, Johannes Brahms; Orquestração: ; Fotografia: Raymond Wemmenlöv, Per-Olof Lantto, Sofi Stridh, Jesper Holmström, Stefan Eriksson [fotografia digital]; Montagem: Sylvia Ingemarsson; Design de Produção: Göran Wassberg; Figurinos: Inger Pehrsson; Caracterização: Cecilia Drott.

Elenco:

Liv Ullmann (Marianne), Erland Josephson (Johan), Börje Ahlstedt (Henrik), Julia Dufvenius (Karin), Gunnel Fred (Martha).

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