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Potomok Chingis-KhanaEm 1918, no Sudoeste da Sibéria, as tribos de origem Mongólia, sucessoras do grande Genghis Khan, continuam a vida nómada tradicionalista de caçadores e mercadores de peles. Entre eles, Bair (Valéry Inkijinoff) negoceia com os ingleses, sendo enganado por um deles e, na revolta que sente, acaba expulso da comunidade. Bair vai ser recolhido pelos guerrilheiros bolcheviques que lutam na guerra civil russa, até acabar ferido pelos ingleses. Só que nessa altura alguém repara num documento que o dá como descendente de Genghis Khan. Os ingleses decidem então educá-lo para fazer dele um monarca de um regime fantoche na Mongólia.

Análise:

Em 1928, Vsevolod Pudovkine completava aquilo que ficaria conhecido como a sua trilogia da revolução, iniciada com “A Mãe” (Mat 1926), e continuada com “The End of St. Petersburg” (Konets Sankt-Peterburga, 1927). Com um filme cuja tradução literal significa “O herdeiro de Genghis Khan”, Pudovkine continuava a traçar o seu caminho diferente de (por exemplo) Eisenstein e Dovjenko, procurando olhar para aspectos periféricos da revolução, por vezes centrados em personagens individuais.

É o que acontece neste “Tempestade na Ásia”, com a acção a decorrer nas longínguas estepes da Mongólia, e centrada sobre o estilo de vida deste povo nómada, nas suas dificuldades ancestrais, estilo rude, apego à tradição, e proximidade ao budismo.

A história ocorre em 1918, na vasta estepe, onde jovem nómada Bair (Valéry Inkijinoff) vive da sua caça e comércio de peles. Mas nos seus negócios com um rico capitalista (Viktor Tsoppi), ele é enganado, e sua revolta violenta vale-lhe a expulsão da comunidade. Bair vai errar até se juntar aos guerrilheiros que lutam pelos soviéticos contra os exércitos capitalistas. Com a presença inglesa, que tenta assegurar o comércio de gado no sudoeste da Sibéria e Norte do Tibete, Bair acaba capturado, ao mesmo tempo que o comandante inglês (I. Dedintsev) negoceia acordos com o novo Dalai Lama (Fyodor Ivanov). A descoberta de um documento que sugere que Vair possa ser um descendente directo de Genghis Khan dá uma ideia aos ingleses. Torná-lo um príncipe, que represente o seu povo, num estado fantoche subjugado às potências capitalistas. Bair é educado como tal, mas, ao ver os maus tratos ao seu povo, revolta-se chacinando aqueles que o mantinham cativo.

Mesmo questionando-se a veracidade dos acontecimentos, quando a presença inglesa naquela parte do território não é clara, e era na verdade o regime soviético quem enganava e explorava as populações periféricas, sabe-se que é verdade que na guerra civil que opôs a chamada Rússia Branca (capitalista) e a Rússia Vermelha (bolchevique), que durou de 1917 a 1922, houve envolvimento das potências ocidentais. Houve também disputa dos territórios aqui citados, onde a integração na futura União Soviética desafiou o tradicionalismo, a religião e as influências externas (em particular a China).

Talvez querendo abordar essas ambiguidades, mas de uma forma muito indirecta, Pudovkine coloca os britânicos como os maus da fita, logo desde o momento em que exploram comercialmente as populações nómadas, no comércio de peles. Serão também eles, na parte final, que ao tentar estabelecer um reino fantoche, se proporcionam uma caricaturização do que eram as forças anti-revolucionárias em jogo.

No meio de tudo, sobrevive o jovem de etnia mongol, que apenas queria viver segundo a tradição dos seus pais. É o habitual olhar de Pudovkine para a tragédia pessoal, como forma de explicar os movimentos colectivos. Desta vez o autor fá-lo com um olhar longo e contemplativo para a desértica paisagem das estepes, e a sua vida austera.

Pudovkine contrasta uma montagem de longos planos quando descreve a vida tradicional, para uma de cortes rápidos nas cenas de acção. Não deixa de haver algum uso do paralelismo e simbolismo como comentário expresso pela justaposição de planos, como era apanágio do cinema soviético desta época (incluindo a atenção a detalhes, como inserts que exercem comentário sobre a acção, por exemplo nos grandes planos de mãos e gestos), mas sente-se um olhar terno para com a população explorada e em sofrimento, como se esta representasse a fragilidade que o regime queria proteger. Fica no entanto alguma crítica ao tradicionalismo supersticioso, e muito particularmente às religiões, como acontece com o budismo, aqui aliado dos ocidentais.

Com o seu olhar para o longínquo passado mongol, e a viagem do protagonista, tanto em termos geográficos, como no ganhar de consciência política, “Tempestade na Ásia” torna-se quase um épico, e não deixa de lembrar um pouco “Lawrence da Arábia” (Lawrence of Arabia, 1962) de David Lean. Sendo um dos filmes mais atípicos que tem por inspiração a Revolução russa, “Tempestade na Ásia” é ainda assim um dos seus exemplos mais memoráveis.

Valéry Inkijinoff em "Tempestade na Ásia" (Potomok Chingis-Khana / Потомок Чингис-Хана, 1928) de Vsevolod Pudovkine

Produção:

Título original: Potomok Chingis-Khana / Потомок Чингис-Хана [Título inglês: Storm Over Asia]; Produção: Mezhrabpomfilm; País: URSS; Ano: 1928; Duração: 125 minutos; Estreia: 10 de Novembro de 1928 (URSS), 17 de Dezembro de 1929 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Vsevolod Pudovkine; Argumento: Osip Brik [a partir da história de Ivan Novokshenov]; Fotografia: Anatoli Golovnya [preto e branco]; Direcção Artística: M. Aronson, Sergei Kozlovsky.

Elenco:

Valéry Inkijinoff (Bair, o Mongol), I. Dedintsev (O Comandante Inglês), Aleksandr Chistyakov (O Líder Rebelde Russo), Viktor Tsoppi (Henry Hughes, O Mercador de Peles), Fyodor Ivanov (O Lama), V. Pro (Missionário Inglês que Traduz o Amuleto), Boris Barnet (Soldado Inglês com Cachimbo), Karl Gurnyak (Soldado Inglês), Bilinskaya (Mulher do Comandante), I. Inkizhinov (Pai de Bair), Anel Sudakevich (Filha do Comandante).

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