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Fanny och AlexanderFanny (Pernilla Allwin) e Alexander (Bertil Guve) são dois irmãos, filhos de Oscar Ekdahl (Allan Edwall) e da sua esposa Emilie (Ewa Fröling), e que vivem na alegria e fausto da grande mansão da sua avó Helena (Gunn Wållgren). A morte de Oscar leva Emilie a casar com o bispo Vergérus (Jan Malmsjö), levando as crianças do calor acolhedor da família, para a frieza cruel e puritana da casa do bispo. Após castigos e ameaças, as crianças conseguem a fuga, ajudadas por Isaak (Erland Josephson), o companheiro da sua avó, a que se segue a fuga de Emilie, enquanto Alexander, dividido entre realidade e fantasia, vê o seu sonho da morte do padrasto tornar-se realidade.

Análise:

Em 1982, Ingmar Bergman voltava a filmar em solo sueco, depois de vários anos de ausência pelo seu exílio voluntário, devido a problemas com o sistema fiscal do seu país. Com produção da sua Personafilm, em colaboração com a televisão estatal SVT e contribuições de França e da República Federal Alemã, o projecto foi uma mini-série de televisão, baseada numa ideia que Bergman vinha acalentando desde 1979, e que, segundo o próprio, devia muito à peça de Strindberg “O Sonho” (Ett drömspel) e ao universo de Charles Dickens. Com uma produção que passou a ser a mais extensa e cara do cinema sueco até então (60 personagens com falas, 1200 figurantes), “Fanny e Alexandre”, que Bergman anunciou como o seu último filme, levou três meses a ser escrito, um ano de pré-produção e sete meses de filmagens, atingindo a duração final de 312 minutos (Bergman terá filmado cerca de 14 horas de material), dos quais se fez a montagem para cinema de 188 minutos, que acabou por estrear mais cedo que a versão televisiva.

Fortemente autobiográfico, “Fanny e Alexandre” acompanha a história de uma família sueca, os Ekdahl de Uppsala, vistos pelos olhos de duas crianças, Alexander (Bertil Guve), de dez anos, e a sua irmã mais nova Fanny (Pernilla Allwin), por entre alegrias e tragédias do dia a dia dos seus familiares, no início do século XX. Começamos por vê-los numa faustosa festa natalícia onde todos participam com as suas alegrias, conflitos e idiossincrasias. Esta ocorre na casa da matriarca Helena (Gunn Wållgren, num papel pensado para Ingrid Bergman), uma antiga actriz de teatro, que recebe os três filhos, Oscar (Allan Edwall), Carl (Börje Ahlstedt) e Gustav Adolf (Jarl Kulle) e respectivas famílias. Oscar e a sua esposa Emilie (Ewa Fröling), ambos ligados ao teatro, são os pais de Alexander e Fanny, os quais vivem felizes até à morte súbita de Oscar.

Passados os ritos fúnebres, Emilie decide casar com o bispo local, Edvard Vergérus (Jan Malmsjö), mudando-se para casa da sua família. Só que o choque é demasiado grande, pois os Ekdahl passam do luxo das mansões de família para a austeridade do puritanismo religioso, que cedo se torna autoritária e prepotente, inflingindo castigos às crianças e isolando-os em clausura. E quando Emilie pede o divórcio, Vergérus ameaça tirar-lhe os filhos, incluindo o bebé de que ela está grávida.

É o judeu Isak Jacobi (Erland Josephson), companheiro de Helena, quem primeiro age, conseguindo levar Fanny e Alexander para sua casa às escondidas (ironicamente ludibriando o bispo com a sedução do dinheiro, esse argumento tão associado aos judeus, e não aos protestantes). Quando Vergérus insiste com Emilie pela devolução das crianças, esta droga-o para fugir, e ao mesmo tempo a tia dele incendia a casa acidentalmente, provocando a morte do bispo, o que leva a que Alexander se sinta culpado, por ter imaginado a morte do padrasto. O filme termina com nova reunião familiar e novos nascimentos, mas enquanto os adultos regozijam, Alexander sente ainda o peso do fantasma do padrasto a atormentá-lo.

