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HerbstsonateEva (Liv Ullmann) e Viktor (Halvar Björk) vivem retirados numa aldeia de província, onde ela escreve e ele é pároco. Ali recebem a visita de Charlotte (Ingrid Bergman), mãe de Eva e pianista internacional, que não visita a filha há sete anos, e em luto pela morte recente do companheiro. À chegada, Charlotte fica irritada ao saber que a outra filha, Helena (Lena Nyman), a sofrer de uma progressiva paralisia, vive com Eva. Aos poucos os conflitos reprimidos de anos de falta de comunicação e afecto vão tomando conta de Eva e Charlotte, levando a uma catarse dolorosa para ambas.

Análise:

Ainda no seu período de exílio voluntário, iniciado em 1976, Ingmar Bergman voltou em 1978 à Suécia para preparar o seu próximo filme, e reassumir o seu lugar no Teatro Dramático de Estocolmo (Kungliga Dramatiska Teatern), embora continuasse mais alguns anos a viver em Munique. O novo filme seria inteiramente rodado na vizinha Noruega, com dinheiros de França, Alemanha e Reino Unido, com a participação da estrela internacional Ingrid Bergman (no seu último papel importante em cinema). “Sonata de Outono” era mais um drama de câmara, filmado de modo discreto com os seus actores habituais, e que seria o último filme de Ingmar Bergman filmado para cinema.

Iniciando com uma narração que quebra a quarta parede e, através do personagem Viktor (Halvar Björk), nos faz a introdução do personagem de Eva (Liv Ullmann), Ingmar Bergman diz-nos mais uma vez estar num mundo onde teatro e cinema se interceptam. Eva é uma mulher que o marido Viktor sabe ter um passado difícil, o qual ele desconhece e aceita, tal como aceita que talvez ela nunca o possa amar totalmente, da forma que, por outro lado, ele sabe que a ama, sem lhe conseguir explicar. Feita a apresentação, chega Charlotte (Ingrid Bergman), mãe de Eva, e uma pianista de concerto muito requisitada, a braços com a morte do seu amante e amigo Leonardo. Se o encontro inicial é alegre, cedo a personalidade difícil de Helena se manifesta, logo desde o momento em que descobre que a sua segunda filha, Helena (Lena Nyman), a sofrer de uma progressiva paralisia, vive com Eva.

Estabelece-se então a dinâmica familiar entre Eva e a mãe. Se ambas as mulheres querem mostrar a alegria de estarem juntas, cedo resvalam para a amargura de mágoas antigas, a tentação da acusação, e a dor de tanto desencontro pelo que nunca foi dito. Tudo começa ao piano, quando, depois de Eva mostrar o seu desempenho num prelúdio de Chopin, a profissional Charlotte lhe desmonta a interpretação numa lição fria, a quem apenas procurava um reconhecimento carinhoso. Poucas vezes uma cena sem palavras revelou tanto sobre a relação de duas pessoas. Mais até do que as próprias sabem ou querem verbalizar.

Daí passa-se a uma quase competição, onde Eva é carinhosa e dedicada à família, aparentemente frágil (nunca recuperando da morte do filho de 5 anos), Charlotte exibe a sua fama internacional de mulher pretendida em todo o mundo (quer como pianista, quer como amante), egoísta e egocêntrica. O confronto de opções de vida diferentes leva a recriminações e acusações pelo passado. Charlotte colocou sempre a carreira em primeiro lugar, e nem notou a dor do marido e filhas, quando estava tão centrada no seu progresso. Eva não sabia mais estar com a mãe, temendo sempre a próxima ausência, escolhendo não sentir para não sofrer. Charlotte sentia-se julgada pela filha com quem, por isso, preferia não estar, escolhendo o escapismo das suas viagens.

