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Putyovka v zhiznNa nova União Soviética, saída de várias guerras e a braços com enormes transformações sociais, cresce o número de crianças que, órfãos ou abandonados, vivem nas ruas, como pequenos delinquentes, nas mãos de criminosos. O Estado vai conseguindo recolher alguns destes jovens, que depois são levados para campos de trabalho longe da cidade, onde, sob a orientação do oficial Nikolai Sergeiev (Nikolai Batalov), vão aprender ofícios e a alegria do trabalho em comum, que os torna úteis na construção do novo país. Mas o mal espreita na forma dos criminosos que querem boicotar os esforços de reeducação.

Análise:

No início da década de 1930 muito mudava no cinema soviético de vertente política. Por um lado, a introdução do sonoro trazia novas linguagens e expectativas, por outro, a ascensão de Estaline ao poder trazia uma resolução na luta entre formalistas da estética da montagem soviética e defensores da narrativa mais convencional. A facção de Estaline empurrava no caminho de um cinema mais convencional, com narrativas fáceis de seguir, e com temas sociais, no que ficou conhecido como o realismo soviético que se ligaria ao crescente Neo-realismo que atravessaria as artes na Europa.

Reflexo dessa tendência neo-realista, é o filme “O Caminho da Vida”, de Nikolai Ekk, o primeiro filme sonoro soviético, por um realizador que trabalhou com Eisenstein e Pudovkine, o qual seria ainda responsável pelo primeiro filme a cores do seu país “The Nightingale” (Grunya Kornakova, 1936).

Nikolai Ekk privilegiava o drama de cariz social, aqui direccionado para falar de jovens delinquentes, crianças órfãs ou abandonadas, vítimas da mudança e violência recente do seu país, que, segundo as declarações de propaganda com que o filme começa, devem crescer num país preparado para os acolher e formar como verdadeiros homens soviéticos. “O Caminho da Vida” é, por isso, premonitório de algum do cinema do Neo-realismo italiano, com o seu foco nas condições sociais das crianças, que aqui vemos começar como pequenos criminosos, desgarrados e em estado meio selvagem. Aos poucos estes jovens vão sendo agarrados pelo sistema que os tenta integrar em campos de reeducação, onde aprendem ofícios e o valor da vida em paz e harmonia com os seus camaradas e os ideais soviéticos. Estes são ensinados (por vezes quase à força) pelo simpático e persistente agente do partido Nikolai Sergeiev (Nikolai Batalov) que, lição após lição, episódio após episódio, vai não só conquistando a atenção dos seus pupilos (bem exemplificados no rebelde Mustapha, interpretado por Yvan Kyrlya), como mesmo convertendo-os em aliados que o ajudarão mais tarde a conquistar novas aquisições para o reformatório (como a dócil ovelha perdida, Kolka, interpretado por Mikhail Dzhagofarov.

Com um espírito alegre, em que mesmo nas dificuldades pressentimos o humor e boa disposição de todos, vamos recebendo a ideia de que todos têm um lugar na nova União Soviética, desde que aceitem ser reeducados para o novo mundo que se criava de trabalho e igualdade, nos ideais comunistas. De fora não fica a iminência da tragédia, quando uma das crianças morre, vítima de conluios criminosos dos que querem parar a ordem do novo Estado.

Como dito antes, “O Caminho da Vida” é um filme que sacrifica o lado mais vanguardista do cinema soviético, a troco de uma linha narrativa fácil e envolvente, onde a revolução tecnológica que era o som não interferiu com a forma de filmar, já que este não era captado ao vivo, para assim não introduzir problemas de ruído, nos equipamentos ainda tão jovens. Há ainda muito da lógica dos filmes mudos, como o mostrar emoções pelos rostos e o avanço da narrativa por sequências sem palavras.

O resultado é uma obra que espanta pela espontaneidade das interpretações, e pela energia dos seus personagens, que transformam um simples acto de propaganda numa história quente e emotiva que abria caminho para o cinema neo-realista que iria despontar noutras partes da Europa.

Yvan Kyrlya em "O Caminho da Vida" (Putyovka v zhizn / Путёвка в жизнь, 1931) de Nikolai Ekk

Produção:

Título original: Putyovka v zhizn / Путёвка в жизнь [Título inglês: Road to Life]; Produção: Mezhrabpomfilm; País: URSS; Ano: 1931; Duração: 106 minutos; Distribuição: Prometheus-Film-Verleih und Vertriebs-GmbH (Alemanha), Amkino Corporation (EUA); Estreia: 1 de Junho de 1931 (URSS).

Equipa técnica:

Realização: Nikolai Ekk; Argumento: Nikolai Ekk, Regina Yanushkevich, Aleksandr Stolper, Osip Brik [não creditado] [a partir do livro de Anton Makarenko]; Música: Yakov Stollyar; Fotografia: Vasili Pronin [preto e branco]; Cenários: Aleksandr Evmenenko, Ivan Stepanov.

Elenco:

Nikolai Batalov (Nikolai Sergeiev), Yvan Kyrlya (‘Dandy’ Mustapha), Mikhail Dzhagofarov (Nikolai ‘Kolka’ Rebrov), Mikhail Zharov (Tomka Zhigan, Líder dos Rapazes Selvagens), Aleksandr Novikov (Vasha Busa, Rapaz Selvagem), Mariya Andropova (Maria Skriabina, Assistente Social), Vladimir Vesnovsky (Mr. Rebrov), Mariya Gonfa (Lelka, aka ‘Merizhka’).

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