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Sakura no mori no mankai no shitaUm rude salteador da montanha (Tomisaburō Wakayama) assalta um grupo de caminhantes, matando os homens e raptando a mulher (Shima Iwashita), por quem se apaixona de imediato e toma por sua. A troco da dependência sexual do salteador, ela começa prontamente a acossá-lo, martirizando-o com os seus caprichos e exigências, que vão desde fazê-lo matar todas as suas anteriores esposas, que ele mantinha como empregadas, a enviá-lo numa senda assassina em busca de cabeças que ela usa nos seus teatros macabros. Em breve o salteador começa a pensar fugir, sempre com o pensamento na lendária loucura que espreita nos campos de cerejeiras em flor.

Análise:

Masahiro Shinoda tornou-se notado durante o período da Nova Vaga do cinema japonês, que surgiu a meio dos anos 1960. Tendo trabalhado numa grande diversidade de géneros, em 1975 Shinoda assinou, ainda numa estética que se relacionava com a chamada «Era dourada», um drama macabro inspirado no romance de Ango Sakaguchi, e que se intitulou em inglês “Under the Blossoming Cherry Trees”.

Partindo da lenda de que os campos de cerejeiras em flor causam loucura a quem por eles passa quando as flores caem, Masahiro Shinoda conta a história do ladrão das montanhas (Tomisaburō Wakayama) que um dia se apaixona por uma mulher (Shima Iwashita), que rapta após matar os seus companheiros de viagem. Levando-a para a sua casa na montanha, o ladrão cedo percebe que a mulher é muito dominadora, forçando-o a matar as mulheres que ele antes raptara e eram agora suas empregadas. Daí a mulher exige mudar-se para a cidade, para ter vestidos e jóias que o marido lhe conseguirá roubando. Não satisfeita vai exigindo que o marido lhe traga cabeças das pessoas que mata, para com elas fazer teatros em casa. Aos poucos será ela a decidir quem o marido mata, em função dos «personagens» que ela precisa para as suas mórbidas peças. Tal leva o ladrão tentar deixá-la, e deixar-se apanhar, conseguindo finalmente fugir para levar a mulher de novo para as montanhas. Mas a passagem pelos campos de cerejeiras vai enlouquecê-lo, vendo a mulher como um demónio, que prontamente mata.

Com a lenda em pano de fundo (introduzida na sequência inicial por uma voz infantil dos nossos dias), numa história que remete ao período Edo (um período de transição social, com o estabelecimento do xogunato e a perda de influência dos samurais), o que Masahiro Shinoda nos conta é uma história macabra de decadência, passada com um casal (Tomisaburō Wakayama e Shima Iwashita), ele um rude e violento salteador da montanha, ela uma refinada e manipuladora e belíssima mulher da cidade. E se a sequência inicial, com o salteador a matar impiedosamente um grupo de viajantes para os roubar, nos faz pensar ser ele o dominador nesta história, cedo as aparências se desfazem. É, na verdade, a mulher quem domina, passando de presa a predadora num ápice, logo desde o momento em que exige ser carregada, e acusando o salteador de falta de força ou coragem.

Implicitamente há uma história de dependência sexual (estamos já nos anos 70, e a nudez feminina e alusões ao sexo são normais na Nova Vaga), através da qual a esposa controla o marido, levando-o a fazer tudo o que ela quer, desde matar as suas anteriores esposas-empregadas, até passar a andar pela cidade a cortar cabeças a pedido dela, para lhe satisfazer os caprichos de construir teatrinhos caseiros com as cabeças decepadas. Com tal onda criminosa, anuncia-se o clima de tragédia, que está sempre presente na ameaça das cerejeiras em flor, várias vezes nomeadas, e que irão ter um papel fundamental. Em jeito de maldição são elas que vão proporcionar o final fantasmagórico.

Com uma história rude, de personagens nada simpáticos, num clima quase surreal, que é uma variação original das histórias de fantasmas no feminino (aqui quase se podendo dizer que o verdadeiro fantasma é a bem viva esposa), Masahiro Shinoda surpreende-nos ainda pela fotografia, que nos traz planos belíssimos, um incrível uso da cor, e uma quase coreografia visual possibilitada pela ideia das cerejeiras e queda das suas flores, a lembrar um pouco o melhor que Zhang Yimou faria mais tarde, em épicos visuais como “O Segredo dos Punhais Voadores” (Shi mian mai fu/House of Flying Daggers, 2004).

Tomisaburō Wakayama e Shima Iwashita em "Under the Blossoming Cherry Trees" (Sakura no mori no mankai no shita, 1975) de Masahiro Shinoda

Produção:

Título original: Sakura no mori no mankai no shita; Produção: Geiensha Company / Toho Company; País: Japão; Ano: 1975; Duração: 95 minutos; Estreia: 31 de Maio de 1975 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Masahiro Shinoda; Produção: Kiichi Ichikawa, Ichirō Satō; Argumento: Masahiro Shinoda, Taeko Tomioka [a partir do livro de Ango Sakaguchi]; Música: Shinichirō Ikebe, Tōru Takemitsu; Fotografia: Tatsuo Suzuki; Montagem: Sachiko Yamaji; Direcção Artística: Osamu Asakura, Akira Naitō; Cenários: Dai Arakawa; Figurinos: Yasunao Inui, Natsu Itô; Caracterização: Kōji Takemura, Toshio Tanaka; Direcção de Produção: Seikichi Iizumi.

Elenco:

Tomisaburō Wakayama (Salteador da Montanha), Shima Iwashita (Esposa), Hiroko Isayama (Empregada), Kō Nishimura, Hideo Kanze, Yoshi Katō, Toshimi Oka, Nikaku Shofukutei, Yûsuke Takita, Jun Hamamura, Toshiaki Nishizawa, Dai Kanai, Teruo Matsuyama, Kakuya Saeki, Toshio Tokita.

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