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Bronenosets PotemkinContando a história de uma revolução falhada, em 1905, acompanhamos a sublevação do couraçado Potemkin, quando este é enviado para Odessa, para esmagar uma revolta popular. Sob o comandante Golikov (Vladimir Barsky), os marinheiros são tratados como gado, o que os leva a recusar as suas ordens quando percebem que em terra há protestos contra a situação geral da Rússia. Liderado por Grigory Vakulinchuk (Aleksandr Antonov), que se sacrifica pelos companheiros, o motim a bordo leva à morte dos oficiais. Os marinheiros juntam-se então ao povo, que os recebe como heróis, enquanto as tropas do poder apertam o cerco por mar e terra.

Análise:

Logo após “A Greve”, Sergei Eisenstein estreava um segundo filme tendo por base a luta proletária, no espírito da revolução russa de 1917. Desta vez o tema era mesmo a reconstituição de um episódio real, uma revolução falhada em 1905, mostrando a sublevação do couraçado Potemkin, alinhando-se com os revolucionários quando era enviado para manter a ordem na zona de Odessa, nas margens do Mar Negro.

Mais um vez partindo de uma citação de Lenine, Eisenstein, que também foi responsável pelo argumento, tem uma nítida missão de contar a história com exaltação revolucionária, onde mantém algumas características do seu filme anterior, como o estilo documental para forçar o realismo da obra; o heroísmo colectivo num filme sem protagonismos individuais; a denúncia das condições sub-humanas em que vive o povo, perante a indiferença e prepotência da classe dominante; e um ritmo frenético evocativo de uma paixão pela mudança.

Contado em cinco capítulos (intitulados “Homens e Vermes”, “Drama a Bordo”, “Uma Morte Reclama Justiça”, “Os Degraus de Odessa” e “Um Contra Todos”) “O Couraçado Potemkin” tem dois cenários principais, o navio que dá nome ao filme, e Odessa, na escadaria que intitula o quarto acto. Eisenstein começa por nos mostrar as condições deploráveis em que os marinheiros vivem a bordo do Potemkin, onde lhes é dada carne podre, maus tratos, e muita arrogância. Quando, em protesto, os marinheiros se recusam a comer uma refeição, são todos chamados perante o comandante Golikov (Vladimir Barsky), que ordena a morte dos responsáveis. Mas os soldados recusam-se a disparar, iniciando o motim a bordo, que resulta na morte dos oficiais. O Potemkin decide então juntar-se à revolução, e aos camaradas que lutam em terra, rumando a Odessa, onde depositam o corpo do seu líder Grigory Vakulinchuk (Aleksandr Antonov) morto a bordo. O povo recebe-os em festa, presenteando-os com comida. Mas a festa é interrompida pela chegada dos cossacos que disparam sobre a multidão indiscriminadamente. O Potemkin responde, disparando sobre o quartel e os cossacos. É então enviada uma frota para interceptar o Potemkin, e este enfrenta os navios czaristas, mas perante a mensagem para que se juntem a si, os outros navios abdicam de lutar e celebram o Potemkin a quem se juntam.

Numa estrutura parecida com a de “A Greve”, Eisenstein volta a confiar numa história que privilegia o colectivo, e num ritmo acelerado, que depende fortemente da montagem, para um filme que é uma clara mensagem de propaganda, ao serviço do regime soviético. Por outro lado “O Couraçado Potemkin” faz “A Greve” parecer um ensaio. Embora mantendo o estilo e as ideias, nota-se uma evolução rápida (ambos os filmes são do mesmo ano). Em “O Couraçado Potemkin” o ritmo é mais doseado (com sequências um pouco mais longas na parte inicial) com um início mais pausado, a deixar que a apresentação se insinue aos poucos, e contribua para um acumular de tensão que explode verdadeiramente a partir do segundo acto. Existem também mais diálogos (algo quase ausente no filme anterior), e os cenários são bastante mais elaborados.

Mantém-se o ritmo rápido, a partir de uma montagem muito densa, o uso dos close-ups para sugerir tensão e emoções, a constante inclusão de inserts; e a existência de diversos paralelismos simbólicos (por exemplo os pormenores dos motores do navio, que trabalham aceleradamente, comparando a revolução a uma máquina que não pode ser parada). O filme ficaria particularmente conhecido pela sequência dramática nas escadarias de Odessa, onde o contínuo avançar e disparar dos cossacos sobre a multidão é filmado em detalhe, com uma decoupage elaborada onde vamos testemunhando tantos momentos de tragédia.

Aceite-se ou não o lado propagandístico do filme (com uma completa diabolização das forças czaristas, e olhar apiedado para o constante sofrimento do povo), “O Couraçado Potemkin” tem sido considerado um marco na história do cinema, no modo de tratar o ritmo, a montagem e a dramatização da emoção e tensão. Mas mesmo com o reconhecimento de pessoas como Charles Chaplin ou Billy Wilder, o filme falhou comercialmente, mesmo na União Soviética, onde o público não compreendeu o lado artístico, desprovido de um fio condutor mais classicamente aventureiro.

Também acusado de ser graficamente violento, o filme foi proibido em muitos países, principalmente por motivos políticos. Não obstante, “O Couraçado Potemkin” tem mantido o seu espaço na história do cinema, solidamente posicionado em lugares de destaque nas listas dos melhores e mais influentes filmes de sempre.

Imagem de "O Couraçado Potemkin" (Bronenosets Potemkin / Броненосец «Потёмкин», 1925) de Sergei M. Eisenstein

Produção:

Título original: Bronenosets Potemkin / Броненосец «Потёмкин» [Título em inglês: Battleship Potemkim]; Produção: Goskino / Mosfilm; País: URSS; Ano: 1925; Duração: 73 minutos; Distribuição: Goskino (URSS), Amkino Corporation (EUA), Prometheus-Film-Verleih und Vertriebs-GmbH (Alemanha); Estreia: 24 de Dezembro de 1925 (URSS), 19 de Maio de 1974 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Sergei M. Eisenstein; Argumento: Nina Agadzhanova, Sergei M. Eisenstein [não creditado]; Intertítulos: Nikolai Aseyev [não creditado], Sergei Tretyakov [não creditado]; Música: Vladimir Heifetz, Edmund Meisel; Fotografia: Eduard Tisse [preto e branco]; Montagem: Sergei M. Eisenstein Eisenstein [não creditado]; Direcção Artística: Vasili Rakhals [não creditado].

Elenco:

Aleksandr Antonov (Grigory Vakulinchuk), Vladimir Barsky (Comandante Golikov), Grigori Aleksandrov (Oficial Chefe Giliarovsky), Ivan Bobrov (Jovem Marinheiro Chicoteado Enquanto Dorme), Mikhail Gomorov (Marinheiro Militante), Aleksandr Levshin (Oficial), N. Poltavtseva (Mulher com Óculos), Konstantin Feldman (Agitador Estudantil), Prokopenko (Mulher Carregando o Rapaz Ferido), A. Glauberman (Rapaz Ferido), Beatrice Vitoldi (Mulher com Bebé no Carrinho).

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