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Staroye i novoyeDepois da revolução russa, os campos continuam dominados pelos métodos antigos de organização e exploração. É então que numa, comunidade agrícola, Marfa (Marfa Lapkina) incita as pessoas a seguir as ideias do partido, propagadas pelo secretário local (Vasili Buzenkov), para se colectivizarem. Tal leva a reunir dinheiro para compra de um boi, para começar uma cooperativa agrícola. Mas Marfa quer mais, exigindo que o dinheiro do lucro continue na cooperativa, para financiar a sementeira, e mais tarde a compra de um tractor para a colheita.

Análise:

Partindo de uma ideia, iniciada em 1927, Sergei M. Eisenstein começou uma colaboração com Grigori Aleksandrov, no que viria a ser o seu filme conjunto “A Linha Geral”, naquilo que seria uma homenagem do cinema à implantação da colectivização agrícola, promovida por Leon Trotsky. O projecto foi interrompido para, em 1928, Eisenstein filmar o seu muito celebrado “Outubro” (Oktyabr). Passado esse tempo, Trotsky já caía em desgraça, o que levou a alguns ajustes no tom do filme, que do seu primeiro título “Generalnaia linia” passaria ao título oficial “Staroe i novoe” (O Velho e o Novo).

A ideia é mostrar-nos a difícil vida dos camponeses russos, que, como o prólogo destaca, são 100 milhões, uma força impressionante, se se soubesse organizar e motivar. Tal acontece quando seguindo, as ideias do partido, aqui trazidas por aquele que se torna o líder (Vasili Buzenkov, com maneirismos e uma caracterização que nos lembram de imediato Lenine), os agricultores se colectivizam, reunindo dinheiro para começarem uma cooperativa bovina. O objectivo é conseguido, e todos ficam felizes com o lucro, preparando-se para receber o seu quinhão. É aí que se destaca Marfa (Marfa Lapkina), uma das mulheres da comunidade, que insiste que o dinheiro fique retido na cooperativa para novos investimentos, como o semear da terra. A princípio todos se riem dela, mas a intervenção do secretário dá-lhe razão, e o povo segue a ideia.

Com a colheita a aproximar-se, é novamente Marfa que tem a ideia de que a cooperativa compre um tractor. Mais uma vez a ideia é vista com desconfiança, mas a cooperativa avança, esbarrando nas barreiras burocráticas. Estas são ultrapassadas com muito esforço, e a cooperativa recebe o seu tractor, com motorista incluído (Konstantin Vasilyev), descrito como um herói, e equipado como um piloto de guerra. As dificuldades continuam com problemas técnicos que levam o motorista quase a desistir, até Marfa, mais uma vez, surgir com o incentivo certo, e a colheita pode finalmente ser feita em benefício de todos.

Continuando a trilhar os caminhos da revolução, neste caso a realidade agrícola dos sovkhozes e kolkhozes, com “A Linha Geral”, Eisenstein afasta-se definitivamente do seu cunho inicial. O herói deixa de ser o povo como um todo, e destacam-se personagens concretos, neste caso a estoica Marfa, exemplo de dedicação e crença, que deverá contagiar todo o povo. Também a narrativa é agora perfeitamente linear, com poucos truques de montagem (exceptuam-se sequências de sonho, em que vemos tractores e animais à transparência, sobrepostas sobre outras imagens), e quase sem os famosos paralelismos simbólicos do autor. Continua a ênfase no rosto humano, com o grotesco e os close-ups a serem mote de dramatismo, mas a história flui de um modo bastante convencional.

Há sempre uma atitude propagandística em todo o filme, desde o afirmar da força dos tais cem milhões de agricultores, à adopção de braços abertos das ideias do partido, num esforço de colectivização que se inspira no que se passa nas cidades, e ao mesmo tempo pretende inspirar toda a sociedade a libertar-se das velhas ideias e abraçar as novas. O filme termina de modo metafórico, com o crescimento do número de tractores, e a proclamação que no campo e na indústria o propósito é o mesmo. Não deixa de ser curiosa a fortíssima sátira ao sistema burocrático visto agora com o verdadeiro inimigo da revolução, bem como alusões a religião e bruxaria como escapes de um povo inculto.

O filme foi mais tarde restaurado em 1998 pelo canal alemão ZDF/arte, para incluir sequências que tinham sido retiradas, existindo, por isso, em duas versões, a original de 121 minutos, e a restaurada de 131 minutos.

Imagem de "A Linga Geral" (Staroye i novoye, 1929) de Sergei M. Eisenstein e Grigori Aleksandrov

Produção:

Título original: Staroye i novoye / Старое и новое [Título alternativo: Old and New]; Produção: Sovkino; País: URSS; Ano: 1929; Duração: 121 minutos; Distribuição: Amkino Corporation (EUA); Estreia: 7 de Novembro de 1929 (URSS), 12 de Novembro de 1930 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Grigori Aleksandrov, Sergei M. Eisenstein; Argumento: Grigori Aleksandrov, Sergei M. Eisenstein; Fotografia: Eduard Tisse [preto e branco]; Direcção Artística: A. Burov; Cenários: Vasili Kovrigin, Vasili Rakhals.

Elenco:

Marfa Lapkina (Marfa), M. Ivanin (Filho de Marfa), Konstantin Vasilyev (Condutor do Tractor), Vasili Buzenkov (Secretário da Cooperativa), Nejnikov (Miroshkin, Mestre Escola), Chukamaryev (Talhante), Ivan Yudin (Komsomolets), E. Suhareva (Bruxa), G. Matvei (Padre).

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