Comparativamente aos filmes anteriores de Ingmar Bergman, e pese os eventos trágicos e conflitos familiares presentes em “Fanny e Alexandre”, este é um filme em tom optimista, muito por influência do tal olhar infantil, que vem emprestar à obra um espírito de nostalgia. É, afinal, um olhar para um passado distante, de tons quase natalícios, de como recordamos um tempo antigo do qual já apagámos a negatividade. Por isso o filme se concentra muito nas festas, nos preparativos, nas anedotas (como os «fogos de artifício» do tio Carl, ou as escapadelas do tio Gustav Adolf), e mesmo nas conversas nostálgicas (como as confissões carinhosas entre Helena e Isaak). Sentimo-nos como se testemunhássemos as histórias dos nossos avós, contadas por eles em crianças, com todo o filtro de inocência que isso provoca.

A primeira coisa que se nota em “Fanny e Alexandre” é o cenário dos interiores. Passado maioritariamente na mansão dos Ehdahl, todo o filme é um passeio por um verdadeiro museu, de salas magnificamente decoradas, mesas festivas, cozinhas em grande actividade, numa coreografia incrível que mostra todo o elenco em interacção e dinâmica. As cores (geralmente o vermelho e o branco) que preenchem a tela, filmadas pelo olhar de Sven Nykvist, dão um tom festivo, quente e acolhedor, como raramente se vê no cinema. Por contraste, o segundo acto surge como ums pedrada, com a austeridade da casa do bispo, de um tom branco sujo, paredes nuas e mobiliário espartano. É como se essa nudez resultasse em quadros de uma beleza cénica ainda mais espectaculares, que falassem por si só, sem necessidade de palavras.

Centrado na história de uma família rica, ligada ao teatro, “Fanny e Alexandre” mostra-nos os Ekdahl, das preocupações com o comportamento de Gustav Adolf, cuja esposa aceita que tenha uma amante na criada Maj (Pernilla August), até à infeliz morte de Oscar, que leva ao citado segundo acto, depois do casamento de Emilie com o bispo Vergérus. Aí destaca-se principalmente a relação entre o bispo e Alexander. Este é rebelde, e não aceita a mudança de vida, imaginando um bispo assassino. Essas histórias serão reprimidas com a brutalidade de castigos de toda uma casa que respira um puritanismo doentio. É como se Bergman criticasse o puritanismo religioso que conheceu na infância, e de facto, Vergérus é dos poucos personagens inteiramente maus da carreira de Bergman, alguém que ele quer genuinamente que desprezemos e odiemos, e para cujo papel escolheu, curiosamente, um cantor e bailarino amado pelo público pela sua simpatia (isto depois da impossibilidade de ter Max von Sydow, para quem escreveu o papel).

Embora contado com grande realismo (e poucas vezes Bergman se deixou levar tanto pelos detalhes do dia a dia, e de conversas banais para conferir esse tal realismo), “Fanny e Alexandre” é leve, no sentido em que, se retirarmos o segundo acto, não é tão preenchido por diálogos intensos e dolorosos como vinha sendo hábito na obra de Bergman. Ainda assim eles existem, bem como a propensão para o intercalar de fantasia e realidade, dessa forma quase inocente a que Bergman nos vinha acostumando. Ela surge pela visão de Alexander, que continua a ver o pai, mesmo depois de morto e a quem pergunta amiúde se Deus existe o que há depois da morte. Ela é ainda mais evidente em todo o terceiro acto, em casa de Jacobi (onde existe um teatro de fantoches quase de tamanho real), tanto nos sonhos de Alexander, na ilusão da sua conversa com Deus (que não é mais que um fantoche), como no episódio da múmia, e finalmente na sequência com o misterioso Ismael (Stina Ekblad), que, em jeito do filme “A Máscara” (Persona, 1966) faz Alexander pensar que talvez os dois sejam a mesma pessoa, e talvez baste desejar algo para que isso aconteça.

O filme termina numa nota agridoce. Por um lado com a alegria familiar no regresso de Emilie, nos novos nascimentos, e planos para o teatro. Por outro com o peso do passado a derrubar (literalmente) Alexander, quando o fantasma do bispo lhe sorri ameaçadoramente dizendo «nunca te livrarás de mim». A isso segue-se uma breve leitura de Strindberg: «Tudo pode acontecer, tudo é possível. O tempo e o espaço não existem. No solo inconsistente da realidade, a imaginação tece novos padrões». O que vem no seguimento do último discurso de Gustav Adolf que elogia a fantasia que colocamos nas nossas relações, e o modo de escaparmos à realidade «Sem os subterfúgios o homem enlouquece».

