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Efter repetitionen Henrik Vogel (Erland Josephson), encenador teatral de uma peça de Strindberg, fica muitas vezes no palco após os ensaios, para descansar e pensar sobre o seu trabalho. Um dia, a jovem actriz Anna Egerman (Lena Olin) regressa, sob o pretexto de procurar uma pulseira, e os dois começam a conversar intensamente. Os temas passam pelo papel de Anna, da sua capacidade de actriz, da relação de Henrik com o teatro e os seus actores, do teatro como imitação da vida, da relação de ódio de Anna com a mãe, Rakel (Ingrid Thulin), antiga amante de Henrik, que surge num flashback, e ainda sobre uma potencial relação entre os dois.

Análise:

Depois do caro e luxuoso “Fanny e Alexandre” (Fanny och Alexander, 1982), produzido como uma mini-série de TV, Ingmar Bergan, que já dissera ter deixado de lado a carreira de realizador, continuaria a trabalhar exclusivamente para televisão. Se já entre os anos 50 e 70 fora responsável pela filmagem de sete peças de teatro, a maioria de Strindberg e Molière, em 1983 voltara a fazê-lo com “Escola de Mulheres”, do dramaturgo francês. Foi nesse espírito de uma peça filmada, e na completa intenção de produzir algo muito simples, que Bergman escreveu e realizou, para televisão, “Depois do Ensaio”, estreado após o seu documentário “O Rosto de Karin”, sobre a sua mãe.

A ideia terá surgido quando Bergman conheceu a jovem actriz Lena Olin, a qual teve um curtíssimo papel na parte final de “Fanny e Alexandre”. Bergman, à luz do personagem da história, decidiu escrever um texto para a actriz, que fosse uma espécie de peça de teatro, num só acto, na qual ela contracenaria com Erland Josephson, num cenário único, e sem quaisquer truques de montagem. A ideia foi, no entanto, tornando-se mais elaborada, tanto porque o argumento cresceu, com a entrada de mais um personagem, Ingrid Thulin, como a votade de tornar o filme quase uma peça de teatro levou a ensaios longuíssimos, com muitos testes sobre a forma de declamar as linhas de cada um, que prolongou as filmagens por muito mais tempo que as três semanas planeadas.

O resultado foi um filme, cuja acção decorre após um ensaio de teatro, quando o encenador de Strindberg, Henrik Vogler (Erland Josephson), que gosta de ficar a pensar e dormitar no palco (que assim torna mais seu), é interpelado pela sua jovem actriz Anna Egerman (Lena Olin, numa interpretação incrível), filha da sua antiga amante Rakel (Ingrid Thulin) com o seu melhor amigo, todos eles gente do teatro. A início irritado pela presença de Anna, Henrik vai começando a interagir com ela, num diálogo intenso e intrusivo, que tanto se debruça sobre a qualidade de actriz de Anna e papel do teatro na vida, como sobre o passado de Henrik e Rakel, a relação difícil de Anna com a mãe que ela odeia, e por fim, o explorar de uma atracção entre Henrik e a muito mais jovem Anna.

Abarcando terrenos comuns a Bergman, podemos adivinhar no tema algo de autobiográfico. Como Henrik faz com Anna, também Bergman escreveu a peça a pensar em Lena Olin. Como Anna, também Bergman tem na relação com os pais um tema difícil, já explorado, por exemplo em “Sonata de Outono” (Herbstsonat, 1978) ou no recente “Fanny e Alexandre”. Por outro lado, o filme é quase uma forma de racionalizar o teatro como vida, sonho e propósito, no modo como o próprio Bergman o vê, como parte fundamental da sua vida e modo de se dar e existir. Por isso grande parte do diálogo fala de actores, encenação, formas de tirar de dentro de um actor a interpretação correcta, e da sua dedicação a mais que uma profissão, um estilo de vida.

