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ArsenalCombate-se a Primeira Guerra Mundial, que tantas vidas tira dos solos ucranianos, deixando no seu lugar apenas devastação, miséria e sofrimento. Na frente de batalha a crescente deserção é acompanhada pela revolução russa de 1917. Quando os ucranianos regressam a casa, há agora que escolher o caminho a tomar, se optar por uma via burguesa, ou, como pretende Timosh (Semyon Svashenko), a adopção do regime dos sovietes. Para forçar este caminho, Timosh e os seus partidários fecham-se no arsenal de Kiev, de onde ajudam o avanço do exército vermelho e a nova União Soviética.

Análise:

Aleksandr Dovjenko realizou em 1929 “Arsenal”, aquele que é considerado o segundo filme da sua trilogia ucraniana, depois de “Zvenigora” (1928) e antes de “A Terra” (Zemlya,
1930). Ucraniano de origem, Dovjenko prestou uma especial atenção aos eventos que rodearam a revolução soviética, vistos do ponto de vista do seu povo, criando assim uma obra que, não deixando de se inserir na escola de propaganda soviética, característica daquele tempo, tem subtis vislumbres de ambiguidade na análise da situação.

Em “Arsenal”, a história leva-nos à Primeira Guerra Mundial, com a devastação e sofrimento da frente ucraniana, onde muitos soldados perdiam a vida. A rebelião na frente leva à deserção, acompanhada pela revolução russa de 1917. Resta aos ucranianos decidir o caminho a tomar, uma independência nacionalista de cariz burguês, ou, como pretende o protagonista Timosh (Semyon Svashenko), que apesar de soldado se continua a intitular de operário, uma adopção do regime dos sovietes. Para forçar este caminho, Timosh e os seus partidários fecham-se no arsenal de Kiev, de onde disparam sobre as tropas locais, ajudando o avanço do exército vermelho e consequente integração na nascente União Soviética.

Dovjenko relata no seu filme os acontecimentos da chamada Rebelião de Janeiro de 1918, que opôs a Ucrânia à União Soviética, com o ponto mais alto a acontecer no dia 29 na revolta do Arsenal de Kiev, durante as eleições ucranianas, para uma Assembleia Constituinte, em que os bolcheviques eram minoritários.

Tudo isto torna o filme de Dovjenko um pouco difícil de seguir, no que diz respeito ao papel político. Há no entanto valores universais, que transparecem, em qualquer língua ou forma de comunicação, e é isso que “Arsenal” nos transmite.

Tal começa logo nas imagens de abertura, que através da impavidez imóvel das mulheres, e no desespero de um agricultor sem um braço, conseguimos perceber a dor das terras abandonadas, entes queridos perdidos, e impossibilidade de subsistência dos camponeses. Segue-se a sequência da guerra, onde vemos assalto a trincheiras vazias, com o movimento de tropas filmado por entre o fumo dos gases, e chegando ao resultado de levar os homens à loucura, como expresso no soldado que ri desvairadamente.

Seguem-se os momentos políticos, com Timosh (Semyon Svashenko), um soldado de regresso da frente, a representar aqueles que queriam apenas voltar a ser operários. É por isso recebido com desconfiança pelas autoridades ucranianas, e ciente disso, interfere nas reuniões da Assembleia. Como Timosh diz em repetidas ocasiões, ele vê-se apenas como um operário, ou seja, a questão nacional para ele não tem importância, revendo-se mais facilmente naqueles que apoiam a revolta do proletariado (a revolução soviética), que nos ucranianos apostados em lutar por um parlamento e sociedade alicerçados em poderes burgueses.

O acto final mostra-nos a escalada da violência, com os confrontos nas ruas, os disparos a partir do arsenal, e as várias instâncias em que homens são executados a tiro como traidores.

Mostrando os proletários como homens que sofrem, e os seus opositores com risos cínicos e cruéis, não é difícil ver de que lado está Dovjenko. Todo o filme é visto do lado dos operários de Kiev, que querem apenas libertar-se de laços antigos. Nada nos é mostrado sobre o que está a acontecer na Rússia, onde o parlamento tinha sido abolido, e o Exército Vermelho avançava contra os seus camaradas ucranianos. Ainda assim, com o mostrar das execuções, clima de terror e destruição, Dovjenko dá uma visão crítica sobre os caminhos da guerra e revolução, e em particular sobre o sofrimento do seu povo.

Esse sofrimento está aliás presente da primeira à última cena, destacando-se pelo meio momentos pungentes como o funeral apressado do soldado que queria ser enterrado com os seus. O filme termina com os mesmos camponeses que lamentavam as suas perdas na sequência inicial, agora a lembrarem-nos do que se perdeu entretanto.

Dovjenko consegue, em “Arsenal”, um impacto que provém do modo como filma e monta o seu filme. Através de uma montagem rápida, planos concisos, um uso do close-up para marcar posições quanto à índole de cada personagem, ângulos oblíquos nos momentos de acção (por vezes filmados em elaborados travellings usando muitos figurantes), e um uso da luz (chiaroscuro, sombras, linhas que marcam o cenário) que lembra um pouco o expressionismo alemão. Com todos esses argumentos, Dovjenko confia sempre mais na imagem que na palavra, e os diálogos pontuam momentos, sem serem fundamentais no desenvolver das emoções que o filme transmite. Tudo isto surge, tanto ao serviço da narrativa e da acção, como ainda ao serviço das metáforas que guiam o filme e o tornam mais complexo e rico.

Amvrosi Buchma em "Arsenal" (Арсенал, 1929) de Aleksandr Dovjenko

Produção:

Título original: Arsenal / Арсенал; Produção: VUFKU; País: URSS; Ano: 1929; Duração: 90 minutos; Distribuição: Amkino Corporation (EUA); Estreia: 25 de Fevereiro de 1929 (Kiev, URSS).

Equipa técnica:

Realização: Aleksandr Dovjenko; Produção: Aleksandr Dovjenko; Argumento: Aleksandr Dovjenko; Música: Igor Belza; Fotografia: Daniil Demutsky [preto e branco]; Montagem: Aleksandr Dovjenko [não creditado]; Direcção Artística: Vadim Myuller, Iosif Shpinel.

Elenco:

Semyon Svashenko (Timosh, O Ucraniano), Amvrosi Buchma (Soldado Alemão que ri gaseado), Georgi Khorkov (Soldado do Exército Vermelho), Dmitri Erdman (Oficial Alemão), Sergey Petrov (Soldado Alemão), M. Mikhajlovsky (Um Nationalista), Aleksandr Evdakov (Czar Nicolau II), Nikolai Kuchinsky (Petliura), O. Merlatti (Sadovsky), Nikolai Nademsky (Avô).

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