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Larmar och gör sig till Num hospital psiquiátrico de Uppsala, em 1925, o ilusionista e autoproclamado inventor Carl Åkerblom (Börje Ahlstedt) está internado depois de ter tentado matar a noiva Pauline Thibault (Marie Richardson). Obcecado com a morte do compositor, depois de conversar com o também internado professor Osvald Vogler (Erland Josephson), Carl decide fazer um filme sonoro sobre isso, com actores a ler os diálogos por trás da tela. Uma exibição em Grånäs, terra de infância de Carl, corre mal, e a companhia tem de desempenhar a história teatralmente, para substituir o filme.

Análise:

Continuando a realizar exclusivamente para televisão, nomeadamente documentários e teatros filmados, Ingmar Bergman apresentava em 1997 mais um trabalho original que, dada a reputação do realizador, cedo acabou por passar ao circuito de cinemas, depois da sua presença no Festival de Cannes de 1998. Tratava-se de um filme feito a partir de uma peça do próprio Bergman, de 1994, co-produzido por várias estações de televisão europeias, e o primeiro de Bergman, desde 1961, sem a fotografia de Sven Nykvist.

Em 1925, numa espartana sala de um hospital, com várias camas vazias à excepção de uma, encontramos Carl Åkerblom (Börje Ahlstedt), ilusionista e autoproclamado inventor, obcecado com a morte de Schubert, e internado por depressão, e comportamento violento, depois de ter tentado matar a noiva, Pauline Thibault (Marie Richardson). Ali, Carl conhece Osvald Vogler (Erland Josephson), um professor que se interna voluntariamente, e lhe fala de uma história que leva Carl a imaginar um filme com som. Carl e Osvald concretizam o projecto, com a ajuda das respectivas mulheres, e à falta de uma distribuidora, levam o filme num circuito itinerante pelo país, até chegaram a Grånäs em Dalarna, terra de infância de Carl, o qual se confronta com família e passado, numa exibição que corre mal, levando a que o filme tenha de passar a teatro.

Partindo de uma frase de Shakespeare (o título provém de “Macbeth”: acto 5, cena 5), Bergman traz-nos em “Na Presença do Palhaço” mais um conto sobre filmes perdidos, que já abordara antes, fazendo crer que, em Carl, estamos na presença do personagem de “Fanny e Alexandre” (Fanny och Alexander, 1982), interpretado pelo mesmo actor. Esta é uma viagem ao tempo do cinema mudo, com actores que liam os textos atrás da tela, algo que se praticou durante alguns anos, e que Carl se arroga de ter sido o inventor. Para tal, Carl, obcecado com a morte de Schubert, por sífilis, tenta contar a história da sua relação com a pretensa amante Mizzi Veith (que só nasceu depois de Schubert morrer), prostituta, cujo diário o amigo Vogler lhe lê.

O filme começa num quarto de hospital, onde o tema da decadência física, tão caro a Bergman no final da sua vida, parece ser a principal preocupação de Carl. Ali, ele imagina um palhaço da sua infância (Agneta Ekmanner) que o atormenta, e ali, conversa com o médico sobre sífilis, e com o professor Vogler sobre a liberdade humana, a interior (das amarras intelectuais às prisões de vontade auto-impostas) e a exterior (física, social, política), um dos temas principais do filme.

Mas o grosso do filme passa-se nos bastidores de um cinema, e depois no palco da sala de exibição. Aí vemos, primeiro, a relação entre os personagens. Carl voltou para a noiva que antes tentou matar, mas isso não o impede de ter uma amante, a actriz Mia (Anna Björk). Também Vogel viaja com Carl, como argumentista e actor do filme que ambos apresentam. A chegada à terra de Carl confronta-o com mãe e irmã. São mais uma vez mais os temas das relações familiares mal resolvidas que atormentavam Bergman, bem como o assumir das suas relações extra-conjugais, que mostram o carácter autobiográfico do filme.

Com, o hoje famoso, Peter Stormare no papel do projeccionista, vemos um curto-circuito deitar tudo a perder, e Carl a decidir continuar a exibição como teatro. É mais uma vez a necessidade de Bergman de misturar as duas formas, desta vez de modo puramente diegético, com todas as cenas de palco filmadas da plateia. Note-se como, no final, um dos presentes confessa que o teatro é bem melhor que o cinema.

Além do tema do filme passado a teatro temos outros temas habituais em Bergman, como a morte, a doença e decrepitude física, as relações amorosas ilícitas, e o legado artístico, aqui exemplificado na sonata que Schubert quer ouvir pela última vez.

Sempre com a presença fantasmagórica do palhaço, que espreita e que só Carl vê (a presença da morte?), Bergman parece caminhar entre uma homenagem aos primórdios do cinema e a sua preferência pela representação em palco, mais crua (note-se como Carl tem de lembrar aos espectadores o que deveriam ver no cenário), mas mais visceral e real. Era Bergman a mostrar o seu próprio caminho, de um cinema mais artificioso para os dramas de câmara e o teatro filmado do final da sua carreira, num filme em que a maioria dos personagens parece ligar-se a filmes antigos do realizador.

Produção:

Título original: Larmar och gör sig till [Título inglês: In the Presence of a Clown]; Produção: SVT Drama / Danmarks Radio (DR) / Norsk Rikskringkasting (NRK) / RAI Radiotelevisione Italiana / Yleisradio (YLE) / Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF) / Nordiska TV-Samarbetsfonden / Nordisk Film- & TV-Fond; País: Suécia / Dinamarca / Noruega / Itaia / Alemanha; Ano: 1997; Duração: 119 minutos; Estreia: 1 de Novembro de 1997 (Suécia – TV), 17 de Maio de 1998 (Festival Internacional de Cannes, França), 7 de Setembro de 2001 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Måns Reuterswärd, Pia Ehrnvall; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Franz Schubert; Fotografia: Tony Forsberg, Irene Wiklund; Montagem: Sylvia Ingemarsson; Design de Produção: Göran Wassberg; Cenários: Rasmus Rasmusson; Figurinos: Mette Möller; Caracterização: Cecilia Drott-Norlén, Christina Sjöblom; Efeitos Especiais: Lars Söderberg; Direcção de Produção: Pia Ehrnvall.

Elenco:

Börje Ahlstedt (Carl Åkerblom), Marie Richardson (Pauline Thibault), Erland Josephson (Osvald Vogler), Pernilla August (Karin Bergman), Anita Björk (Anna Åkerblom), Agneta Ekmanner (Palhaço Rigmor), Lena Endre (Märta Lundberg), Gunnel Fred (Emma Vogler), Gerthi Kulle (Irmã Stella), Johan Lindell (Dr. Johan Egerman), Peter Stormare (Petrus Landahl), Folke Asplund (Fredrik Blom), Anna Björk (Mia Falk), Inga Landgré (Alma Berglund), Alf Nilsson (Stefan Larsson), Harriet Nordlund (Karin Persson), Tord Peterson (Algot Frövik), Birgitta Pettersson (Hanna Apelblad).

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