Com um palco semi-vazio como único cenário, e uma câmara que se move entre os actores, passando de planos gerais para close-ups e detalhes, Bergman não deixa de brincar com a sua habitual forma de nos baralhar os conceitos das formas artísticas, na sua interacção entre cinema e teatro (é o teatro que imita a vida, ou a vida que imita o teatro?). Se por um lado, à primeira vista não temos mais que um teatro filmado, com longos diálogos e monólogos, por vezes sem cortes, por outro existem diversos aspectos cinematográficos a desafiar essa lógica. Temos um plano em que vemos o jovem Henrik, quando ele fala da sua infância (com Bertil Guve – o Alexandre do filme anterior – nesse papel), e outros com Anna enquanto criança (Nadja Palmstjerna-Weiss), nos momentos em que testemunhamos um diálogo entre Henrik e a sua mãe Rakel (a qual já teria morrido, e por isso não requer uma mudança de cena ou cenário, mantendo-se Anna presente como se ali não estivesse) numa espécie de flashback em palco. Temos, por alguns momentos, o som dos actores sobreposto pelos pensamentos contrastantes de Henrik em off e, por fim, vemos que o próprio cenário vai mudando, resultando num palco bem mais nu na parte final.

Projecto intimista, “Depois do Ensaio” é um olhar para o pensamento de Ingmar Bergman, velhice, propósito profissional, ideias sobre teatro e actores, bem como um olhar para a sua forma de estar, a sinceridade e uso de máscaras, o seu passado, relações e decisões difíceis. Tudo isto nos surge pela mão de um Henrik que é um homem solitário (ainda que casado, com uma esposa que não vemos e raramente é mencionada), extremamente racional, que através dessa racionalidade sempre dominou todos, mantendo-os à distância. Para ele o mundo é um lugar imperfeito onde se magoa e é magoado, por contraste com o teatro, a verdadeira razão da sua vida, onde tudo é amor, e a mágoa é impossível. Os diálogos (tanto com Lena Olin como com Ingrid Thulin) são sempre análises, que do presente (o papel de Anna na peça), do passado (a aparição de Rakel) e do futuro (na fantasia que Henrik e Anna descrevem de uma possível relação, ali desenhada como se fosse ela própria um conto narrado a dois).

Quase como se decorresse em associação livre, “Depois do Ensaio” é uma análise do comportamento humano, com as suas idiossincrasias, limitações, falhas e desejos, numa construção onde mesmo as palavras de Henrik, Anna e Rakel, são uma actuação dentro da actuação, mostrando como tudo é teatro, e todos nós somos actores mesmo quando pensamos estarmos a ser sinceros com os outros e connosco próprios. É ainda uma declaração de amor para com o teatro e actores, e uma espécie de testamento na qual o protagonista mostra a sua amargura contra o envelhecimento, expressa na frase final de que tanto gostaria de ouvir os sinos.

Embora defendendo-se da exigência de um filme como “Fanny e Alexandre”, ainda assim Bergman confessaria que “Depois do Ensaio” se tornou uma experiência demasiado extenuante, pelo que mantinha o propósito de se manter afastado da realização. De facto Bergman voltaria a filmar logo no ano seguinte, mais um teatro de Molière, para televisão. Filmaria mais três peças para televisão, antes do seu novo argumento original, que só surgiria no telefilme “Na Presença do Palhaço” (Larmar och gör sig till) de 1997.

Erland Josephson e Lena Olin em "Depois do Ensaio" (Efter repetitionen, 1984) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Efter repetitionen [Título inglês: After the rehearsal]; Produção: Cinematograph AB, Personafilm; País: Suécia, RFA; Ano: 1984; Duração: 70 minutos; Distribuição: Sveriges Television (Suécia), Triumph Films (EUA); Estreia: 9 de Abril de 1984 (Suécia – televisão), 12 de Maio de 1984 (Cannes Film Festival, França), 21 de Junho de 1984 (EUA), 28 de Julho de 1985 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Jörn Donner; Produtor Associado: ; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Sven Nykvist; Montagem: Sylvia Ingemarsson ; Design de Produção: Anna Asp; Figurinos: Inger Pehrsson; Caracterização: Anna-Lena Melin; Direcção de Produção: Katinka Faragó.

Elenco:

Erland Josephson (Henrik Vogler), Ingrid Thulin (Rakel Egerman), Lena Olin (Anna Egerman), Nadja Palmstjerna-Weiss (Anna Egerman, como criança), Bertil Guve (Henrik Vogler, como criança).

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