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Ansikte mot ansikteA Drª. Jenny Isaksson é uma psiquiatra, casada com um marido sempre distante, e mãe de uma filha adolescente, numa vida aparentemente estável. Quando Jenny é colocada num outro hospital, tendo que ir viver temporariamente com os avós, uma série de imagens da sua infância e crescimento começam a assaltá-la entre memórias e pesadelos, que põem em causa a sua capacidade de funcionar e de se relacionar consigo própria. Passando rapidamente à instabilidade emocional, Jenny refugia-se no encontro fortuito com o Dr. Tomas Jacobi (Erland Josephson), que a assiste quando Jenny colapsa, e chega a tentar o suicídio.

Análise:

Ainda com participação da televisão pública, Sveriges Radio, a qual produzira o seu filme anterior “A Flauta Mágica” (Trollflöjten, 1975), Ingmar Bergman construiu o seu filme seguinte como uma série de televisão, a qual teria 177 minutos em quatro episódios: 1. Uppbrottet (A Separação); 2. Gränsen (A Fronteira); 3. Skymningslandet (A Terra Crepuscular); 4. Återkomsten (O Regresso). Reduzido para 114 minutos na sua versão para cinema, “Face a Face” foi mais um ensaio sobre a mente humana, com argumento do próprio Bergman, e assente na personagem de Liv Ullman, aqui a lidar explicitamente com problemas mentais. Era também o momento em que, para Bergman, começava o rocambolesco episódio dos problemas com as finanças do seu país, que o fizeram sair para filmar no estrangeiro.

Liv Ullmann é a Drª. Jenny Isaksson, uma psiquiatra, que logo no início vemos a fazer a ronda pelos seus doentes, centrando-se numa mulher que se auto-estimula sexualmente, como modo de evitar perguntas, no que Jenny interpreta como um acto fingido, dela recebendo apenas o lamento «pobre Jenny», como uma premonição do que veremos desenrolar-se ao longo do filme. Vindo morar temporariamente com os avós, para estar mais perto do seu novo emprego, Jenny começa a misturar presente e passado pelas memórias trazidas pela velha casa. Numa visita a uma amiga, Jenny conhece o Dr. Tomas Jacobi (Erland Josephson), e começam a sair juntos, se bem que a relação seja tempestuosa e provoque reacções violentas em Jenny, casada, mas com o marido sempre distante. Será o Dr. Tomas Jacobi a encontrar Jenny quando esta, após longa depressão e o martírio de pesadelos, se tenta suicidar, e será ele a tentar acompanhá-la enquanto Jenny luta contra os seus fantasmas para se restabelecer.

Depois das luzes de “A Flauta Mágica”, Ingmar Bergman entregou-se às trevas de “Face a Face” num dos seus filmes mais neuróticos. A neurose é a característica mais visível de Jenny, a qual nos surge inicialmente como doce e serena, para, mal despe a bata médica, se tornar insegura, amedrontada e altamente instável. Tudo é despoletado pela antiga casa onde habitam os os seus avós, e onde tudo são memórias de um passado que aos poucos iremos conhecer nas narrativas da perturbada Jenny. Ali Jenny cresceu, assistindo ao ostracismo do pai, às guerras familiares, à morte dos progenitores e à educação demasiado severa da avó (Aino Taube). Aparentemente bem na sua vida, Jenny esconde as suas contradições internas até ao momento em que elas tomam conta de si, deixando-a disfuncional e suicida. Tudo isto numa interpretação extraordinária de Liv Ullmann, que lhe valeu uma nomeação aos Oscars, Globos de Ouro e BAFTA.

“Face a Face”, na sua viagem ao inteior perturbado de uma mulher, e explanação dos motivos que até aí a levaram, torna-se um filme de sentido único, com Bergman a filmar os interiores da casa como lugares negros, quase saídos de um filme de terror, onde Sven Nykvist filma magistralmente a sombra, e onde o vermelho surge de novo, como em “Lágrimas e Suspiros” (Viskningar och rop, 1973), marcando a expressão da alma. Num universo interior perturbado, Bergman guia-nos entre sonhos e realidade, mantendo a unidade dos espaços (os sonhos ocorrem nos mesmos quartos e salas que antes víramos em sequências reais), para assim eliminar esse véu que separa realidade, ilusão ou fantasia. Nesses sonhos, Jenny confronta-se com os pais, assiste ao seu próprio funeral, e vive um pesadelo no hospital.

