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Tokaido Yotsuya kaidanO samurai Iemon Tamiya (Shigeru Amachi) quer casar com Iwa (Katsuko Wakasugi), mesmo contra a vontade do pai dela Samon Yotsuya (Shinjirō Asano). Por isso, um dia, numa emboscada, mata-o, bem como o pai do noivo de Iwa, livrando-se dos corpos com a ajuda do seu fiel Naosuke (Shuntarō Emi). Resta-lhe então livrar-se do rival Yomoshichi Satō (Ryūzaburō Nakamura), o que Iemon e Naosuke fazem empurrando-o por uma ravina. Anos mais tarde Iemon, já casado com Iwa, e com um filho, vive em Edo, onde passa privações financeiras. Com a ajuda de Naosuke planeia a morte de Iwa, para casar com a rica Ume (Junko Ikeuchi), filha de Itō (Hiroshi Hayashi). Só que após a sua morte, o fantasma de Iwa passa a assombrar Iemon, levando-o à perdição.

Análise:

Com base numa peça de teatro kabuki, de Nanboku Tsuruya, Nobuo Nakagawa realizou um filme que tem por base um dos temas mais queridos ao folclore japonês, o da vingança por parte de espíritos de pessoas injustiçadas em vida, numa das suas versões mais famosas.

Tal é a história de “The Ghost of Yotsuya”, que desenvolve uma complexa teia de crimes, levada a cabo por um samurai decadente, que coloca o seu benefício pessoal acima de todos os códigos de honra que um dia o podem ter guiado. Ele é Iemon Tamiya (Shigeru Amachi), que logo no início vemos rebaixar-se ao ponto de se humilhar ao exigir a mão de Iwa (Katsuko Wakasugi) ao pai desta, Samon Yotsuya (Shinjirō Asano). Um recontro violento resulta na morte do pai de Iwa, e do pai do noivo de Iwa. Logo surge, melífluo e manipulador, Naosuke (Shuntarō Emi), criado de Iemon, que o convence de como se livrar dos corpos, culpando um rival, e beneficiando com a situação. Não satisfeitos, Iemon e Naosuke vão ainda livrar-se do noivo de Iwa, Yomoshichi Satō (Ryūzaburō Nakamura), empurrando-o de um precipício, e culpando o mesmo bode expiatório, Usaburō Ozawa (Yōzō Takamura).

Anos mais tarde encontramos Iemon em Edo (actual Tóquio), casado com Iwa, e com um filho, e Naosuke, casado com Sode, irmã de Iwa, a qual não se lhe entrega, até ver o seu pai vingado. Mas as privações financeiras afectam os dois amigos, que vêem como solução o casamento de Iemon com a rica Ume (Junko Ikeuchi), filha do velho Itō (Hiroshi Hayashi). Para tal planeiam matar Iwa por envenenamento, depois de a acusarem de adultério com o massagista Takuetsu (Jun Ōtomo). Morta Iwa, Iemon mata também Takuetsu, e lança os dois ao rio, pregados a persianas.

Iemon casa então com Ume, mas começa a ver o fantasma de Iwa, desfigurada, surgir em todo o lado, levando-o à loucura, na qual vai matando, por acidente, a nova esposa, e os sogros, até ser finalmente morto por Yomoshichi, que afinal tinha sobrevivido, e fora encontrado por Sode, que descobrira a morte da sua irmã, guiada pelo seu fantasma.

Seguindo em parte o ritmo do kabuki, que consta de interpretações melodramáticas, cantadas com ritmo lento, por actores que comentam poeticamente as cenas, maquilhados de forma exagerada, Nobuo Nakagawa, um especialista neste tipo de terror, elabora de forma lenta uma história de uma terrível vingança. Muito no filme de Nakagawa tem relação directa com o folclore japonês e o teatro kabuki (note-se a introdução como uma representação desse mesmo teatro), desde a natureza dos fantasmas e sua necessidade de vingança, ao dramatismo exagerado (dir-se-ia mesmo, estilizado) das interpretações, até aos cenários. Aqui reinam os interiores, com exteriores filmados em estúdio, onde dominam céus feéricos de um vermelho fogo, nevoeiros fantasmagóricos e noites quase permanentes.

Mas os aspectos exteriores mais não são que uma réplica da alma dos retratados, a qual (sobretudo em Iemon e Naosuke) é negra, sem escrúpulos, apenas dedicada ao proveito imediato. São por isso as vítimas certeiras de uma vingança por parte daqueles que sofreram às suas mãos. Quer os vivos (Sode e Yomoshichi), quer os mortos (Iwa e Takuetsu, tal como o poderia ser Yotsuya, que dá nome à lenda, mas não assombra no filme, sendo o seu fantasma apenas figurativo, isto é, o peso da culpa de todos os crimes e vinganças).

É da presença dos mortos que se faz a parte final de “The Ghost of Yotsuya”, quando Iwa, completamente desfigurada, e Takuetsu surgem repetidamente a Iemon, assombrando-o, enlouquecendo-o, e levando-o a matar todos em volta, convencido que mata os fantasmas. De modo eficaz, em planos simples, Nakagawa consegue surpreender, e elevar o nível de macabro, numa constante assombração que é uma corrida para a loucura de Iemon e Naosuke.

Considerada uma das mais populares peças do género, a história foi diversas vezes adaptada ao cinema, sendo a versão de Nakagawa a mais bem conseguida. O resultado foi um filme que serviu de base para muito do que seria o terror japonês das décadas seguintes.

Produção:

Título original: Tokaido Yotsuya kaidan; Produção: Shintoho Film Distribution Committee; País: Japão; Ano: 1959; Duração: 97 minutos; Distribuição: Shintoho Film Distribution Committee; Estreia: 1 de Julho de 1959 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Nobuo Nakagawa; Produção: Hiroshi Onozawa, Mitsugu Okura; Argumento: Masayoshi Ônuki, Yoshihiro Ishikawa [a partir da peça “Yotsuya Kaidan” de Nanboku Tsuruya]; Música: Michiaki Watanabe; Fotografia: Tadashi Nishimoto [filmado em Shintohoscope, cor por Eastmancolor]; Montagem: Shin Nagata; Design de Produção: Haruyasu Kurosawa; Direcção de Produção: Kihachirō Yamamoto.

Elenco:

Shigeru Amachi (Iemon Tamiya), Noriko Kitazawa (Sode), Katsuko Wakasugi (Iwa), Shuntarō Emi (Naosuke), Ryūzaburō Nakamura (Yomoshichi Satō), Junko Ikeuchi (Ume Itō), Jun Ōtomo (Takuetsu), Hiroshi Hayashi (Kiemon Itō), Shinjirō Asano (Samon Yotsuya), Arata Shibata (Hikoemon Satō), Kikuko Hanaoka (Maki), Hiroshi Sugi (Jônen), Yōzō Takamura (Usaburō Ozawa), Nagamasa Yamada, Hiroshi Izumida.

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