Em jeito de conto familiar, Bergman revela muito do seu interior, das alegres festas de família aos pesadelos individuais de uma criança. A natureza televisiva da obra torna-a uma das mais acessíveis do autor, sem que traia minimamente quem é, apenas pintando com novas cores um universo pessoal, e que aqui, de certo modo, parece tocar todas as nossas famílias antigas. É um filme grandioso, onde os cenários nos lembram palcos, e onde o teatro (pela biografia dos Ekdahl, pelas alusões a teatros de marionetas, pelo modo teatral de personagens como Gustav Adolf, e pela leitura com que o filme termina) está sempre presente.

Embora Bergman lamentasse o corte de cinco horas para três da série, a recusa de Liv Ullmann em participar no papel de Emilie, e a sua saúde o levasse a interromper o projecto várias vezes, “Fanny e Alexandre” foi um sucesso, sendo bem recebido quer como filme, quer depois como série de televisão, e de facto as duas versões seriam apresentadas nas salas de cinema mais tarde. O filme seria nomeado para seis Oscars, vencendo os de Melhor Filme Estrangeiro, Fotografia, Direcção Artística e Guarda-roupa. Venceu ainda o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, e os Guldbagge Awards de Melhor Filme, Realizador e Actor (Jarl Kule).

Pernilla Allwin e Bertil Guve em "Fanny e Alexandre" (Fanny och Alexander, 1982) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Fanny och Alexander; Produção: Cinematograph AB / Svenska Filminstitutet (SFI) / Gaumont / Personafilm / SVT Drama / Tofisfilm; Produtores Executivos: ; País: Suécia / França / RFA; Ano: 1982; Duração: 188 minutos; Distribuição: Sandrew Film & Teater (Suécia), Gaumont (França), Embassy Pictures (EUA); Estreia: 17 de Dezembro de 1982 (Suécia), 26 de Maio de 1983 (Cinema Londres, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Jörn Donner, Daniel Toscan du Plantier [não creditado]; Co-Produção: Renzo Rossellini; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Daniel Bell; Fotografia: Sven Nykvist [cor por Eastmancolor]; Montagem: Sylvia Ingemarsson; Direcção Artística: Anna Asp; Cenários: Susanne Lingheim; Figurinos: Marik Vos-Lundh; Caracterização: Barbro Haugen, Anna-Lena Melin, Leif Qviström; Efeitos Especiais: Bengt Lundgren; Direcção de Produção: Katinka Faragó.

Elenco:

Família Ekdahl:
Gunn Wållgren (Helena Ekdahl), Allan Edwall (Oscar Ekdahl, filho de Helena), Ewa Fröling (Emilie Ekdahl, esposa de Oscar), Bertil Guve (Alexander Ekdahl, filho de Oscar), Pernilla Allwin (Fanny Ekdahl, filha de Oscar), Jarl Kulle (Gustav Adolf Ekdahl, filho de Helena), Mona Malm (Alma Ekdahl, esposa de Gustav Adolf), Börje Ahlstedt (Carl Ekdahl, filho de Helena), Christina Schollin (Lydia Ekdahl, esposa de Carl), Pernilla August [como Pernilla Wallgren] (Maj, Criada), Angelica Wallgren (Eva Ekdahl, filha de Gustav Adolf), Kristian Almgren (Putte Ekdahl, filho de Gustav Adolf), Maria Granlund (Petra Ekdahl, filha de Gustav Adolf), Emelie Werkö (Jenny Ekdahl, filha de Gustav Adolf), Sonya Hedenbratt (Tia Emma), Käbi Laretei (Tia Anna von Bohlen), Lena Olin (Rosa, Criada), Kristina Adolphson (Siri), Majlis Granlund (Miss Vega), Eva von Hanno (Berta).

Casa do Bispo:
Jan Malmsjö (Bispo Edvard Vergerus), Kerstin Tidelius (Henrietta Vergerus, Irmã do Bispo), Marianne Aminoff (Blenda Vergérus, Mãe do Bispo), Hans Henrik Lerfeldt (Elsa Bergius, Tia do Bispo), Harriet Andersson (Justina, Criada).

Casa Jacobi:
Erland Josephson (Isak Jacobi), Stina Ekblad (Ismael Retzinsky, Sobrinho de Isaak), Mats Bergman (Aron Retzinsky, Sobrinho de Isaak).

Teatro:
Gunnar Björnstrand (Filip Landahl), Heinz Hopf (Tomas Graal, Actor), Sune Mangs (Mr. Salenius, Actor), Nils Brandt (Mr. Morsing, Actor), Per Mattsson (Mikael Bergman, Actor), Anna Bergman (Hanna Schwartz), Lickå Sjöman (Grete Holm, Actriz).

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