Fazendo uso de planos fechados, longos planos-sequência, por vezes com a câmara a seguir Liv Ullmann pela casa, Bergman traz-nos intranquilidade e claustrofobia, representativas dos dramas que Jenny atravessa, interpretados como nunca por Liv Ullmann. Mas é essencialmente a exploração dos limites de Jenny que nos interessa, e não as suas razões, motivo pelo qual somos, no final, deixados num limbo, onde tudo parece terminar onde começou, sem soluções, sem o mínimo de calor, sem redenção, sem esperança de que algo possa ter mudado.

É mais uma vez o regresso do silêncio e da distância entre as pessoas, que o personagem de Erland Josephson traduz na sua necessidade de sentir uma dor para saber que é real, e o que é ser real? «Ouvir uma voz humana e confiar que venha de um ser humano seja feito como eu, tocar um par de lábios e saber que é um par de lábios». Tudo num filme feito de friezas e abandonos (o marido de Jenny está ausente, e mesmo quando a vê no hospital é para sair logo de seguida, o Dr. Jacobi confessa-se homossexual, a filha Anna não mostra interesse na mãe, etc).

A estreia de “Face a Face” dava-se uma semana depois de Bergman deixar a Suécia, pairando no ar o escândalo da possível fuga aos impostos (algo que não era verdade, pois o realizador apenas queria paz, deixando a sua conta bancária ao serviço do Estado), o que veio toldar o percurso do filme, com o tema da loucura a servir para que alguns o considerassem já também em estado menos são, num filme que é afinal um explorar de fantasmas pessoais.

Três curiosidades a terminar: O piano que vai pontuando os vários momentos do filme é tocado por Käbi Laretei, a esposa de Bergman; um dos violadores que vemos apenas entre portas, à distância, é Birger Malmsten, o protagonista de muitos dos primeiros filmes de Bergman; e a actriz que representa a filha de Jenny é Helene Friberg, o principal rosto do público em “A Flauta Mágica”.

Erland Josephson e Liv Ullmann em "Face a Face" (Ansikte mot ansikte, 1976) de Ingmar Bergman

Produção:

Título original: Ansikte mot ansikte [Título inglês: Face to Face]; Produção: Cinematograph AB / Sveriges Radio; País: Suécia / Itália; Ano: 1976; Duração: 114 minutos; Distribuição: Paramount Pictures (EUA), Cinema International Corporation (CIC) (Reino Unido); Estreia: 5 de Abril de 1976 (EUA), 28 de Abril de 1976 (Suécia, Televisão), 21 de Novembro de 1979 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ingmar Bergman; Produção: Lars-Owe Carlberg; Argumento: Ingmar Bergman; Música: Wolfgang Amadeus Mozart; Fotografia: Sven Nykvist [cor por Eastmancolor]; Montagem: Siv Lundgren; Design de Produção: Anne Hagegård, Anna Asp, Maggie Strindberg; Caracterização: Cecilia Drott; Direcção de Produção: Katinka Faragó.

Elenco:

Liv Ullmann (Dr. Jenny Isaksson), Erland Josephson (Dr. Tomas Jacobi), Aino Taube (A Avó), Gunnar Björnstrand (O Avô), Kristina Adolphson (Enfermeira Veronica), Marianne Aminoff (Mãe de Jenny), Gösta Ekman (Mikael Strömberg), Helene Friberg (Anna, Filha de Jenny), Ulf Johansson (Helmuth Wankel), Sven Lindberg (Eric, Marido de Jenny), Jan-Erik Lindqvist (Pai de Jenny), Birger Malmsten (Violador), Sif Ruud (Elisabeth Wankel), Göran Stangertz (Violador).