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Bōrei kaibyō yashikiYoriko Kuzumi (Yuriko Ejima) viaja para o interior, com o seu marido, o Dr. Tetsuichiro Kuzumi (Toshio Hosokawa), para recuperar de problemas de saúde. Mas, ao chegar à velha mansão de família que os acolhe, Yoriko começa a ver uma fantasmagórica velha que parece querer matá-la. É que, segundo um ancião consultado pelo irmão de Yoriko (Hiroaki Kurahashi), a mansão está assombrada, pelos crimes de um antepassado deles, o cruel Lord Shogen (Takashi Wada), cujos assassinatos resultaram na possessão de um gato que ainda hoje carrega os espíritos vingativos dos mortos.

Análise:

Nobuo Nakagawa, aquele que se revelaria um dos mais prolíficos realizadores do terror clássico japonês do pós-guerra, dava-nos em 1958 uma das suas primeiras importantes obras, “The Mansion of the Ghost Cat”, filmado pela Shintoho, a produtora que o acompanharia por vários anos.

Escrito a partir de um livro de Sotoo Tachibana, Nobuo Nakagawa narra-nos, naquele que era já o seu terceiro filme de fantasmas, a história de uma mansão centenária, para onde o casal Yoriko Kuzumi (Yuriko Ejima) e o seu marido, o Dr. Tetsuichiro Kuzumi (Toshio Hosokawa), se mudam, para curar os problemas de saúde de Yoriko. Mas esta, logo à chegada começa a deparar com uma assustadora velha, que mais ninguém vê, e parece fazer os possíveis para estar a sós com ela, para a estrangular. É o irmão de Yoriko (Hiroaki Kurahashi) que leva Tetsuichiro a quem conta a história do passado da mansão que muitos crêem assombrada, por ter sido habitada por Lord Shogen (Takashi Wada), um cruel samurai, que na sua loucura foi responsável por vários assassinatos. No processo, espíritos dos mortos passaram a habitar um gato, materializando-se na forma da fantasmagórica velha, de instintos vingativos.

Com um dos primeiros clássicos do terror, no renascimento do cinema japonês do pós-guerra, Nobuo Nakagawa trazia-nos os lugares comuns de um género que marcaria a década seguinte. Estes são, o peso do passado, geralmente no período Edo (1603-1867), no qual os samurais se tornaram obsoletos, perdendo importância e honra, passando muitas vezes a bandos criminosos, no que se via no século XX como um paralelo da situação do Japão caído em desgraça depois da derrota na Segunda Guerra Mundial. Nesse contexto, os comportamentos desonrados dos samurais iriam despoletar forças sobrenaturais, geralmente catalisadas por crimes contra mulheres, que assim surgiam como espíritos vingativos. A associação entre a maldição e um lugar (a obrigatória mansão), e o mediador na forma de um gato, eram outros lugares comuns, trazendo algo do gótico europeu a este tipo de linguagem.

No caso japonês, o terror era ainda ampliado pela forma do dito fantasma, de feições disformes (por uso de máscara, ou ao abrigo da idade avançada), maquilhagem e cabelos exagerados, e muitas vezes movimentos estilizados, influências do teatro kabuki.

Enaltecendo a posição do passado, Nobuo Nakagawa não se limita a contar um drama histórico, mas enquadra-o num encaixe de flashbacks, que torna o tempo passado um personagem de pleno direito. Assim começamos com a reminiscência do Dr. Tetsuichiro Kuzumi, sobre os acontecimentos que se passaram com a esposa Yoriko, e passamos à história da viagem do casal para habitar a antiga mansão de família. Aí, após os primeiros recontros com o fantasma do passado, passamos a novo flashback dentro daquele inicial, em que recuamos nos séculos para vermos a história de Lord Shogen. Para mais facilmente destacar os períodos temporais, Nobuo Nakagawa filma o século XX num preto e branco tingido de tons azuis, e o período Edo a cores.

Com o modo dramático de actuar na sequência do passado (a mais longa do filme), e os tons pastel da cor usada, o filme ganha imediatamente um sabor clássico, e um ritmo cativante, entre tragédia anunciada e drama histórico, relembrando-nos do perigo da soberba e de uma húbris de contornos quase gregos. Os movimentos da velha-fantasma, os seus aparecimentos, os planos obscurecidos, são já um prenúncio daquilo em que se tornará o género.

Não tão famoso hoje como outras das suas obras seguintes, como por exemplo “The Ghost of Yotsuya” (Tokaido Yotsuya kaidan, 1959) e “Jigoku” (1960), “The Mansion of the Ghost Cat” representa um enorme passo em frente na carreira de Nobuo Nakagawa, no sentido de definir o terror clássico japonês do pós-guerra.

"The Mansion of the Ghost Cat" (Bōrei kaibyō yashiki, 1958) de Nobuo Nakagawa

Produção:

Título original: Bōrei kaibyō yashiki [Título alternativo inglês: Black Cat Mansion]; Produção: Shintoho Film Distribution Committee; País: Japão; Ano: 1958; Duração: 68 minutos; Distribuição: Shintoho Film Distribution Committee; Estreia: 13 de Julho de 1958 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Nobuo Nakagawa; Produção: Mitsugu Ōkura; Argumento: Jiro Fujishima, Yoshihiro Ishikawa [a partir de um romance de Sotoo Tachibana]; Música: Michiaki Watanabe [como Chumei Watanabe]; Fotografia: Tadashi Nishimoto [filmado em Shintohoscope, cor por Eastmancolor]; Montagem: Toshio Gotō; Design de Produção: Tatsuyoshi Shimamura; Direcção Artística: Haruyasu Kurosawa; Direcção de Produção: Tokutarō Okuhara.

Elenco:

Toshio Hosokawa (Dr. Tetsuichiro Kuzumi), Yuriko Ejima (Yoriko Kuzumi), Takashi Wada [como Keinosuke Wada] (Lord Shogen), Ryūzaburō Nakamura (Kokingo), Fujie Satsuki (Mãe de Shogen), Arata Shibata (Shinnojo, Filho de Shogen), Fumiko Miyata (Lady Miyaji), Noriko Kitazawa (Yae), Hiroaki Kurahashi (Kenichi, Irmão de Yoriko), Rei Ishikawa (Saheiji), Midori Chikuma (Toyoko Hiramatsu), Kōji Hirose (Sudo), Eijiro Kawai (Motorista), Den Kunikata (Hachiro’uta), Akiko Mie (Satsuki).

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