Todo o filme se torna um digladiar de razões e episódios passados, por duas mulheres que percebem que mesmo o amor que sentem uma pela outra está toldado de um ódio que sempre tiveram vergonha de assumir. Estamos assim em território conhecido, o da impossibilidade da troca de afectos, do drama de câmara em relações claustrofóbicas que Bergman analisa com uma frieza cortante. Se à memória nos chega imediatamente “A Máscara” (Persona, 1966), o drama de amor-ódio familiar está já em “O Silêncio” (Tystnaden, 1963), voltando nas irmãs de “Lágrimas e Suspiros” (Viskningar och rop, 1973), a que se pode juntar a relação amorosa de “Cenas da Vida Conjugal” (Scener ur ett äktenskap, 1973), ou o drama pessoal de uma mulher entre recordações e traumas passados em “Face a Face” (Ansikte mot ansikte,1976), curiosamente todos menos um destes filmes protagonizados por Liv Ullmann.

Servido por duas actrizes de excelência, Ingmar Bergman filma longos diálogos e monólogos, em sequências sem cortes, aproximando-nos, de modo invasivo, o olhar dos seus rostos em sentidos close-ups. A cor é sempre importante, nos tons pastel da casa, quase sem contraste com as roupas, onde se distingue, pelo seu garrido, a festiva Charlotte. A par da cor, está a música, num filme sem outra banda sonora que não seja as peças diegéticas tocadas (Händel, Bach, Mozart, Chopin), elas próprias, no momento presente ou nos flashbacks, um símbolo das tensões em jogo. Os flashbacks surgem espalhados, não para completar informação, mas como postais ilustrados (são sempre planos fixos, gerais, através de uma porta, que mostram os personagens de que se fala, em fundo, numa cena simples), pinturas vivas que completam uma descrição em monólogo. O ritmo é lento, aquele do campo, onde vivem Eva e Viktor, sem ruídos nem pressas.

Dessa lenta construção até à catarse final, todo o filme é um acumular de tensão, em ritmos variados (como numa sonata), numa atmosfera de extremo realismo, onde não se deixa de fora a condição da doente Helena, com tudo o que isso nos traz de desconfortável e penoso (num espelho do que Charlotte pode ter sentido para abandonar a filha). “Sonata de Outono” é, para o autor, isso mesmo, uma sonata onde, segundo as suas palavras Eva e Charlotte são as duas vozes em diálogo, com um fundo (ou contínuo) trazido pr Viktor ou Helena. É, por isso, um filme que vive das interpretações extraordinárias de Ingrid Bergman e Liv Ullmann, com a primeira a ser inclusivamente nomeada para um Oscar. Também Ingmar Bargman receberia uma nomeação pelo seu argumento. Além disso o filme venceria o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Destaque para os cameos discretos de Erland Josephon e Gunnar Björnstrand, em papéis sem palavras.

Liv Ullmann e Ingrid Bergman em "Sonata de Outono" (Herbstsonate / Höstsonaten, 1978) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Herbstsonate / Höstsonaten [Título inglês: Autumn Sonata]; Produção: Personafilm / Filmédis / Incorporated Television Company (ITC) / Suede Film; Produtores Executivos: ; País: França / RFA / Suécia / Reino Unido; Ano: 1978; Duração: 90 minutos; Distribuição: New World Pictures (EUA); Estreia: 8 de Outubro de 1978 (Suécia), 5 de Outubro de 1979 (Shopping Center do Cacém, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman, Lars-Owe Carlberg; Realização: Ingmar Bergman; Argumento: Ingmar Bergman; Fotografia: Sven Nykvist [cor por Eastmancolor]; Montagem: Sylvia Ingemarsson [como Sylvia Ingmarsdotter]; Design de Produção: Anna Asp; Figurinos: Inger Pehrsson; Caracterização: Cecilia Drott; Direcção de Produção: Katinka Faragó.

Elenco:

Ingrid Bergman (Charlotte Andergast), Liv Ullmann (Eva), Lena Nyman (Helena), Halvar Björk (Viktor), Marianne Aminoff (Secretária Privada de Charlotte), Arne Bang-Hansen (Tio Otto), Gunnar Björnstrand (Paul), Erland Josephson (Josef), Georg Løkkeberg (Leonardo), Mimi Pollak (Instrutora de Piano), Linn Ullmann (Eva em Criança).

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