Etiquetas

, , , , , , , ,

Aus dem leben der marionetten Peter Egerman (Robert Atzorn) é um homem casado, que acabou de matar uma prostituta (Rita Russek) com o mesmo nome da sua esposa. Numa reconstituição conduzida por um investigador policial (Karl-Heinz Pelser), viajamos pelas neuroses de Peter, como relatadas ao seu analista, o Professor Mogens Jensen (Martin Benrath), a quem ele confessara querer matar a esposa Katarina (Christine Buchegger), que ele ama tanto quanto odeia, numa relação em que ambos traem, mas procuram continuar, sem conseguirem ultrapassar os fantasmas que os afastam.

Análise:

Em 1980, um ano depois do seus segundo documentário sobre a ilha onde habitava na Suécia, e intitulado “Farö Dukomunt 1979”, Ingmar Bergman produzia e realizava, através da sua Personafilm, o seu terceiro filme da fase de exílio voluntário. Era, desta vez, uma produção para televisão, inteiramente falada em alemão, filmada com uma equipa e actores alemães, onde se exceptuava o seu fiel colaborador de londa data, o director de fotografia Sven Nykvist.

Partindo de uma frase de Collodi (o autor da célebre história «Pinóquio»), Bergman filma, a preto e branco (com excepção do prólogo e epílogo), uma história negra, num cenário quase espartano, de modestos meios de produção, acompanhando o caso da desagregação da personalidade do protagonista, um homem casado, e com uma vida aparentemente estável.

Ele é Peter Egerman (Robert Atzorn), que logo no prólogo vemos matar uma prostituta (Rita Russek), sem razão aparente. Através de uma série de momentos de interrogação, e de alguns flashbacks, vemos, em episódios separados (doze sequências, sempre precedidas de legendas) e fora de ordem cronológica, o que se passava com Peter e com aqueles que o rodeavam. Peter atravessava uma depressão, que o levava a não ver prazer na relação com a esposa Katarina (Christine Buchegger), conforme confessa ao seu analista, o Professor Mogens Jensen (Martin Benrath). Peter confessa mesmo que, apesar de amar a esposa, tem desejos de a assassinar. Já Katarina, embora tratando Peter com algum desprezo e cinismo, ama-o, mesmo que isso não a impeça de o trair sexualmente. A situação vai degenerando, com o casal a não encontrar formas de comunicar, e Peter a deixar-se levar por sonhos conturbados, a falta de motivação no emprego, a relação com a mãe (Lola Müthel), a sua homossexualidade latente e uma tentativa de suicídio, até ao seu descalabro final.

Através das interrogações de um investigador policial (Karl-Heinz Pelser), frio e distante, a história de Peter Egerman vai-nos chegando em cenas desconexas. Há algo do mais antigo telefilme “Ritual” (Riten, 1969) no modo de contruir a narrativa e nos ambientes de salas escuras como cenários para diálogos a dois. Por outro lado, principalmente pelo contraste saturado das incríveis sequências de sonhos, é “A Máscara” (Persona, 1966) que parece evocado.

O tema, como tantas vezes em Bergman, é o da impossibilidade de contacto entre dois seres humanos, esse silêncio ou distância que impossibilita a verdadeira comunicação e intimidade. Tal é explicitado numa cena em que o amigo do casal, Tim (Walter Schmidinger) pede a Katarina que sinta a sua mão no rosto, ao que esta confirma que não consegue sentir que ela é dele, num espelho de uma situação similar entre os personagens de Erland Josephson e Liv Ullman em “Face a Face” (Ansikte mot ansikte, 1976). Essa frustração ganha, em Peter, contornos que vão do mais psicológico e subconsciente (a mãe, os sonhos, são piscadelas de olho freudianas) à sua homossexualidade latente (diagnosticada tanto pelo professor Jensen como pelo homossexual Tim) e à impotência para com a esposa, que ele ama tanto quanto odeia (não é em vão que a prostituta assassinada tem o mesmo nome da esposa de Peter, e que este, após o crime consume sexo anal com o defunto corpo dela).

Interpretado com uma frieza que é ainda mais evidente que a habitual frieza do seu elenco sueco, o filme de Bergman choca pelo tom negro, e olhar desapiedado para o desintegrar de uma relação, com consequências trágicas. Como o próprio Bergman confessou, o contraste cor/preto e branco funcionava como uma inversão da lógica de “O Feiticeiro de Oz” (The Wizard of Oz, 1939) de Victor Fleming. Se no filme citado, a tom sépia denotava a realidade, e a cor, a fantasia, no filme de Bergman, a cor apontava para os actos reais (assassinato no prólogo, e encarceramento no epílogo) e o preto e branco para as conjecturas, reconstituições e tentativas de explicação que constintuem o grosso do filme.

Embora feito para a televisão alemã, “Da Vida das Marionetas” cedo passaria ao circuito comercial de cinema um pouco por todo o lado, recebendo críticas contrastantes.

Note-se ainda, que Peter e Katarina Egerman são o mesmo casal interpretado por Jan Malmsjö e Bibi Andersson na sequência inicial de Cenas da Vida Conjugal (Scener ur ett äktenskap 1973).

Robert Atzorn e Christine Buchegger em "Da Vida das Marionetas" (Aus dem Leben der Marionetten, 1980) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Aus dem Leben der Marionetten; Produção: Personafilm / Bavaria Film / Incorporated Television Company (ITC) / Zweites Deutsches Fernsehen (ZDF) / Österreichischer Rundfunk (ORF); Produtores Executivos: Lew Grade, Martin Starger; País: RFA / Suécia; Ano: 1980; Duração: 99 minutos; Distribuição: Tobis (RFA), Associated Film Distribution (AFD) (EUA); Estreia: 13 de Julho de 1980 (Oxford International Festival of Films, Inglaterra), 8 de Outobro de 1980 (França), 26 de Janeiro de 1981 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Horst Wendlandt, Ingmar Bergman; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Rolf A. Wilhelm; Fotografia: Sven Nykvist [preto e branco e cor, por Eastmancolor]; Montagem: Petra von Oelffen; Design de Produção: Rolf Zehetbauer; Direcção Artística: Herbert Strabel; Figurinos: Charlotte Flemming; Caracterização: Mathilde Basedow; Coreografia: Heino Hallhuber; Direcção de Produção: Paulette Hufnagel, Irmgard Kempinski.

Elenco:

Robert Atzorn (Peter Egermann), Christine Buchegger (Katarina Egermann), Martin Benrath (Professor Mogens Jensen), Rita Russek (Katarina Krafft), Lola Müthel (Cordelia Egermann), Walter Schmidinger (Tim Mandelbaum), Heinz Bennent (Arthur Brenner), Ruth Olafs (Enfermeira), Karl-Heinz Pelser (O Interrogador), Gaby Dohm (Frau Anders, Secretária), Toni Berger (O Guarda), Erwin Faber (O Empregado), Doris Jensen (Assistente no Espectáculo de Moda).

Anúncios